Meio ambiente

Especialista explica por que abelhas africanizadas representam risco em ataques coletivos

Espécie envolvida na morte de um trabalhador em Guarujá reage de forma intensa a vibrações, mobiliza centenas de indivíduos e pode perseguir pessoas por centenas de metros

Especialistas alertam que o maior risco das abelhas africanizadas está na reação coletiva do enxame, capaz de mobilizar centenas de insetos em poucos segundos durante um ataque - Imagem: Getty Images
Especialistas alertam que o maior risco das abelhas africanizadas está na reação coletiva do enxame, capaz de mobilizar centenas de insetos em poucos segundos durante um ataque - Imagem: Getty Images

Redação Publicado em 03/07/2026, às 17h00


Um ataque de abelhas africanizadas em Guarujá resultou na morte de um homem, destacando o comportamento defensivo da espécie, que mobiliza grandes enxames em resposta a ameaças. Especialistas alertam que o risco não está no veneno, mas na reação coletiva das abelhas, que pode ser letal.

As abelhas africanizadas, originadas de um cruzamento entre espécies africanas e europeias na década de 1950, são altamente sensíveis a vibrações e ruídos, podendo detectar ameaças a mais de 30 metros. Quando atacam, liberam feromônios que convocam outras abelhas, aumentando o número de ferroadas.

Após o incidente, a colmeia foi removida por equipes especializadas e realocada para uma área afastada, conforme a legislação ambiental que protege esses insetos. Especialistas recomendam manter distância de enxames e buscar abrigo em caso de ataque, além de procurar atendimento médico se necessário.

As abelhas africanizadas, conhecidas pela elevada capacidade de defesa da colmeia, voltaram a chamar a atenção após o ataque que resultou na morte de um homem em Guarujá, no litoral de São Paulo. Segundo especialistas, o principal fator de risco da espécie não está na potência do veneno, mas na forma como o enxame reage diante de uma ameaça, mobilizando um grande número de insetos em ataques simultâneos.

O caso ocorreu no último sábado (27), quando um trabalhador realizava a capina de um terreno na Rua Agenor de Assis, no bairro Vila Itapema. Ele foi atacado por um enxame, recebeu os primeiros atendimentos do Corpo de Bombeiros e foi encaminhado inconsciente ao pronto-socorro de Vicente de Carvalho, mas não resistiu às múltiplas ferroadas.

Ao analisar o comportamento da espécie, o biólogo Eric Comin explicou que as abelhas africanizadas possuem um sistema de defesa altamente sensível. De acordo com o especialista, elas conseguem detectar vibrações e ruídos produzidos por equipamentos como roçadeiras e cortadores de grama a mais de 30 metros de distância da colmeia.

Conforme o biólogo, a expressão popular "abelhas assassinas" não está relacionada à toxicidade do veneno, que é semelhante ao das abelhas europeias. O comportamento coletivo, porém, torna os ataques significativamente mais perigosos.

Segundo Comin, quando uma abelha africanizada pica uma pessoa, ela libera um feromônio de alarme que sinaliza a presença de uma ameaça. Esse composto químico faz com que centenas ou até milhares de outras abelhas participem imediatamente da defesa da colmeia, aumentando o número de ferroadas e, consequentemente, os riscos à vítima.

O especialista acrescenta que o enxame pode permanecer em estado de alerta por várias horas após o primeiro estímulo e que as abelhas são capazes de perseguir uma pessoa por até 400 metros durante a tentativa de afastar o invasor.

Origem das abelhas africanizadas

As abelhas africanizadas surgiram no Brasil na década de 1950, após um cruzamento entre abelhas africanas e europeias. O processo ocorreu durante pesquisas conduzidas pelo geneticista Warwick Estevam Kerr, que buscava desenvolver colônias mais produtivas para a apicultura nacional.

Na ocasião, rainhas da subespécie Apis mellifera scutellata, originária da África, escaparam de um apiário em Rio Claro, no interior paulista, e cruzaram com colmeias europeias já existentes no país. O híbrido se adaptou rapidamente às condições climáticas brasileiras e, ao longo das décadas, expandiu-se por praticamente todo o território nacional e outros países das Américas.

Colmeia foi removida após o acidente

Após o ataque registrado em Guarujá, equipes do Grupamento de Defesa Ambiental realizaram a captura da colmeia instalada em uma área de difícil acesso, entre vegetação e resíduos. Segundo a Prefeitura de Guarujá, não havia registro de solicitações anteriores para remoção do enxame naquele endereço.

A administração municipal informou que, após a captura, a colmeia foi transferida para uma área afastada da região urbana, no Morro da Barra. O município destacou que as abelhas exercem papel essencial na polinização e no equilíbrio ambiental, motivo pelo qual a legislação ambiental determina que os enxames sejam removidos e realocados por equipes especializadas, e não eliminados.

Como agir em caso de ataque

Especialistas orientam que qualquer pessoa que encontre um enxame mantenha distância e jamais tente retirar a colmeia por conta própria.

Caso ocorra um ataque, a recomendação é correr rapidamente para um local fechado, protegendo a cabeça e o rosto durante a fuga. Também é importante remover os ferrões o quanto antes, utilizando um objeto rígido para raspá-los da pele, evitando apertá-los com os dedos ou pinças, pois isso pode aumentar a liberação de veneno.

Após o afastamento do enxame, a vítima deve procurar atendimento médico, principalmente em situações com múltiplas ferroadas, sinais de reação alérgica, dificuldade para respirar ou inchaço intenso.