Cultura

Como um país aprende a se ver?

Explore como Tarsila do Amaral ajudou a redefinir o que é considerado arte brasileira, valorizando o popular e o caipira

Visitantes na exposição imersiva O Brasil de Tarsila, no Nubank Arte Lab, em São Paulo - Foto: Divulgação/Nubank Arte Lab
Visitantes na exposição imersiva O Brasil de Tarsila, no Nubank Arte Lab, em São Paulo - Foto: Divulgação/Nubank Arte Lab
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 20/10/2026, às 18h59


Nos 140 anos de nascimento de Tarsila do Amaral, uma exposição em São Paulo convida o visitante a entrar em seu universo. Em O Brasil de Tarsila, cores, formas e paisagens ocupam paredes inteiras e cercam o público.

Há algo de simbólico nisso. Entramos com naturalidade em imagens familiares. Reconhecemos nelas alguma coisa que chamamos de Brasil. Mas como passaram a nos pertencer?

Em 1923, Tarsila estava em Paris quando escreveu à família: “Sinto-me cada vez mais brasileira: quero ser a pintora da minha terra.” Estudava com André Lhote, Albert Gleizes e Fernand Léger e, enquanto assimilava experiências das vanguardas europeias, procurava uma linguagem que reconhecesse como brasileira.

Foi nesse ambiente que mostrou a Léger A Negra. O mestre se entusiasmou a ponto de chamar outros alunos para vê-la. A cena é sugestiva: no centro da vanguarda parisiense, uma imagem marcada por referências brasileiras despertava atenção.

Talvez a distância torne mais visível aquilo que a proximidade naturaliza. Às vezes, uma cultura também aprende a se ver ao afastar-se um pouco de si mesma.

Tarsila do Amaral, c. 1925. Biblioteca Mário de Andrade
Tarsila do Amaral, c. 1925. Biblioteca Mário de Andrade - Domínio público

Mas que país Tarsila queria pintar?

Provavelmente vários ao mesmo tempo: o da infância na fazenda, o que os modernistas tentavam descobrir, o que se revelava à distância, em Paris, e também aquele que a própria pintura ajudaria a inventar.

No Brasil, o terreno já vinha agitado havia alguns anos. A exposição de Anita Malfatti, em 1917, provocara reações intensas. Mais tarde, ela recordaria que quadros já vendidos haviam sido devolvidos após a crítica de Monteiro Lobato. Na Semana de 1922, houve vaias, provocações e algazarra no Theatro Municipal.

Tarsila não participou da Semana. Estava em Paris. Quando voltou, em meados de 1922, aproximou-se de Anita, Mário, Oswald e Menotti del Picchia. Formava-se o Grupo dos Cinco. O modernismo não acontecia apenas em exposições e manifestos. Havia festas, encontros em ateliês, poemas lidos de madrugada e corridas no Cadillac verde de Oswald até o alto da serra.

Por um instante, aqueles nomes voltam a ser jovens discutindo, provocando e procurando algo que ainda não sabiam como chamar: uma maneira de ser moderno no Brasil.

E ela não estava só na forma de pintar, mas também naquilo que passaria a merecer ser olhado.

Em 1924, Tarsila, Oswald, Mário e outros companheiros viajaram pelas cidades históricas de Minas Gerais com o poeta franco-suíço Blaise Cendrars. Levavam um europeu para conhecer o Brasil enquanto eles próprios pareciam redescobri-lo.

Tarsila contou ter reencontrado em Minas cores da infância que mais tarde lhe ensinaram a evitar por serem “caipiras”: “azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante”. Ainda em Paris, já dizia querer estudar “o gosto e a arte dos nossos caipiras”.

Esse interesse se estenderia a um universo popular mais amplo. Interior e subúrbio, fazendas e favelas, plantas, animais, personagens e lendas atravessariam suas telas.

Não era apenas uma mudança de paleta. Mudava também aquilo que podia ser visto como matéria de arte.

Na fase Pau-Brasil, formas aprendidas com a vanguarda europeia convivem com igrejas, morros, casas, vegetação, ferrovias e cenas brasileiras. O país passa pelo olhar da artista e volta transformado.

Tarsila não encontrava diante de si um Brasil pronto, à espera de ser reproduzido. Escolhia. Toda representação é também seleção.

Algumas cores entram, outras ficam de fora. Certos corpos e paisagens ganham destaque. Uma cultura nunca se vê inteira numa única imagem.

Uma palmeira continua sendo uma palmeira. Uma igreja, uma igreja. Certas imagens, porém, ao condensar lembranças, valores e maneiras de viver, ultrapassam aquilo que representam. Os símbolos não aparecem prontos. São escolhidos, transformados, repetidos e, às vezes, disputados.

Instalação inspirada em Abaporu na exposição imersiva O Brasil de Tarsila, no Nubank Arte Lab, em São Paulo
Instalação inspirada em Abaporu na exposição imersiva O Brasil de Tarsila, no Nubank Arte Lab, em São Paulo - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Quase um século depois de ser pintado, Abaporu ganha dimensões monumentais nesta exposição e é reconhecido por milhares de visitantes. Já não pertence só à história de uma pintura. Tornou-se parte do repertório pelo qual o Brasil também se imagina.

Tarsila não apenas representou o Brasil. De certo modo, ajudou a construir uma imagem possível do país para os próprios brasileiros: um vocabulário visual no qual aquilo que fora considerado caipira, popular ou pouco refinado podia adquirir outro valor.

E esse olhar não permaneceu imóvel. Em Operários, de 1933, rostos diversos se acumulam diante de fábricas e chaminés. A industrialização, o trabalho e a diversidade da sociedade brasileira entram em cena.

Uma cultura aprende a se ver também quando enxerga suas transformações e contradições.

Talvez esteja aí uma das razões pelas quais Tarsila continue a nos atrair. Sua pintura não oferece um retrato acabado do Brasil. Nenhuma imagem poderia fazê-lo. O país muda, os olhares mudam e aquilo que reconhecemos como “nosso” também muda.

A exposição imersiva de 2026 devolve essas imagens em escala ampliada. Entramos nelas, caminhamos entre elas, identificamos cores e formas criadas há cerca de um século.

Talvez o mais interessante não seja apenas perguntar por que ainda reconhecemos o Brasil em Tarsila.

Há uma pergunta anterior, e possivelmente a mais difícil:

Quando um país começa a reconhecer a si mesmo numa imagem?