Falta de propostas concretas nas campanhas revela um padrão: os eleitores preferem o espetáculo às promessas de governo
Reinaldo Polito Publicado em 05/06/2026, às 18h53
Entra ano, sai ano. Chega eleição, passa eleição. A cada dois anos a história se repete. Os candidatos vão para o palanque ou participam de debates e, em vez de falarem de seus programas de governo, apelam para a troca de acusações. Em muitos casos, pessoais. Do jeito que a pré-campanha se desenvolve, teremos uma repetição dos últimos pleitos. Muito xingamento e pouca proposta.
Lula leva vantagem nessa trocação. Desde sempre usou o deboche, a ironia e o ataque aos seus adversários para compensar a falta de programa para o seu governo. Flávio não tem muitas opções a não ser cair nessa armadilha. Por isso, também subiu no ringue para tentar mostrar que é bom de briga.
Tem branco no samba
Só que nessa praia dá a impressão de ser um turista andando de tênis na areia. Mudou um pouco. Tem procurado falar mais grosso, mas ainda perde no confronto. Ao interpretar sua indignação, deixa claro até para os mais leigos em linguagem corporal que a sua braveza não sai de dentro.
Há pouco tempo, resolveu bater na mesa algumas vezes para exteriorizar sua fúria. Só que falava e depois fazia o gesto. Ficou evidente que era um comportamento artificial. Se fosse espontâneo, o gesto surgiria antes ou junto com as palavras, não depois. É só um exemplo de como o senador ainda engatinha nesses embates.
Aprendendo a interpretar
Sua saída para a falta de couro duro na rinha foi dizer que, ao contrário do pai, é um político moderado, que prefere o diálogo, o entendimento, a harmonia. Até que não foi uma estratégia ruim. Mas, à medida que a campanha esquenta, essa postura tem prazo de validade. Por isso, precisa aprender rápido a bater sem medo de ser feliz.
Se Flávio fosse um de meus alunos, eu iria sugerir que fizesse um combo em suas atitudes. Atacasse, como deve fazer um político “que se preze”, mas escolhesse os temas econômicos e sociais como alvo. Como está no Senado há um bom tempo trocando farpas com os adversários, basta só calibrar e subir o tom a algumas oitavas para entrar em campo de corpo e alma – pelo menos na aparência.
Da cintura para baixo
Até aqui tem levado cruzados de esquerda e direita e cambaleado entre as cordas. Esse exercício, entretanto, permite um aprendizado rápido. Com duas ou três contagens no chão, antes de chegar a dez, vai perceber que nesse jogo vale até golpes da cintura para baixo. Se observar o comportamento de Lula, vai saber como agir.
O que não falta em Lula é telhado de vidro. Basta um pouco de reflexão para eleger três ou quatro temas e incluir na argumentação: corrupção, economia, política internacional, incompetência governamental. A lista é grande.
Se até ela sobreviveu
Se fizer como Dilma fez com Aécio nos debates para as eleições de 2014, poderá acertar. Mesmo tendo oratória fraquinha, ela se preparou tanto para aqueles confrontos que sobreviveu. O adversário acusava e a petista respondia sempre com um revide no final. Por isso, em vez de continuar com os ataques, Aécio precisava se defender das críticas, sem tempo para desferir novos golpes.
Se ela, com todas as deficiências oratórias, conseguiu se virar em uma situação delicada como aquela, por que Flávio, com muito mais repertório, não poderá se sair vencedor? Não que não tenha tentado vez ou outra agir assim, mas para vencer eleição os punhos precisarão estar mais certeiros e pesados.
Brioches e pacas
Mas e os programas de governo? Como já vimos em eleições passadas, campanha não é o momento para essas “conversas chatas”. O que a maioria quer ver mesmo é pancadaria. Tanto é verdade que os políticos mentem com a cara mais lavada durante os pronunciamentos e, quando são cobrados depois, sem cerimônia justificam: era só coisa de campanha.
Lula está confortável nessa peleja porque quase nunca se esmerou em apresentar uma cartilha robusta para a sua administração. E também não se preocupou muito em cumprir suas promessas. Até hoje seus eleitores, enquanto saboreiam uma suculenta abóbora, esperam a picanha com aquela gordurinha.
A frase atribuída à Maria Antonieta serve bem para a filosofia da campanha: “Se não têm pão, que comam brioches”. Aqui poderia ser: “Se não tem picanha, que comam paca”. Siga pelo Instagram: @polito