Hapvida

Acordar cansado mesmo após uma noite inteira de sono pode ser sinal de alerta

Neurologista explica por que a duração do sono não garante descanso e aponta sintomas que podem indicar apneia e outros distúrbios

Foto: Reprodução/Freepik
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Redação Publicado em 27/08/2026, às 17h43


Dormir sete ou oito horas por noite costuma ser associado a uma boa noite de descanso. Ainda assim, algumas pessoas despertam com a sensação de que não recuperaram as energias. O cansaço permanece ao longo do dia, acompanhado em alguns casos por sonolência, dificuldade de concentração e lapsos de memória.

Embora uma rotina intensa e o estresse possam contribuir para esse quadro, eles não são necessariamente os únicos responsáveis. A qualidade do sono também exerce papel fundamental. Interrupções frequentes podem impedir que o organismo percorra adequadamente todas as etapas necessárias para uma recuperação completa.

Segundo o neurologista da Hapvida, Paulo Henrique Silva, a avaliação deve considerar tanto o tempo de sono quanto a forma como a pessoa se sente durante o dia.

“Não devemos avaliar o sono apenas pela quantidade de horas. Uma pessoa pode dormir sete ou oito horas e ter várias interrupções ao longo da noite, algumas delas sem sequer perceber. Quando o sono é fragmentado e não cumpre adequadamente sua função restauradora, é comum acordar cansado e apresentar sonolência, dificuldade de concentração e esquecimentos durante o dia”, explica.

Ronco frequente merece atenção

Roncar ocasionalmente não significa necessariamente que exista um problema de saúde. A situação, porém, muda quando o ronco é intenso, acontece com frequência ou aparece acompanhado de pausas na respiração, engasgos ou sensação de sufocamento.

O som é provocado pela vibração dos tecidos das vias respiratórias durante a passagem do ar. Embora nem todo indivíduo que ronca tenha apneia obstrutiva do sono, o ronco habitual pode justificar uma avaliação, principalmente quando existem outros sintomas associados.

“Não significa que todo indivíduo que ronca tenha apneia, mas o ronco habitual não deve simplesmente ser normalizado, principalmente quando a família percebe pausas respiratórias ou engasgos durante o sono”, alerta o especialista.

Por que a apneia prejudica o descanso?

A apneia obstrutiva do sono ocorre quando as vias respiratórias ficam bloqueadas repetidamente durante o período de descanso. A interrupção da passagem de ar pode reduzir a oxigenação e provocar pequenos despertares.

Esses episódios muitas vezes não são percebidos pelo próprio paciente. Mesmo acreditando ter dormido continuamente, a pessoa pode ter passado por diversos microdespertares durante a noite.

“O cérebro reage a essas interrupções como um mecanismo de proteção. A pessoa pode ter microdespertares sucessivos sem se lembrar deles pela manhã. O resultado é um sono fragmentado, que pode não ser reparador mesmo quando houve um número aparentemente adequado de horas de descanso”, explica Paulo Henrique.

Distúrbio pode afetar a saúde de forma ampla

A apneia não está relacionada apenas à indisposição pela manhã. Quando permanece sem tratamento, o distúrbio está associado a um risco maior de problemas cardiovasculares e cerebrovasculares, incluindo infarto e AVC.

Também existem associações com obesidade, outras comorbidades e alterações cognitivas. A fragmentação repetida do sono e as mudanças na oxigenação podem afetar funções relacionadas à memória e à concentração.

Estudos também apontam uma relação entre distúrbios respiratórios do sono e maior risco de doenças neurodegenerativas.

“A apneia não deve ser vista apenas como uma questão de ronco ou de dormir mal. Quando não tratada adequadamente, ela pode aumentar o risco de condições importantes, como infarto, AVC, obesidade e outras comorbidades, além de estar associada a maior risco de Alzheimer”, destaca o neurologista.

Quem pode desenvolver apneia?

O excesso de peso, o aumento da circunferência do pescoço, a idade e determinadas características anatômicas das vias aéreas estão entre os fatores que podem favorecer o distúrbio.

O consumo de bebidas alcoólicas perto do horário de dormir também pode contribuir para o agravamento da obstrução.

Nas mulheres, o período após a menopausa merece atenção, já que o risco de apneia aumenta. Ainda assim, o distúrbio não está restrito a um perfil específico.

“Existem fatores de risco conhecidos, mas não devemos imaginar que exista um único perfil de paciente. Pessoas que não se encaixam naquela imagem clássica associada à apneia também podem apresentar o distúrbio”, afirma.

Crianças também precisam ser observadas

A apneia do sono também pode ocorrer entre crianças. Ronco frequente, respiração pela boca, sono agitado e pausas respiratórias percebidas pelos familiares são sinais que devem ser levados ao pediatra.

Os efeitos durante o dia podem ser diferentes dos observados nos adultos. Em vez de sonolência evidente, a criança pode apresentar irritabilidade, mudanças de comportamento ou dificuldades de atenção.

“Roncar de forma habitual não deve ser automaticamente considerado uma característica normal da criança”, ressalta o médico.

Quando procurar ajuda?

Uma noite de sono ruim pode acontecer com qualquer pessoa. O problema é quando a falta de disposição passa a ser frequente.

Ronco persistente, sonolência excessiva durante o dia, sensação de não ter descansado e esquecimentos recorrentes são sinais que merecem investigação, principalmente quando aparecem juntos.

O diagnóstico começa com uma avaliação clínica detalhada. O médico analisa os hábitos de sono, os sintomas noturnos e os impactos durante o dia. Relatos de familiares ou parceiros também podem ajudar a identificar pausas respiratórias e engasgos que o paciente não percebe.

Quando necessário, pode ser solicitada uma polissonografia, exame que acompanha diferentes parâmetros durante o sono e auxilia na identificação de distúrbios respiratórios.

O tratamento varia conforme a causa e a gravidade. Pode incluir mudanças de hábitos, controle de fatores de risco, aparelhos que mantêm as vias respiratórias abertas, dispositivos intraorais ou intervenções específicas para alterações anatômicas.

“Dormir bem é uma necessidade do organismo. Se a pessoa reserva tempo suficiente para o sono, mas continua apresentando ronco, sonolência diurna, sono não reparador ou esquecimentos, é importante procurar avaliação”, conclui Paulo Henrique.

Mais do que observar o número de horas dormidas, portanto, é fundamental perceber se o sono realmente está cumprindo sua função de recuperar o organismo.