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Após operação da Polícia Federal, Jaques Wagner deixa liderança do governo no Senado

Senador cedeu à pressão após reunião de duas horas com o presidente Lula; investigação aponta recebimento de apartamento e viagens em jatinhos

PF apreende quase R$ 500 mil em dinheiro em endereços de ex-líder do governo - Foto: Valter Campanato / Agência Brasil
PF apreende quase R$ 500 mil em dinheiro em endereços de ex-líder do governo - Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Redação Publicado em 25/06/2026, às 10h55


A pressão política decorrente de uma investigação sobre crimes financeiros e lavagem de dinheiro provocou a primeira grande baixa no núcleo de articulação política do Palácio do Planalto no Congresso. O senador Jaques Wagner (PT-BA) formalizou a sua saída do cargo de líder do governo no Senado. A decisão foi consolidada após uma reunião reservada de aproximadamente duas horas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual o parlamentar cedeu aos apelos para se afastar e evitar que o Palácio do Planalto fosse contaminado pelas repercussões do caso.

Jaques Wagner vinha resistindo a entregar a liderança do governo, posto que ocupava desde o período de transição, em dezembro de 2022. No entanto, a permanência no cargo tornou-se insustentável após ele se tornar um dos alvos principais de uma nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal. A investigação apura um esquema de corrupção passiva e favorecimento que envolve repasses financeiros e vantagens indevidas atreladas ao Banco Master, instituição controlada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

O afastamento estratégico do aliado histórico é visto por governistas como um movimento necessário para blindar a imagem do presidente Lula, que concorrerá à reeleição e busca afastar a pauta da corrupção de sua campanha. Além disso, interlocutores admitem que o governo temia que o escândalo contra o petista neutralizasse o impacto político das denúncias que também pesam contra a oposição, como o pedido de R$ 61 milhões feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao mesmo banqueiro para o financiamento de uma produção cinematográfica.

Dinheiro em espécie, imóveis e jatinhos na investigação

O inquérito, relatado pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF), aponta indícios contundentes de proximidade e transações financeiras suspeitas envolvendo o parlamentar e operadores ligados ao banco:

  • Valores em espécie: durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão nos endereços do senador, os agentes da Polícia Federal localizaram e apreenderam US$ 55 mil e 33 mil euros em dinheiro vivo (montante equivalente a cerca de R$ 471 mil).
  • Repasses ao núcleo familiar: os investigadores rastrearam um pagamento de R$ 3,5 milhões efetuado por uma empresa de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, que teria como destino o núcleo familiar de Wagner. O enteado do senador e atual secretário do governo baiano, Eduardo Sodré Martins, também foi alvo das buscas.
  • Vantagens de luxo: a PF aponta que Jaques Wagner teria recebido de Lima um apartamento de alto padrão em Salvador, avaliado em R$ 2,5 milhões, além de usufruir de viagens gratuitas em jatinhos particulares vinculados ao Banco Master e ingressos de camarote para o show de uma cantora internacional em Los Angeles, nos Estados Unidos, em 2023.

Recurso no STF e bastidores no Planalto

A defesa técnica de Jaques Wagner agiu rapidamente e protocolou um recurso formal perante o STF para tentar anular as ordens de busca autorizadas pelo ministro André Mendonça. Os advogados do senador negam categoricamente qualquer tipo de atuação ou lobby em favor dos interesses do Banco Master no Congresso Nacional e sustentam que a decisão judicial baseou-se em "erros graves", pleiteando a invalidação de todas as provas colhidas nas residências do petista. Caso o relator rejeite a contestação, a equipe jurídica pretende levar o caso para julgamento na Segunda Turma da Corte.

A saída da liderança marca um momento delicado na amizade de quase 50 anos entre Lula e Wagner. O senador baiano foi um dos principais articuladores e esteve na linha de frente do apoio ao presidente durante o período em que ele esteve preso em Curitiba, em 2018.

Anteriormente, Wagner já havia balançado no cargo após derrotas duras sofridas pelo governo no Legislativo, como a aprovação do PL da Dosimetria e a rejeição do nome de Jorge Messias para o STF, mas havia sido demovido da ideia pelo próprio presidente. Desta vez, a expectativa no Planalto é de que o governo adote uma postura de apoio formal às operações policiais e exija esclarecimentos públicos detalhados do parlamentar afastado.