Aprenda a contar histórias de forma interessante, sem exageros que possam incomodar os ouvintes; como o equilíbrio no uso do humor pode fazer a diferença

por Reinaldo Polito
Publicado em 07/08/2026, às 10h06
Você conhece algum espalha-roda? Aquele sujeito que quer ser engraçadinho o tempo todo e se torna inconveniente? Assim que aparece, as pessoas arrumam alguma desculpa e vão se dispersando. Esse é o chato. Não se contenta em contar apenas uma piada, uma história ou usar uma tirada espirituosa. Vai contando uma atrás da outra até se transformar em bobo da corte.
Ser bem-humorado, espirituoso e bom contador de histórias é uma das competências mais admiráveis que alguém poderia desenvolver. Mas, assim como o remédio, quando tomado em dose exagerada, se transforma em veneno, o humor, que poderia promover a imagem de uma pessoa, em excesso pode ser negativo e prejudicar sua reputação.
O perigo de ultrapassar a fronteira
O segredo está na medida. Usado no momento certo, o humor aproxima, abre portas e torna a convivência mais agradável. Quando ultrapassa os limites do bom senso, o feitiço pode se voltar contra o feiticeiro.
Não há dúvida de que é muito bom conversar com uma pessoa bem-humorada, descontraída, leve. O papo rola solto e nem percebemos a hora passar. Quando menos se espera, lá vem aquela tirada espirituosa que, além de revelar raciocínio rápido, mostra que ela está prestando atenção em todos os assuntos discutidos.
Todos podem aprender
Podemos acrescentar nesse pacote do conversador agradável as boas histórias. No momento certo, a pessoa encaixa uma narrativa curiosa e instigante, tão adequada à conversa que parece fazer parte natural do tema discutido. E mais. Quase sempre são histórias curtas, que criam expectativa desde o início. No final, na maioria das vezes, deixam uma reflexão a respeito de alguma questão relevante.
Nem todos têm essa competência naturalmente desenvolvida, mas cada um pode aprender, desenvolver e aprimorar essa maneira de se comportar. Muitos dizem: ah, não sei contar uma história engraçada. Não tenho graça. Quando tento, já fico vermelho logo nas primeiras frases, pois sei que não vai dar certo.
Não há caso perdido. Temos de considerar que uma boa história não precisa ser necessariamente engraçada. Precisa, isto sim, ser interessante.
Começa com um processo imitativo
No início, a pessoa deve observar quem já é craque nessa matéria. Precisa notar como usa o tom de voz, as pausas e a expressão corporal. Quanto mais curta for a história nas primeiras experiências, melhor. Esse processo imitativo é só para começar. Depois, cada um encontra seu próprio caminho.
Ao ouvir um caso interessante, anote as três ou quatro partes mais relevantes na sequência da exposição para não se esquecer. Assim que encontrar as primeiras “vítimas”, comece a praticar. Escolha de preferência, nessa etapa, pessoas da família. A história começa a tomar corpo e ficar boa depois de contada umas três ou quatro vezes. Essas repetições são oportunidades de lapidação.
A regra é praticar
Nesses exercícios iniciais, você vai acrescentando informações curiosas e retirando outras que não provoquem reações ou não ajudem na ligação das ideias. E, principalmente, vai encontrando o melhor final.
Depois dessa fase, pratique com os amigos, nos encontros sociais ou no ambiente de trabalho. Ao ter certeza de que a história poderá ser contada com sucesso, aí sim se aventure nas reuniões mais importantes ou nas palestras. Para dar ideia da importância desse aprendizado, não conheço orador de agenda cheia e bem remunerado que não seja bem-humorado e bom contador de causos.
Para bem e para o mal
O problema começa quando se perde a medida. Uma história curta aqui, uma tirada bem-humorada ali são suficientes. Quem insiste corre o risco de transformar uma qualidade em inconveniência.
Eu me lembro de um evento promovido por uma importante instituição financeira. Foi num domingo, em um hotel fazenda. Estavam presentes os executivos da organização. A cúpula da empresa também participava: presidente, vice-presidentes e alguns conselheiros, figuras que quase nunca compareciam a esse tipo de encontro.
Passou do ponto
Durante a discussão das metas e das explicações sobre os resultados atingidos, um dos gerentes aproveitou um fato, exagerou e foi bastante espirituoso. Todos riram.
Talvez ele tenha se entusiasmado com o sucesso da primeira brincadeira e, a todo momento, fazia uma nova graça. Os risos foram diminuindo até que ninguém mais reagiu. Pouco depois, um dos diretores perguntou ao RH quem havia contratado aquele profissional. Sem se dar conta, havia ultrapassado a faixa amarela e já estava queimado.
Portanto, essa habilidade pode ser aprendida com observação, prática e disciplina, mas, se não for bem empregada, poderá até ser prejudicial. Com o tempo, a pessoa vai se sentindo mais confortável e descobrindo seu próprio estilo. E, tão importante quanto aprender a fazer graça, descobrir também a hora de parar. Afinal, como dizia a minha avó, graça por graça, uma vez só basta.
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