Jorge Vespero Publicado em 16/09/2026, às 08h35
Há momentos em que o silêncio diz muito. E há outros em que poucas palavras conseguem dizer mais do que horas de discussão.
Foi essa a sensação que tive ao acompanhar a sessão do Supremo Tribunal Federal nesta semana.
Em meio a debates, divergências, interrupções e disputas pela palavra, uma imagem me chamou especialmente a atenção: a ministra Cármen Lúcia, durante boa parte do tempo, permaneceu em silêncio. Ouviu.
Quando finalmente falou, foi breve. Ainda assim, sua manifestação foi interrompida diversas vezes. E aquela cena, dentro da mais alta Corte do país, acabou representando algo que milhares de mulheres experimentam diariamente: tentar concluir um raciocínio enquanto homens ao redor parecem considerar natural interferir em sua fala ou até explicar como deveriam se posicionar.
Cármen Lúcia poderia ter respondido no mesmo tom. Poderia ter elevado a voz ou transformado o momento em um confronto pessoal.
Não fez nada disso.
Com serenidade e elegância, colocou-se de maneira firme, chamou a atenção para a responsabilidade institucional daquele plenário e chegou a pedir desculpas à população brasileira pelo que estava presenciando.
Não entro aqui no mérito jurídico do julgamento, nem pretendo transformar esta reflexão em uma discussão política. O que me impressionou foi algo muito maior.
Foi ver uma mulher demonstrar que firmeza não precisa de agressividade. Que autoridade não depende do volume da voz. E, principalmente, que educação jamais pode ser confundida com submissão.
Quantas mulheres vivem situações semelhantes todos os dias?
Em empresas, escritórios, universidades, hospitais, na política ou dentro de casa. São interrompidas. Precisam repetir argumentos. Muitas vezes têm sua capacidade questionada antes mesmo de conseguirem terminar uma frase.
Respeitar uma mulher não significa poupá-la do contraditório. Mulheres não precisam de condescendência. Precisam de igualdade.
Podemos discordar, contestar, debater e confrontar ideias. Mas igualdade também significa reconhecer em uma mulher a mesma autoridade, inteligência e direito à palavra que reconheceríamos em um homem ocupando aquela mesma cadeira.
Talvez esteja aí uma das definições mais simples de respeito: não colocar mulheres acima dos homens, mas jamais colocá-las abaixo.
Cármen Lúcia não precisou gritar para demonstrar força. Não precisou diminuir ninguém para demonstrar autoridade.
Ela ouviu. Esperou. E falou.
E, depois de tantas vozes naquele plenário, foi justamente a serenidade de uma mulher que conseguiu dizer tanto.
Porque o verdadeiro poder não está em falar mais alto.
Está em ter voz — e ser respeitada quando decide usá-la.