Entenda como a moda masculina, antes cheia de cores e adornos, se transformou em um símbolo de utilidade e respeito na sociedade moderna

por Marlene Polito
Publicado em 04/08/2026, às 10h28
A aparência masculina já foi espetáculo antes de se tornar silêncio. Durante séculos, cores, brilhos, perucas, rendas, joias, maquiagem e sapatos de salto anunciaram posição, riqueza e poder.
A história do vestir revela que os sinais da masculinidade nunca foram tão rígidos quanto imaginamos. O estranhamento diante desses trajes diz menos sobre os homens do passado do que sobre nós. Cada sociedade cria seus códigos e decide quais cores, tecidos e adornos devem parecer masculinos ou femininos. A masculinidade muda de palco, de linguagem e de significado.
O homem como espetáculo
Durante boa parte da história europeia, a aparência masculina das elites podia ser tão exuberante quanto a feminina. Na Idade Média, cores, peles e tecidos preciosos indicavam posição social, enquanto as meias ajustadas realçavam as pernas e as formas do corpo. A roupa não apenas distinguia: também exibia.
No Renascimento, o cortesão precisava demonstrar riqueza, refinamento, elegância e domínio das regras sociais. Nos séculos XVII e XVIII, essa valorização chegou ao esplendor das cortes. Luís XIV tornou-se o emblema desse universo: perucas monumentais, roupas bordadas, meias de seda, joias e sapatos de salto vermelho faziam de sua presença uma demonstração de poder. Rendas, fitas e até maquiagem não eram incompatíveis com a virilidade.
Nos ambientes aristocráticos, o rosto podia ser clareado com pós e ganhar cor com o rouge. Tudo contribuía para construir uma presença refinada e deliberadamente artificial. O poder podia reluzir, ocupar espaço e chamar a atenção.
A invenção do homem sério
No final do século XVIII, Iluminismo, revoluções políticas e ascensão burguesa passaram a valorizar razão, trabalho, disciplina e contenção, enquanto os sinais da aristocracia eram vistos com desconfiança. O homem respeitável já não deveria viver para ser admirado, mas parecer útil e produtivo.
O psicólogo J. C. Flügel chamou essa transformação de “Grande Renúncia Masculina”: o homem ocidental teria trocado a pretensão de ser belo pelo direito de ser útil. As cores escureceram, os ornamentos diminuíram e o terno tornou-se o uniforme masculino da modernidade.
Trajes ornamentados ainda sobreviveram nas cortes e nas cerimônias. A vaidade não desapareceu; apenas se tornou mais discreta.
A vaidade aprendeu a falar baixo
Na Inglaterra do início do século XIX, George Bryan Brummell, o Beau Brummell, transformou a nova sobriedade masculina em estilo.
Próximo do príncipe de Gales, tornou-se autoridade da moda e símbolo do dandismo nascente. Trocou a exuberância cortesã por casacos escuros de corte impecável, calças claras, camisas de linho muito branco, gravatas bem arranjadas e botas reluzentes.
A aparente simplicidade exigia horas de preparação. A distinção já não estava nas joias ou nos bordados, mas no tecido, no corte e no caimento. A roupa continuava a comunicar riqueza e posição social, apenas de forma menos ostensiva.
Talvez o homem não tenha renunciado ao desejo de ser admirado. Apenas passou a escondê-lo naquilo que somente os olhos mais treinados conseguiam reconhecer.
O século das rachaduras
O terno escuro atravessou o século XIX e boa parte do XX como símbolo de respeitabilidade, autoridade e competência. As guerras reforçaram a disciplina e a funcionalidade. Nos escritórios, nas instituições e na política, parecer um homem sério significava conter os excessos.
Esse modelo, entretanto, começou a rachar. Cinema, música, juventude e contraculturas produziram novas imagens masculinas. Cabelos longos, jaquetas de couro, roupas coloridas, brincos e maquiagem voltaram à cena. Hippies e punks fizeram da aparência uma forma de contestação. Nos anos 1970, artistas do glam rock, como David Bowie, recolocaram em cena o homem maquiado e teatral.
Movimentos feministas e lutas por direitos civis questionaram papéis tidos como naturais. Se as mulheres ocupavam espaços antes reservados aos homens, estes também podiam rever os limites impostos à própria aparência.

Quem decide o que um homem pode vestir?
Hoje, um brinco, uma saia, as unhas pintadas ou uma camisa cor-de-rosa podem expressar provocação, identidade ou simples preferência. O significado nunca está apenas na peça. Depende de quem a veste, de quem a observa e da sociedade em que esse encontro acontece.
Quando cores, joias e adornos reaparecem no guarda-roupa masculino, não estamos simplesmente voltando ao passado. Os objetos podem ser semelhantes, mas seus significados são outros. A roupa informa, distingue, disfarça e provoca. Antes mesmo que alguém diga uma palavra, o vestuário já começou a falar.
O homem não apenas trocou rendas, perucas e maquiagem pelo terno escuro. Mudaram também as ideias de poder, beleza e hombridade que essas roupas representavam.
Afinal, não existe uma maneira eterna de parecer homem. A masculinidade também muda de roupa.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
Leia também

Motorista embriagado atropela ciclista, que morre após carro pegar fogo em Praia Grande

Alvo de operação contra o PCC morre após confronto com a PM em São Vicente

Deixemos para amanhã o que não deveríamos dizer hoje

Receita Federal apreende 815 kg de cocaína no Porto de Santos

Serviço de balsas entre Bertioga e Guarujá suspenso temporariamente nesta terça-feira (22)

Três PMs irão a júri por tiros contra motoboy durante Operação Escudo em Santos

Santos entra na rota do Remo de Praia olímpico com etapa nacional na Praia do Gonzaga

Motorista embriagado atropela ciclista, que morre após carro pegar fogo em Praia Grande

Homem morre após ser agredido e bater a cabeça durante briga em Itanhaém

Doceria de Santos cresce, reforma o espaço e amplia cardápio após Neymar virar cliente frequente