Como a câmera reorganizou o visível, o conhecimento e a vida cotidiana
Marlene Polito Publicado em 27/01/2026, às 14h09
A fotografia e a invenção do olhar
Há algo de estranho nas fotografias antigas de família.
Os corpos rígidos, os rostos sérios, as crianças imóveis, os olhares quase sempre tensos. Ninguém parece confortável. Ninguém parece espontâneo. Tudo ali é presença e, ao mesmo tempo, contenção.
Não é apenas uma questão técnica, nem apenas o longo tempo de exposição. Há algo mais sutil: as pessoas ainda não sabiam como estar diante de uma câmera, como se apresentar a um dispositivo que as fixaria para sempre.
A fotografia trouxe algo verdadeiramente novo. Pela primeira vez, a realidade parecia poder ser registrada com fidelidade, como se a percepção humana pudesse ser substituída por um mecanismo neutro. Mais do que reproduzir formas, ela imobilizou o tempo, arrancando o instante de seu fluxo contínuo. A imagem passou a ser entendida como testemunho. O passado tornou-se acessível como registro, disponível à consulta, à comparação.
Ao mesmo tempo, democratizou a visão: ver e mostrar deixaram de ser privilégio do artista treinado. A fotografia nasceu com a promessa de registrar o mundo, mas acabou transformando a maneira como o mundo se apresenta. Ensinou indivíduos e sociedades a se pensarem como imagem, a encenar a própria presença para um olhar que arquiva e eterniza. Existir passou a implicar ser visto. E ser fotografável.
Antes dela, a percepção interpretava. Depois dela, passou a confiar.
Essa transformação não se limitou a um domínio específico. A fotografia reorganizou práticas, saberes e sensibilidades. Na arte, o impacto foi imediato. Ao libertar a pintura da obrigação de copiar o mundo, levou a arte a inventar outros mundos. Se a câmera pode registrar o visível, a pintura já não precisa fazê-lo.
Abre-se espaço para a cor, o gesto, a emoção, a abstração. A arte deixa de competir com o real e passa a interrogá-lo.
O impacto, porém, não ficou restrito aos ateliês. A fotografia redefiniu também o modo de produzir conhecimento e de exercer poder.
Na ciência, introduziu uma nova forma de evidência. O invisível tornou-se perceptível, o efêmero pôde ser capturado, o detalhe microscópico ganhou estatuto de prova. Ver tornou-se argumento.
Foi nesse contexto que Eadweard Muybridge (1878) desmontou o galope de um cavalo em instantes. O movimento deixou de ser contínuo para tornar-se analisável. O tempo passava a ser objeto de investigação visual.
Na política e no jornalismo, inaugurou uma retórica própria. Uma fotografia passou a persuadir mais do que um discurso, a emocionar mais do que uma estatística. O sofrimento distante ganhou rosto, a guerra ganhou cena, a injustiça ganhou enquadramento. Ao mesmo tempo, o poder descobriu na câmera uma ferramenta de encenação, propaganda e controle. A fotografia não apenas registra; escolhe, enquadra, hierarquiza.
Na vida cotidiana, transformou a memória em arquivo. Famílias passaram a existir em álbuns, viagens em séries de registros, acontecimentos em galerias digitais. O instante deixou de ser apenas vivido; passou a ser colecionado.
O cotidiano tornou-se fotografável. E, ao tornar-se fotografável, tornou-se também performativo.
Essa centralidade da imagem não reorganizou apenas o perceptível. Reorganizou também o pensamento. A imagem tornou-se atalho cognitivo, substituto da descrição, evidência instantânea. O mundo tornou-se uma sequência de telas.
Nesse novo regime da visão, a interpretação cede espaço ao impacto. O julgamento se acelera, a mediação se encurta. A imaginação, que antes preenchia o que não se via, passa agora a disputar espaço com o excesso do que se mostra no mundo.
O invisível encolhe; o visível transborda. A fotografia reduz o intervalo entre a experiência e a mente, mas também encurta o tempo da reflexão. O que se vê parece bastar.
Paradoxalmente, as grandes fotografias fazem o contrário. Elas não se oferecem ao consumo imediato; resistem. Interrompem o fluxo, criam silêncio, exigem demora. Não entregam respostas; instauram perguntas. Enquanto a avalanche de imagens entorpece, algumas poucas ainda nos obrigam a pensar.
Num mundo saturado de fotografias, talvez o desafio não seja produzir mais imagens, mas reaprender a olhar. A fotografia prometeu tornar o mundo transparente; em troca, tornou-o inesgotável. Quanto mais vemos, menos terminamos de compreender.
Como observou Susan Sontag, fotografar é também uma forma de apropriação do mundo. Se antes a percepção interpretava e depois passou a confiar, talvez hoje precise voltar a interpretar.
Pensar, hoje, pode ser sustentar esse intervalo: o espaço raro entre a imagem e o sentido.