Investigação

Profissional admite frase contra aluno autista durante depoimento à polícia em Santos

Auxiliar terceirizada reconheceu ter dito para criança de 8 anos bater a cabeça na parede, mas negou maus-tratos; caso é investigado pela Polícia Civil após gravações feitas pela família

Caso envolvendo aluno autista de 8 anos em escola municipal de Santos é investigado pela Polícia Civil após a família registrar áudios dentro da unidade. A profissional de apoio foi desligada das atividades após a denúncia - Imagem: Arquivo Pessoal e Reprodução
Caso envolvendo aluno autista de 8 anos em escola municipal de Santos é investigado pela Polícia Civil após a família registrar áudios dentro da unidade. A profissional de apoio foi desligada das atividades após a denúncia - Imagem: Arquivo Pessoal e Reprodução

Redação Publicado em 22/08/2026, às 14h08


Uma profissional de apoio escolar em Santos admitiu ter dito a um aluno autista de 8 anos para bater a cabeça na parede, durante um episódio que gerou uma investigação por maus-tratos. A auxiliar alegou ter perdido o controle emocional, mas negou ter agredido fisicamente a criança.

A investigação começou após a mãe do menino gravar interações entre ele e a profissional, percebendo mudanças de comportamento relacionadas à escola. Os áudios indicam um tratamento inadequado e a família alega que a criança foi privada de alimentos e orientada a dormir, o que a auxiliar contesta.

A Secretaria Municipal de Educação de Santos informou que a profissional não era servidora municipal e foi desligada após a denúncia. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil, com a expectativa de que o Ministério Público avalie a possibilidade de denúncia criminal por maus-tratos.

Uma profissional de apoio escolar investigada por supostos maus-tratos contra um aluno autista de 8 anos, em Santos, admitiu à Polícia Civil ter dito para a criança bater a cabeça na parede durante um episódio ocorrido na Escola Municipal Waldery de Almeida, no bairro Santa Maria. Em depoimento, a mulher classificou a própria fala como “inadequada e infeliz”, afirmou ter perdido o controle emocional naquele momento e negou ter agredido fisicamente ou maltratado o estudante. O caso é apurado pelo 5º Distrito Policial.

A investigação teve início depois que a mãe da criança, Gabryelle Vieira da Silva, colocou um gravador na mochila do filho, que é autista não verbal, após perceber mudanças de comportamento relacionadas à ida para a escola.

Segundo o boletim de ocorrência, os áudios registraram interações entre a profissional e o menino. A família sustenta que o conteúdo revela tratamento inadequado e situações que poderiam caracterizar maus-tratos. O caso foi inicialmente registrado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Santos e posteriormente encaminhado ao 5º Distrito Policial para continuidade da investigação.

Em depoimento à Polícia Civil, a auxiliar afirmou que atuava como profissional de apoio de outro estudante da mesma turma e que prestava assistência ao menino de 8 anos quando o aluno sob sua responsabilidade direta não necessitava de acompanhamento naquele momento. Segundo a versão apresentada pela profissional, a criança já teria chegado agitada à escola no dia dos fatos. Ela afirmou ter tentado realizar atividades pedagógicas e oferecer brinquedos para ajudá-lo a se acalmar.

Ainda de acordo com o depoimento, o menino teria começado a bater as mãos e os braços, além de desferir tapas contra a profissional. A auxiliar relatou também que o aluno teria feito movimentos bruscos e se jogado sobre uma cadeira.

Em determinado momento, parte da turma deixou a sala para participar de uma apresentação na biblioteca. Segundo a mulher, o comportamento da criança teria se intensificado e ela acabou perdendo o controle emocional. Foi nessa situação, de acordo com o depoimento, que a profissional disse: “bate a cabeça na parede”.

Ela reconheceu aos investigadores que a frase foi inadequada e afirmou que a declaração ocorreu no “calor do momento”. A profissional, porém, sustentou que a família interpretou de forma equivocada o contexto registrado nos áudios. A defesa da mulher não havia sido localizada até a última atualização do caso.

A mãe afirmou ter decidido gravar o período em que o filho permanecia na unidade escolar depois de perceber alterações na maneira como ele reagia antes de ir para as aulas. Como a criança é não verbal, a família buscava entender o que poderia estar acontecendo durante o período escolar.

Segundo o relato apresentado à polícia, as gravações indicariam irritação da profissional durante o atendimento ao menino. A mãe também afirmou que a criança teria sido impedida de acessar alimentos enviados pela família e orientada repetidamente a dormir. Esses pontos são contestados pela auxiliar.

No depoimento, ela negou ter privado o aluno de alimentação. Segundo a profissional, o menino costumava consumir principalmente danone e, quando solicitava o alimento durante uma atividade, ela dizia que o entregaria após a conclusão da tarefa. A mulher também afirmou que não obrigava a criança a dormir. Segundo sua versão, apenas sugeria que o estudante respirasse e descansasse por alguns instantes quando estava agitado. Ela ainda negou ter empregado força física ou agido de maneira agressiva contra o aluno.

Outro ponto citado no depoimento foi a ausência, segundo a profissional, de um auxiliar exclusivo para o menino desde o início do ano letivo. A mulher afirmou que a situação já havia sido comunicada à coordenação da escola e que, na avaliação dela, a criança precisava de acompanhamento individualizado durante as atividades.

A Secretaria Municipal de Educação de Santos informou que a disponibilização de profissionais de apoio deve considerar as necessidades específicas e o nível de suporte de cada estudante, conforme previsto na Lei Brasileira de Inclusão. Segundo a pasta, direção e coordenação pedagógica das unidades são orientadas a organizar e remanejar o atendimento diário com prioridade para casos de maior complexidade e vulnerabilidade.

A secretaria ressaltou, porém, que eventual insuficiência ou compartilhamento de profissionais não justifica situações de violência, negligência ou maus-tratos. A Prefeitura de Santos informou que a mulher não fazia parte do quadro de servidores municipais.

Ela atuava como Profissional de Apoio Escolar Inclusivo, vinculada ao Instituto Evolução, entidade parceira do município no atendimento de estudantes da Educação Especial. De acordo com a Secretaria de Educação, a organização responsável foi comunicada assim que a denúncia apresentada pela família chegou ao conhecimento da administração municipal. A profissional foi então desligada das atividades na escola. A Seduc afirmou repudiar condutas que possam configurar constrangimento, desrespeito, negligência, violência ou violação dos direitos de estudantes.

O advogado João Carlos Nogueira, que representa a família, informou que aguarda a conclusão das etapas da investigação e o posterior encaminhamento do caso ao Ministério Público de São Paulo. A expectativa da família é que, após a análise das provas reunidas pela Polícia Civil, o Ministério Público avalie a possibilidade de oferecer denúncia criminal por maus-tratos.