Local inédito reúne acolhimento e atendimento a direitos para familiares atingidos pela letalidade estatal; gestão será feita pelo Movimento Mães de Maio e pela Iniciativa Negra

Lívia Gennari Publicado em 04/03/2026, às 12h00
A Baixada Santistarecebe nesta quarta-feira (4), um marco histórico na política de direitos humanos do país: a criação do Centro de Memória às Vítimas da Violência de Estado (CMVV) e do Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social (Cais) Mães por Direitos.
O lançamento acontecerá em Santos, com a presença da ministra dos Direitos Humanos, a Macaé Evaristo, e de Marta Machado, responsável pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. Também participam Débora Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio, e Nathália Oliveira, que lidera a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas. As duas organizações serão responsáveis por implementar e gerir o equipamento.
Histórico de violências
A região foi escolhida por carregar uma das histórias mais dolorosas de violência institucional do país. Entre 2023 e 2024, operações policiais como Escudo e Verão deixaram pelo menos 84 mortos na Baixada. Os números ecoam episódios ainda mais brutais, como os Crimes de Maio de 2006, quando 564 pessoas foram executadas no Estado de São Paulo, sendo 115 somente na Baixada Santista.
O CMVV nasce como resposta a esse histórico fragmentado de dor, apagamento e impunidade. Será o primeiro equipamento público estruturado com apoio federal dedicado à preservação da memória das vítimas da violência de Estado. A proposta integra ações de memória, documentação, produção de conhecimento e atendimento psicossocial e jurídico, compondo uma política de não repetição.
No mesmo espaço, o Cais Mães por Direitos atuará como um ponto permanente de acolhimento e garantia de direitos, articulando políticas de saúde e assistência social. A proposta é formar uma rede capaz de atender, com dignidade, famílias historicamente deixadas à margem.
A gestão será compartilhada entre o Movimento Independente Mães de Maio e a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas. Segundo Débora Silva, a parceria com a Iniciativa Negra será fundamental para o funcionamento cotidiano do centro. A organização assumirá a administração financeira, a gestão burocrática e a realização de atividades culturais, garantindo que o espaço opere de forma estruturada e contínua.
A importância do espaço para a região
Para a liderança do Mães de Maio, a criação do CMVV e do Cais representa uma conquista inédita para o movimento e para a Baixada Santista:
"Não existia uma política pública específica voltada para mães, familiares e sobreviventes de vítimas da violência do Estado. Historicamente, quando essas mães perdiam seus filhos, o que lhes era oferecido eram apenas medicamentos psicoativos, sem um atendimento digno e humanizado. O centro nasce após uma luta constante do movimento, que buscou reconhecimento, produziu conhecimento nas universidades e denunciou o adoecimento dessas mulheres", explica a fundadora.
Ela destaca que o Cais será um espaço de acolhimento afetivo, multidisciplinar e humanizado, destinado não apenas a Santos, mas às nove cidades da região.
"O objetivo é combater a desigualdade na Baixada Santista, garantir atendimento afetivo às mães e familiares e oferecer um tratamento digno, semelhante ao que existe nos bairros nobres, mas que historicamente foi negado às periferias e favelas", afirma.
O centro pretende atuar também na prevenção de novas violações. Ao fortalecer a autoestima das mães, oferecer suporte psicossocial e criar um ambiente de pertencimento, a iniciativa busca interromper o ciclo de adoecimento e abandono que acompanha famílias atingidas pela violência institucional.
À frente do projeto, Débora fala sobre o sentido de transformar a dor das mães em uma luta coletiva por memória, cuidado e reparação.
"Estar à frente dessa iniciativa é desafiador, desgastante e, ao mesmo tempo, gratificante. Significa transformar dor em luta. Representa afirmar que os filhos dessas mães têm nome, sobrenome e história, e que suas memórias não podem ser apagadas. É uma luta coletiva, não individual, baseada no amor que permanece mesmo após a perda".
Leia também

PAT Praia Grande oferece novas vagas de emprego; saiba quais são as oportunidades

Líder do PCC é preso na Imigrantes com drogas ao subir da Baixada Santista

'Santista de Águas Abertas' abre inscrições na próxima quinta-feira

Empresa ligada a MC Ryan SP e MC Poze do Rodo é acusada pela PF de lavar dinheiro ilícito por meio de rede de laranjas

Quase fiz — e não fiz

Temporada de cruzeiros em Santos fecha com queda de passageiros, apesar de impacto de R$ 1,2 bilhão

Fã realiza sonho ao dividir microfone com Ludmilla em show em São Vicente

Acusado de matar a própria mãe por herança enfrenta júri popular

Homem é flagrado escondendo chocolates na roupa durante furto em supermercado

Filhote de ouriço é resgatado em praia e se recupera sob cuidados