Justiça

Três PMs irão a júri por tiros contra motoboy durante Operação Escudo em Santos

Sargento e dois soldados são acusados de tentativa de homicídio contra Evandro Alves da Silva, baleado enquanto estava em um banheiro no Morro José Menino, em 2023; defesa sustenta legítima defesa

Imagens de câmeras corporais registraram a ação policial que terminou com o motoboy Evandro Alves da Silva baleado no Morro José Menino, em Santos, durante a Operação Escudo, em agosto de 2023 - Imagem: Montagem g1/Reprodução
Imagens de câmeras corporais registraram a ação policial que terminou com o motoboy Evandro Alves da Silva baleado no Morro José Menino, em Santos, durante a Operação Escudo, em agosto de 2023 - Imagem: Montagem g1/Reprodução

Redação Publicado em 15/08/2026, às 14h15


Três policiais militares de Santos foram decididos a ser julgados pelo Tribunal do Júri por atirarem contra o motoboy Evandro Alves da Silva durante a Operação Escudo, resultando em ferimentos graves para a vítima em agosto de 2023.

Evandro, que sofreu múltiplas fraturas e teve que retirar o baço e parte do pulmão, relatou ter desenvolvido crises de pânico após o incidente, enquanto a defesa dos policiais alega que eles agiram em legítima defesa.

A juíza considerou os depoimentos e as circunstâncias do caso para a pronúncia, e agora cabe ao Tribunal do Júri avaliar as provas e decidir sobre a responsabilidade criminal dos acusados, em meio a alegações de violência policial durante a operação.

A Justiça de Santos decidiu que três policiais militares acusados de atirar contra o motoboy Evandro Alves da Silva durante a Operação Escudo serão submetidos a julgamento pelo Tribunal do Júri. O caso ocorreu em 30 de agosto de 2023, no Morro José Menino, quando a vítima foi atingida por disparos de calibre 12 enquanto estava em um banheiro de um imóvel usado como ponto de apoio para mototaxistas.

Os policiais Thiago Freitas da Silva, Daniel Pereira Noda e Carlos Vinicius Batista Bruno respondem por tentativa de homicídio qualificado. A decisão de pronúncia foi tomada após a fase de instrução do processo, que reuniu depoimentos de testemunhas e dos próprios envolvidos.

A defesa dos agentes afirma que eles atuaram em legítima defesa e no cumprimento do dever legal. Segundo o advogado Gilberto Quintanilha Pucci, essa versão será apresentada novamente durante o julgamento.

Em depoimento à Justiça, Evandro relatou que sofreu diversas fraturas nas costelas e precisou retirar o baço e parte do pulmão esquerdo em razão dos ferimentos. Ele também afirmou ter desenvolvido crises de pânico e limitações físicas após o episódio.

Na ocasião dos disparos, mesmo ferido, o motoboy pulou uma janela do imóvel e caiu de uma altura aproximada de sete metros. As imagens das câmeras corporais dos policiais registraram parte da ação.

Segundo a acusação, os elementos reunidos no processo são suficientes para que o Tribunal do Júri avalie a responsabilidade dos três agentes. A juíza Thais Caroline Brecht Esteves Gouveia considerou os depoimentos prestados durante a instrução e as circunstâncias do episódio ao determinar a pronúncia.

Após o episódio, os policiais afirmaram que Evandro estava armado. Um revólver foi apresentado como parte da ocorrência. A análise das câmeras corporais, porém, passou a ser um dos principais elementos considerados na investigação. Segundo o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), as gravações indicam que inicialmente não havia uma arma sobre a cama. Cerca de dois minutos depois, uma pistola aparece no mesmo local.

A família do motoboy afirmou que a arma teria sido colocada pelos policiais. A acusação também sustenta que as imagens não confirmam a versão de que Evandro estivesse armado no momento da abordagem.

Em dezembro de 2025, o MP-SP arquivou a investigação contra o motoboy pelos crimes de resistência e porte ilegal de arma de fogo. Na manifestação pelo arquivamento, o promotor Fabio Perez Fernandez concluiu que Evandro não estava armado e não teria resistido à abordagem, segundo os elementos analisados.

Acusação e defesa apresentam versões diferentes

O Ministério Público denunciou os três policiais por tentativa de homicídio qualificado, considerando as circunstâncias apontadas na investigação. A denúncia foi recebida pela Justiça em setembro de 2025.

Para a acusação, os disparos atingiram Evandro em uma situação na qual ele não representava ameaça armada aos agentes. Já a defesa sustenta que os policiais reagiram diante de uma suposta agressão e que a conduta ocorreu no contexto da atuação policial.

Com a decisão de pronúncia, caberá agora ao Tribunal do Júri analisar as provas e decidir se os acusados devem ser responsabilizados criminalmente pelos fatos.

Operação Escudo

A Operação Escudo foi realizada na Baixada Santista a partir de julho de 2023, após a morte do policial militar Patrick Bastos Reis. Durante a operação, 28 suspeitos morreram em supostos confrontos com policiais, segundo os dados mencionados na reportagem.

A ação também foi alvo de denúncias de organizações de direitos humanos, que relataram possíveis casos de violência policial, tortura e execuções. Os episódios passaram a ser investigados por diferentes órgãos.