Entenda como as promessas de Lula nas campanhas eleitorais refletem a frustração dos eleitores com a falta de ações concretas

por Reinaldo Polito
Publicado em 21/08/2026, às 11h04
Acreditar nas promessas feitas por políticos durante as campanhas eleitorais é quase o mesmo que ter fé em Mula sem Cabeça ou Saci Pererê. Em cima do palanque ou no horário eleitoral gratuito, o céu é o limite. Prometem tudo o que os eleitores gostariam de ouvir, sem nenhum compromisso com o que efetivamente desejam ou poderão fazer.
Vamos tomar como exemplo Lula. Como já participou de muitas eleições e fez inúmeras promessas, dá para comparar o que foi prometido com o que realmente aconteceu. O mais curioso é que muitas promessas não cumpridas nas eleições passadas voltam a aparecer no programa de 2026.
Cadê a picanha?
Para começar, a folclórica promessa de que o brasileiro voltaria a comer uma picanha com aquela gordurinha enquanto tomava uma cervejinha. Em agosto de 2022, Lula disse: “o povo tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha”. Até hoje, muitos eleitores continuam aguardando, com faca e garfo na mão, o aumento do poder de compra que aquela imagem representava. No fim, a promessa ficou muito mais bonita no palanque do que na mesa do brasileiro.
Outro exemplo são os combustíveis. Lula dizia que Bolsonaro poderia resolver o problema dos preços com uma “canetada”. Prometia tirar a gasolina do dólar, aumentar o refino nacional e baratear os combustíveis.
Nada de canetada
Depois de assumir, mudou a política de preços da Petrobras. Mas os combustíveis continuaram sujeitos ao petróleo internacional e ao câmbio. A promessa de uma solução simples não se materializou. Cadê a caneta do presidente?
Lula também prometia forte representatividade feminina no governo. Começou com 11 mulheres nos ministérios. Depois, Ana Moser, Daniela Carneiro, Nísia Trindade e Rita Serrano deixaram cargos importantes. As substituições foram acompanhadas de negociações políticas com o Centrão. Se uma mulher precisava sair, outra poderia ter sido escolhida. O resultado foi a redução da presença feminina.
Os amigos do rei
E há um agravante. Lula havia defendido que ministros do STF deveriam ser escolhidos por competência e currículo, e não por amizade. Indicou Cristiano Zanin, seu advogado pessoal, para a Corte. Depois, Flávio Dino. Em 2026, tentou ainda levar Jorge Messias, o “Bessias”, para o Supremo. O Senado rejeitou a indicação.
E os juros? Lula passou anos criticando as taxas elevadas e a atuação do Banco Central. Em 2002, a Carta ao Povo Brasileiro prometia “reduzir de forma sustentada a taxa de juros”. Em 2022, com a Selic em 13,75%, voltou a dizer que o governo precisava criar condições para que as taxas caíssem.
Trocou seis por meia dúzia
Assumiu, trocou o comando do BC e colocou Gabriel Galípolo na presidência. A Selic chegou a 15% e está agora em 14% ao ano. O Brasil continua entre os países com as maiores taxas básicas de juros do planeta. A prometida redução sustentada ficou para depois.
E os sigilos? No debate com Bolsonaro na Globo, Lula também prometeu acabar com os “sigilos de 100 anos”. Vestiu a faixa e as restrições de acesso a informações continuaram existindo. O eleitor entendeu perfeitamente o que o candidato estava prometendo e não cumprindo.
Mandato único
Lula também já se declarou favorável ao mandato único e contrário à reeleição. Hoje, depois de três mandatos presidenciais, está novamente em campanha para disputar o quarto. Pode mudar de opinião? Claro. Mas o eleitor também pode lembrar do que foi dito.
Na Segurança Pública, a história é ainda mais curiosa. Lula defendeu um ministério específico, separado da Justiça. A promessa não foi realizada e agora volta a aparecer na campanha de 2026. Promete-se, não se faz e promete-se novamente.
As filas continuam
Na saúde, prometeu zerar as filas de consultas e cirurgias do SUS. O governo fez mutirões e programas para reduzi-las. Mas as filas continuam aí. E a promessa de zerá-las reaparece no discurso eleitoral.
São apenas alguns exemplos do que já foi prometido e não cumprido nas campanhas eleitorais de Lula. O mais curioso é que muitas dessas promessas voltam ao palanque, como se o eleitor tivesse memória curta. E, infelizmente, quem vota, quase sempre, tem no máximo uma vaga lembrança.
Os crentes ainda terão fé naquela frase que Lula repete há mais de 20 anos: se, ao final de seu mandato, cada mulher, cada criança e cada homem tiver a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terá cumprido a missão de sua vida. Pois é. Essa missão ainda está esperando para ser cumprida. Acredite quem quiser.
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