Cultura

Curiosidades da Academia Brasileira de Letras

Entenda como figuras públicas como Gilberto Gil e Míriam Leitão se tornaram membros da ABL e a polêmica sobre seus critérios

Sede da Academia Brasileira de Letras (ABL) no Rio de Janeiro. Foto: Wolfhardt / via Wikimedia Commons / CC-BY-SA 3.0
Sede da Academia Brasileira de Letras (ABL) no Rio de Janeiro. Foto: Wolfhardt / via Wikimedia Commons / CC-BY-SA 3.0
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 16/10/2026, às 11h12


Você sabia que o jornalista Merval Pereira é o atual presidente da Academia Brasileira de Letras? E não é de hoje que ele ocupa esse cargo. Está à frente da instituição desde 2022. Foi eleito em 2 de junho de 2011 para a cadeira nº 31, na sucessão de Moacyr Scliar. Pois é, quem se acostumou a assistir aos seus comentários na televisão e ainda desconhecia essa sua faceta deve ter se surpreendido.

E já que falamos de surpresas, ostentam o fardão da Academia outras figuras conhecidas do grande público, entre elas Míriam Leitão, Gilberto Gil e Fernanda Montenegro. O estranhamento se dá porque no imaginário popular só pertence à Academia quem vive das letras. Os que pensam assim estão equivocados.

E essa polêmica é antiga. Na verdade, surgiu já na fundação da instituição. Machado de Assis e Joaquim Nabuco, que foram membros fundadores, tinham opiniões diversas sobre essa questão. Machado advogava que o critério para ocupar uma cadeira deveria ser a carreira literária. Nabuco, por outro lado, defendia outra posição. Para o autor de “Um estadista do Império”, desde que tivesse vínculo literário, qualquer atividade poderia ser considerada.

Casos curiosos da Academia

Quem julga que os critérios para eleição de um membro da Academia deveriam ser mais rigorosos precisa conhecer alguns eventos do passado. Políticos como Getúlio Vargas e José Sarney foram eleitos. E houve até um caso singular, o de Graça Aranha. Ele foi um dos fundadores da Academia, em 1897, quando ainda não havia publicado nenhum livro. Sua estreia nas letras ocorreu em 1902, com o romance “Canaã”.

Acompanho essas histórias há muito tempo. Tenho todos os volumes dos “Discursos acadêmicos”, da Academia Brasileira de Letras. Entre eles há o relato de um fato muito inusitado, o de um acadêmico que não chegou a pertencer à Academia, Francisco de Castro. O episódio contado por seu filho Aloysio de Castro é emocionante e até espantoso.

Uma bonita amizade

No dia 15 de abril de 1919, o filho de Francisco tomou posse na cadeira nº 5, que pertencera a Oswaldo Cruz. Em seu discurso de posse, Aloysio revela que o pai, também médico, mantivera estreita amizade com Machado de Assis. No dia 10 de agosto de 1899, Francisco de Castro foi eleito para ocupar a cadeira nº 13 da Academia.

Segundo o filho, ele foi um homem brilhante. Além de ser excelente orador, poeta sensível e dedicado ao ensino, era também conversador admirável. O tempo passou e o novo acadêmico não tomava a iniciativa de entregar seu discurso de posse.

Machado de Assis resolveu, então, visitá-lo para conversar e pedir que apressasse o término de sua mensagem. Francisco de Castro atendeu ao pedido do velho amigo, concluiu seu discurso, fez todas as revisões e o encaminhou ao autor de Quincas Borba.

O destino preparava surpresas

Quis o destino, todavia, que o médico não pudesse ler sua peça oratória. Faleceu no dia 11 de outubro de 1901, pouco antes da data marcada para a posse. Entrou para a história como o acadêmico que não chegou a pertencer à Academia.

Aloysio de Castro reservou boa parte do discurso de posse para descrever a amizade de seu pai com Machado de Assis. Deu detalhes de como o fundador da Academia se dirigiu à sua casa para animar Francisco de Castro a concluir e entregar o discurso. Revelou que o fato mais interessante na conversa entre os dois amigos foi o momento em que falaram sobre livros e as providências que tomavam para protegê-los dos insetos. Comoveu-se ainda mais ao dizer que aquela fora a última vez que os dois se viram.

A minha emoção ao encontrar o discurso de posse

Não fazia muito tempo que eu havia lido o discurso de Aloysio de Castro. Por uma coincidência que me surpreendeu muito, em uma de minhas atividades preferidas, garimpar livros nos sebos do centro velho de São Paulo, encontrei em excelente estado um exemplar do livro com o discurso de Francisco de Castro.

Eu me emocionei ao ler aquele discurso que jamais seria usado em sua posse. Dá para imaginar também o que sentiu Aloysio ao relatar esses acontecimentos no momento em que entrava para a Academia. Um sonho realizado por ele, mas que não havia sido possível ao seu pai.

Será que no futuro, longe de holofotes e de interesses políticos, alguém se sensibilizará com a história das recentes posses na Academia?

Afonso Arinos de Mello Franco foi severo ao se referir aos critérios da ABL: “Meu desejo sincero seria que nossa Academia Brasileira não se esquecesse tanto de que é também de...letras”. Siga pelo Instagram: @polito