Gisele Fiales, de 49 anos, ficou tetraplégica após ser baleada pelo ex-companheiro em 1995 e hoje transforma a própria trajetória em mobilização por justiça e prevenção à violência de gênero

Redação Publicado em 25/08/2026, às 16h09
Gisele Fiales, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio que a deixou tetraplégica, agora atua no apoio a outras mulheres e estuda investigação forense, buscando alertar sobre a violência doméstica e a importância da apuração técnica de crimes contra mulheres.
Após ser baleada pelo ex-companheiro em 1995, Gisele percebeu que a perícia pode ser crucial em investigações de feminicídio, pois ajuda a reconstruir a dinâmica do crime, mesmo quando a vítima não pode mais relatar o ocorrido.
Atualmente, Gisele compartilha sua história para incentivar outras mulheres a romperem ciclos de violência e, paralelamente, estuda perícia criminal como forma de buscar justiça, destacando a importância de canais de atendimento para mulheres em situação de violência.
Mais de três décadas depois de sobreviver a uma tentativa de feminicídio que a deixou tetraplégica, Gisele Fiales, de 49 anos, passou a atuar no apoio a outras mulheres e decidiu estudar investigação forense e perícia criminal. Moradora de São Vicente, no litoral de São Paulo, ela foi baleada pelo ex-companheiro em 1995, quando tinha 18 anos. Atualmente, utiliza a própria experiência para alertar sobre os sinais da violência doméstica e defender a importância da apuração técnica de crimes contra mulheres.
Gisele afirma que o interesse pela área forense surgiu ao acompanhar casos em que o trabalho pericial foi determinante para esclarecer mortes inicialmente cercadas por dúvidas. Para ela, a perícia pode desempenhar papel decisivo em investigações de feminicídio porque permite reconstruir tecnicamente a dinâmica de um crime mesmo quando a vítima já não pode relatar o que ocorreu. “A perícia é a última voz da vítima”, resumiu ao explicar a motivação para ingressar nos estudos da área.
A história de violência vivida por Gisele começou ainda na adolescência. Segundo relato divulgado, ela deixou a casa dos pais aos 14 anos para morar com o primeiro namorado. No início, o relacionamento era marcado por demonstrações de carinho e promessas de uma vida melhor. Com o passar do tempo, porém, ela afirma que passou a enfrentar controle, isolamento e agressões físicas e psicológicas.
Em aproximadamente um ano, Gisele deixou de estudar e perdeu contato com amigas. Segundo o relato, após os episódios de violência, o companheiro voltava a agir de forma afetuosa, oferecendo presentes e retomando o comportamento apresentado no início da relação. Essa alternância entre agressões e reconciliações contribuiu para que ela permanecesse no relacionamento.
Gisele engravidou aos 15 anos e afirmou que as agressões se intensificaram com o passar do tempo. Com a ajuda de uma amiga, conseguiu deixar a casa e passou a trabalhar com o objetivo de reorganizar a própria vida e buscar na Justiça a guarda da filha. Em 1995, aos 18 anos, foi atacada pelo ex-companheiro. Segundo Gisele, o homem invadiu a residência enquanto ela tomava banho e efetuou pelo menos cinco disparos em sua direção. O autor não teve a identidade divulgada e, de acordo com a vítima, não foi preso na época.
O crime ocorreu 11 anos antes da criação da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, legislação que ampliou mecanismos de prevenção, proteção e responsabilização em casos de violência doméstica e familiar contra mulheres. Gisele foi encontrada por amigas com quem havia combinado de sair naquele dia.
Ela relata que permaneceu consciente após os disparos, mas estava debilitada e com dificuldade para falar. Foi socorrida e levada ao hospital, onde ficou inconsciente durante dois dias. Ao despertar, recebeu dos médicos a informação de que um dos tiros havia atingido a medula na região das vértebras cervicais C5 e C6. A lesão provocou tetraplegia.
Gisele descreve que, inicialmente, teve dificuldade para compreender a impossibilidade de movimentar o corpo, apesar de permanecer consciente do que ocorria ao redor. Depois da alta hospitalar, Gisele passou a depender da ajuda de amigos e vizinhos para atividades básicas do cotidiano. Ao longo dos anos, realizou tratamentos e sessões de fisioterapia e conseguiu recuperar parte dos movimentos e da autonomia.
A experiência também passou a direcionar sua atuação pública. Hoje, ela compartilha a própria história com o objetivo de incentivar mulheres em situação de violência a procurar ajuda e romper ciclos abusivos antes que as agressões avancem. Para Gisele, falar sobre o que viveu também é uma maneira de contribuir para que novas gerações reconheçam comportamentos abusivos com maior antecedência.
Paralelamente ao ativismo, Gisele começou a estudar investigação forense e perícia criminal. Ela explica que passou a enxergar a área como instrumento de busca por justiça, principalmente em crimes nos quais a reconstrução técnica dos acontecimentos pode ser decisiva para esclarecer responsabilidades.
Um dos casos citados por ela foi o da morte de Gisele Alves, em São Paulo. O tenente-coronel Geraldo Neto foi acusado de matar a esposa, encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde o casal morava. Na avaliação de Gisele Fiales, episódios como esse demonstram a relevância dos exames periciais para a apuração de mortes de mulheres.
Mulheres em situação de violência podem procurar atendimento por diferentes canais públicos. Em situações de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo 190. A Guarda Civil Municipal atende pelo 153. A Central de Atendimento à Mulher funciona pelo número 180, enquanto denúncias de violações de direitos humanos também podem ser feitas pelo Disque 100.
Em São Vicente, a Prefeitura disponibiliza atendimento municipal especializado pelo WhatsApp (13) 99130-7047. O programa OAB Por Elas, que oferece orientação jurídica gratuita para mulheres em situação de violência, atende pelo número (13) 99709-5997.
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