Preso, "Batman" capixaba deixa rastro de dúvidas sobre investigação e decisões judiciais

A prisão de Gilbert Wagner Antunes Lopes, conhecido como "Waguinho Batman", encerra uma fuga de dois anos, mas mantém em evidência uma sequência de episódios envolvendo mudanças na investigação, decisões judiciais e questionamentos sobre a condução do caso

Imagem: Divulgação
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Redação Publicado em 18/07/2026, às 15h21


A prisão de Gilbert Wagner Antunes Lopes, o "Waguinho Batman", em Itaguaí (RJ), na última terça-feira (14), colocou fim a quase dois anos de buscas por um dos criminosos mais procurados do Espírito Santo. Apontado pela Polícia Civil como mandante do assassinato do vereador de Presidente Kennedy Marcos Augusto Costalonga (PL), morto a tiros em maio de 2021, o miliciano agora responderá ao processo preso.

Segundo a investigação, o crime teria sido motivado por uma dívida entre o acusado e o parlamentar.

Embora a captura represente um avanço na apuração, o histórico do caso reúne acontecimentos que continuam despertando questionamentos sobre a condução da investigação e do processo judicial.

Mudança na investigação

Em junho de 2024, uma operação coordenada pelo então delegado de Presidente Kennedy, Tiago Viana, prendeu os executores apontados pela Polícia Civil. O suposto mandante, porém, conseguiu escapar.

Diálogo entre o então delegado geral, José Darcy Arruda e o delegado Tiago Viana, que investigou a morte do vereador Costalonga

No dia seguinte à operação, em 11 de junho, o então delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, solicitou ao delegado responsável o relatório de indiciamento de Gilbert Wagner. Segundo Tiago Viana, o documento seria encaminhado ao então governador Renato Casagrande.

Pouco mais de uma semana depois, o delegado foi transferido de Presidente Kennedy para Marataízes, município onde, conforme as investigações, Waguinho Batman residia e onde a organização criminosa teria atuação.

A justificativa oficial apresentada pela Polícia Civil foi a preservação da integridade física do delegado, que vinha recebendo contatos insistentes do investigado. Após a transferência, segundo o próprio Tiago Viana, essas ligações cessaram.

José Darcy Arruda nega qualquer tipo de interferência. Em nota, afirmou que jamais sofreu ou exerceu pressão relacionada ao caso, disse nunca ter ouvido falar de Waguinho Batman ao longo de sua carreira e declarou que deu todo o apoio necessário às equipes responsáveis pela investigação.

Prisão após mudança no comando

Em abril deste ano, José Darcy Arruda deixou o comando da Polícia Civil. A mudança ocorreu após Renato Casagrande renunciar ao governo para disputar o Senado e Ricardo Ferraço assumir o Executivo estadual.

Três dias depois, Jordano Bruno Gasperazzo Leite foi nomeado delegado-geral.

A prisão de Waguinho Batman ocorreu cerca de três meses depois, em uma ação conjunta entre as polícias civis do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. A captura foi resultado de aproximadamente dois meses de monitoramento realizado pela 50ª Delegacia de Polícia de Itaguaí.

A sequência dos acontecimentos acabou alimentando questionamentos sobre por que a prisão não havia sido efetivada anteriormente, embora não haja, até o momento, conclusão oficial apontando falhas ou interferências na investigação.

O telefonema de um juiz aposentado

Outro episódio envolvendo o caso ocorreu no Judiciário.

O juiz Marcelo Jones de Souza Noto, que já foi titular da Vara de Presidente Kennedy, foi aposentado compulsoriamente pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo em outro procedimento disciplinar.

Conforme apurado pela reportagem, embora nunca tenha atuado no processo envolvendo Waguinho Batman, o magistrado teria telefonado para a juíza responsável pelo caso, Priscila Bazzarella de Oliveira, solicitando que ela não decretasse a prisão do investigado.

Não há informação de que o pedido tenha sido atendido ou que tenha produzido qualquer efeito sobre a decisão judicial.

Marcelo Jones Noto já havia sido aposentado compulsoriamente em decorrência de processos administrativos disciplinares. Entre as acusações analisadas pelo Tribunal de Justiça estavam tentativa de coação de testemunha e favorecimento a advogado em outros processos.

Soltura dos executores

Outro ponto que chamou atenção foi uma decisão posterior da Justiça.

O processo atualmente tramita na 1ª Vara Criminal Regional de Marataízes, sob responsabilidade do juiz Douglas Demoner Figueiredo.

Em maio deste ano, o magistrado concedeu liberdade a três acusados de participação no assassinato do vereador — Douglas da Silva Nunes, Elan Martins e Everaldo de Almeida Neto.

Na decisão, o juiz apontou excesso de prazo na instrução processual e destacou que equipamentos eletrônicos apreendidos durante as investigações permaneceram por longo período sem perícia técnica, situação que caracterizaria constrangimento ilegal aos réus.

A decisão não analisou o mérito da acusação nem absolveu os investigados, limitando-se aos fundamentos processuais relacionados à prisão preventiva.

Manifestação das autoridades

Questionado pela reportagem, o juiz Douglas Demoner Figueiredo, por meio da assessoria do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, negou qualquer vínculo com Gilbert Wagner Antunes Lopes.

"Em relação aos questionamentos apresentados, o magistrado esclarece que desconhece o réu mencionado. Afirma não possuir qualquer amizade, proximidade, conhecimento ou inimizade com a pessoa citada, ressaltando que sequer sabe quem ela é."

O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) também informou que, até o momento, não foram identificados elementos que indiquem ingerência política na investigação.

Segundo o órgão, a denúncia por homicídio qualificado já foi oferecida e a motivação do crime, em princípio, não estaria relacionada ao exercício do mandato parlamentar da vítima.

Perguntas que permanecem

Com a prisão preventiva decretada pela Justiça do Rio de Janeiro, Waguinho Batman permanece à disposição da Justiça e deverá ser transferido para o Espírito Santo caso não haja outra determinação judicial.

Apesar da captura, alguns episódios registrados ao longo da investigação continuam sendo alvo de questionamentos: a demora para localizar o principal investigado, a transferência do delegado responsável pelo caso, o relato sobre a tentativa de intervenção de um juiz aposentado e as decisões processuais que resultaram na soltura dos executores confessos ou acusados.

Até o fechamento desta reportagem, a defesa de Gilbert Wagner Antunes Lopes não havia sido localizada para comentar as acusações.