Psiquiatra da Hapvida explica quando o hábito de fotografar tudo no celular deixa de ser memória e vira tentativa de controlar a ansiedade

Redação Publicado em 20/08/2026, às 11h26
Basta abrir a galeria de imagens do smartphone para perceber uma infinidade de arquivos que vão muito além dos registros afetivos de viagens, festas e momentos em família. No meio do rolo de fotos, acumulam-se capturas de tela, documentos pessoais, listas de compras, comprovantes e centenas de imagens que provavelmente jamais voltarão a ser visualizadas. O hábito de registrar tudo o que acontece ao redor tornou-se um reflexo quase automático na era digital, levantando uma questão fundamental sobre o comportamento moderno: fotografamos para guardar uma boa lembrança ou para tentar silenciar o medo de esquecer?
A psiquiatra, psicoterapeuta e fotógrafa Renata Covre, da Hapvida, explica que a câmera dos aparelhos modernos atua frequentemente como uma memória auxiliar, mas ressalta que o impacto na saúde mental depende diretamente da motivação por trás do clique. "Fotografar, por si só, não é um problema. Hoje a câmera do celular também funciona como uma espécie de memória auxiliar. O que começa a chamar atenção é quando deixa de ser uma escolha e vira quase uma necessidade", afirma a médica.
Segundo a especialista, o ponto crítico surge quando o ato de fotografar deixa de ser uma manifestação espontânea e passa a funcionar como uma fuga para conter a angústia diante de incertezas cotidianas. "Se eu fotografo porque quero guardar uma lembrança, é algo. Se eu fotografo para aliviar uma ansiedade, pensando 'se eu não registrar, algo de ruim pode acontecer', já existe uma função diferente", destaca Renata.
Atenção plena no presente e o paradoxo do excesso de imagens
Há ainda uma contradição recorrente na rotina de quem passa grande parte dos eventos ajustando enquadramentos e gravando vídeos contínuos: a preocupação excessiva em assegurar uma lembrança futura acaba retirando o foco do acontecimento em tempo real. "Para formar uma memória, primeiro a gente precisa estar minimamente presente e prestar atenção naquela experiência. Mas, às vezes, a pessoa está tão preocupada em garantir uma boa lembrança para o futuro que diminui drasticamente a atenção ao que está acontecendo no presente", pontua a psiquiatra.
Para a profissional, a prática da fotografia também pode ser transformadora ao aguçar o olhar estético e a observação de detalhes, contanto que o indivíduo preserve sua autonomia. "Eu posso olhar uma cena e pensar: 'isso eu quero fotografar'. Mas também consigo pensar: 'essa eu quero só viver'. Quando a pessoa sente que não consegue fazer essa segunda escolha, aí vale observar melhor", orienta.
Renata Covre reforça que o sofrimento emocional, o excesso de tempo gasto em checagens ou prejuízos nas relações interpessoais indicam a hora de buscar apoio especializado. "A fotografia nos oferece inúmeras ferramentas para diminuir pequenas incertezas do cotidiano. Só que nem sempre precisar ter certeza de tudo nos deixa menos ansiosos. Às vezes, pode justamente nos treinar a tolerar cada vez menos a possibilidade de esquecer, perder ou simplesmente não ter tudo registrado", conclui a médica.
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