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Cultura

A mulher que falava com os mortos

Descubra como um filme aparentemente bobo despertou reflexões profundas em Shirley, levando-a a questionar suas crenças

- Foto: Reprodução

Reinaldo Polito Publicado em 09/10/2026, às 21h37

Já escrevi mais de 2 mil artigos nas últimas três décadas e descobri que escrever se aprende escrevendo. De vez em quando, escrevo um texto só por deleite pessoal, sem intenção de publicá-lo. Guardo em uma pasta e, às vezes, até me esqueço dele. Ao reler alguns, sinto surpresa e até um pouco de vergonha. Este é um deles. Tirei-o do “baú” para compartilhar com quem me acompanha. Espero que se divirta.

Shirley era uma mulher resolvida. Não tinha medo de nada. Talvez apenas um pouco de receio da sua própria autoconfiança, pois, por ser inteligente, sabia que excesso de segurança põe a pessoa a um passo das encrencas. Por isso, achava prudente viver com uma pulguinha atrás da orelha.

Um fantasma no cinema

Certa noite, Shirley foi sozinha ao cinema. Gostava desses passeios solitários para refletir sobre a vida. Assistiu a “Ghost: do outro lado da vida”, de 1990, estrelado por Patrick Swayze e Demi Moore. Na história, o personagem vivido por Patrick, Sam Wheat, é atacado e morto ao voltar para casa, depois de assistir com Molly (Demi Moore) a uma apresentação de Macbeth.

Embora tenha achado inverossímil, Shirley gostou do filme. Riu muito das pessoas que choravam ao seu lado, tocadas pela história do espírito de Sam, preso ao mundo dos vivos até desvendar quem tramara sua morte.

Golpes do além

A atriz Whoopi Goldberg viveu Oda Mae Brown, que aplicava golpes em pessoas ingênuas, fingindo receber recados do além. De todas as personagens, foi dessa médium trambiqueira que Shirley mais gostou. Ficou tão fascinada que não conseguiu dormir naquela noite.

Estranhou muito. Afinal, por que perdeu o sono? Não acreditava em histórias sobrenaturais! Muito menos se deixaria influenciar por um filme bobinho como aquele. No dia seguinte, com a fisionomia cansada pela noite indormida, Shirley foi trabalhar, mas não conseguiu se concentrar. A figura de Oda não saía da sua cabeça. Será que havia mesmo pessoas que conseguiam falar com os mortos? Que besteira, concluiu.

A igreja era quase só lembrança

À tarde, ao sair do escritório, não resistiu à tentação e voltou ao cinema para rever o filme. Imaginava que assim se acalmaria. Piorou. No caminho de volta para casa, fez o que não fazia havia anos: parou em uma igreja para rezar. Estava tão afastada da religião que mal se lembrava das orações da infância.

Na saída, encontrou um padre que andava com dificuldade, arqueado pela idade. Quando os olhares se cruzaram, percebeu naquele velho uma bondade que jamais vira em ninguém. Sem dizer uma única palavra, com um gesto delicado, ele a convidou para se sentar.

Velhinho atencioso

Acompanhado de uma jovem freira, o ancião sentou-se ao seu lado, apresentou-se como padre Bernardo e disse que a freira era a irmã Maria Cristina. Perguntou o que a atormentava. Shirley contou tudo. Ele a ouvia pacientemente, sorria e, de vez em quando, balançava suavemente a cabeça.

No final, pôs a mão sobre seu ombro e disse com voz meiga e pausada: “Minha filha, acredite em Deus, reze com a força do seu coração e encontrará a paz que procura.” Ela agradeceu, despediu-se dos dois e se retirou.

A conversa funcionou

Shirley saiu aliviada, como se lhe tivessem tirado um peso das costas. Exausta, foi para casa pensando em pegar uma caminha e pôr o sono em dia. No dia seguinte, era outra. Disposta, alegre, de bem com a vida. Seguiu para o trabalho com vontade de produzir.

Ao voltar para casa, riu ao ter a sensação de que uma voz lhe sussurrava ao ouvido. Que loucura, pensou. Uma pessoa mais impressionável acreditaria que estavam mesmo falando com ela. Ao se deitar, a voz ainda insistia em cochichar. Parecia a de sua mãe, que morrera havia cinco anos.

Sussurros ao pé do ouvido

Demorou a pegar no sono: mais uma noite de insônia. Amanheceu sonolenta e com aquela bendita voz no ouvido. As palavras eram incompreensíveis. Em vez de ir ao trabalho, preferiu voltar à igreja e conversar mais uma vez com o padre Bernardo. Ele certamente a tranquilizaria.

Encontrou um senhor, sacristão naquela paróquia, e perguntou-lhe pelo padre Bernardo. O homem nunca ouvira falar dele, e trabalhava ali havia mais de trinta anos. Shirley perguntou então pela irmã Maria Cristina. A resposta foi a mesma: nenhuma freira assim chamada servia naquela igreja.

Ficou apavorada, não sabia o que fazer. Ligou para o escritório e inventou uma desculpa para a falta. Que influência aquele filme teve em sua vida! Em casa, a voz continuava. Agora as palavras se tornavam mais claras, embora as frases ainda não fizessem sentido. Parecia uma mensagem do além. No espelho, às suas costas, viu o semblante sorridente do padre Bernardo. Siga pelo Instagram: @polito

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