Relatórios técnicos apontam falhas graves e indicam risco ambiental em área urbana

Manoela Cardozo Publicado em 09/04/2026, às 11h45
Uma decisão técnica que deveria interromper imediatamente uma atividade considerada de risco não tem sido suficiente para mudar a realidade em Itapevi, na Grande São Paulo. Mesmo sem autorização ambiental, um incinerador industrial continua no centro de uma controvérsia que preocupa moradores, especialistas e autoridades.
A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo negou, no fim de março, a Licença de Operação da unidade administrada pela Sistema Nova Ambiental. O parecer técnico foi direto ao afirmar que o equipamento não atende às exigências legais e que os testes apresentados não possuem validade científica, inviabilizando qualquer autorização para funcionamento.
Na prática, a decisão significaria a paralisação total das atividades. No entanto, relatos e movimentações no entorno da unidade indicam que o fluxo de resíduos não foi interrompido, o que levanta dúvidas sobre o cumprimento da determinação.
O principal ponto de reprovação está na fragilidade dos testes utilizados pela empresa para comprovar a segurança da operação. Segundo a análise, os dados referentes à emissão de substâncias altamente tóxicas, como dioxinas e furanos, apresentam inconsistências relevantes e não oferecem base confiável para o licenciamento.
Mesmo com os resultados invalidados, os registros já apontavam sinais de alerta. Foram identificadas emissões acima dos limites permitidos, presença de poluentes perigosos e instabilidade no funcionamento do sistema de queima. Entre os casos mais críticos está a liberação de ácido clorídrico em níveis superiores ao aceitável, uma substância que pode causar danos ao meio ambiente e à saúde humana.
Especialistas destacam que a falta de estabilidade nas emissões é um indicativo de falha no controle do processo, o que aumenta o risco de dispersão de compostos tóxicos no ar. Em um cenário como esse, a operação é considerada tecnicamente insegura.
Apesar disso, há indícios de que a unidade continua recebendo resíduos industriais, inclusive materiais classificados como perigosos. Se confirmado, o envio desses rejeitos para uma instalação sem licença válida pode configurar irregularidades graves e ampliar o risco ambiental.
A localização do incinerador agrava ainda mais a situação. Instalado em uma área urbana, próximo a regiões habitadas, o equipamento já foi alvo de reclamações por odores. No entanto, o impacto potencial vai além do desconforto.
Substâncias como dioxinas e furanos são reconhecidas por sua alta toxicidade e capacidade de se acumular no organismo ao longo do tempo. A exposição prolongada está associada a doenças graves, incluindo alterações hormonais, problemas no sistema imunológico e até câncer.
Outro ponto que chama atenção é o possível descumprimento de um princípio básico da operação de incineradores. Equipamentos em fase de testes ou sem validação técnica não devem processar resíduos perigosos reais. O procedimento adequado prevê o uso de cargas controladas, justamente para evitar riscos durante a fase de avaliação.
Caso a operação irregular seja confirmada, o cenário indica uma falha significativa nos protocolos de segurança.
A CETESB informou que a decisão de negar a licença seguiu critérios técnicos rigorosos e que o caso segue sob fiscalização. O órgão também destacou que, diante de eventuais irregularidades, outras instâncias podem ser acionadas, incluindo órgãos de investigação nas esferas administrativa e criminal.
O episódio ultrapassa os limites de Itapevi e levanta um debate mais amplo sobre o controle e a destinação de resíduos perigosos no estado. Em um sistema que depende de rastreamento e cumprimento rigoroso das normas, a possibilidade de uma operação barrada oficialmente continuar ativa expõe fragilidades que exigem resposta.
A principal dúvida permanece sem resposta clara. Se o funcionamento foi considerado inadequado e proibido, o que explica a continuidade do recebimento de resíduos no local.
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