Cultura

Anita Malfatti e o olhar que ainda não sabia ver

Com sua participação na Semana de Arte Moderna, Anita Malfatti se tornou um símbolo da ruptura e da modernidade na arte brasileira

- Anita Malfatti — O Homem Amarelo 1915–1916

Marlene Polito Publicado em 05/05/2026, às 10h24

Há artistas que inauguram estilos. E há aqueles que, sem alarde, deslocam uma época inteira. Anita Malfatti pertence a essa segunda categoria.

Sua obra não apenas introduziu novas formas de ver e pintar; ela alterou o próprio horizonte do possível na arte brasileira. Antes dela, o país se acomodava sob a segurança do academicismo. Depois dela, algo se rompeu, e já não havia como voltar.

Nascida em São Paulo, em 1889, filha de pai italiano e mãe norte-americana, Anita cresceu entre línguas, referências e tensões.

Mas havia ainda outra força silenciosa moldando sua trajetória: a limitação no braço e na mão direita. O que poderia ter sido um impedimento tornou-se uma espécie de reconfiguração do gesto. Ao aprender a desenhar com a mão esquerda, Anita não apenas se adaptou; construiu uma relação com a pintura que não era automática, mas conquistada.

Talvez por isso sua obra carregue sempre algo de tensão contida, como se cada linha fosse resultado de uma decisão.

Aos treze anos, viveu um episódio que ela própria relataria como decisivo.

Havia, segundo suas palavras, uma inquietação difusa, uma sensação de não saber ainda que direção tomar. Como se algo nela existisse, mas ainda não tivesse forma.

Foi então que decidiu se submeter a uma experiência extrema.

Saiu de casa, caminhou até a linha do trem próxima à estação da Barra Funda, amarrou as tranças de menina e deitou-se sobre os dormentes, esperando a passagem da locomotiva.

O que se seguiu foi, em suas palavras, “uma coisa horrível, indescritível”. O ruído ensurdecedor, a pressão do ar, o calor sufocante produziram um estado que ela descreve como delírio.

E, no meio desse caos, algo se revelou:

“E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada.”

Mais do que uma experiência limite, foi uma espécie de revelação. Não como episódio isolado, mas como chave de leitura.

É como se, naquele instante, Anita tivesse compreendido que sua relação com o mundo não passaria pela estabilidade das formas, mas pela intensidade da percepção.

Não por acaso, voltaria decidida a se dedicar à pintura.

Essa disposição para atravessar limites reaparece em sua formação.

Na Alemanha, entre 1910 e 1914, entra em contato com o expressionismo, uma pintura que não busca reproduzir o mundo, mas tensioná-lo.

Em Nova York, entre 1915 e 1916, encontra um ambiente ainda mais livre, onde a cor e a forma deixam de ser ornamento e passam a agir como forças.

Quando retorna ao Brasil, traz consigo não apenas influências, mas outro modo de olhar. E é justamente esse olhar que causa estranhamento.

A estudante, Anita Malfatti, 1915-16

 

A exposição de 1917, em São Paulo, marca esse momento.

Obras como A Boba, A Estudante e O Homem Amarelo não apenas diferem do que se via; elas desorganizam o que se esperava ver.

Não há ali a tranquilidade da forma reconhecível. Há tensão, há deslocamento, há algo que não se resolve.

O público, acostumado à elegância previsível do retrato acadêmico, reage com perplexidade. Não era apenas uma nova pintura. Era uma pintura que exigia um novo olhar. É nesse contexto que surge a crítica de Monteiro Lobato.

Seu texto ficou conhecido pela dureza, mas talvez seja mais interessante lê-lo como sintoma de um tempo. Não se tratava apenas de rejeição individual, mas da dificuldade coletiva de reconhecer uma linguagem que ainda não tinha lugar.

O choque não estava apenas nas telas, mas no descompasso entre o que se via e o que se sabia ver.

A Boba, de Anita Malfatti, 1915–1916

 

Na Semana de Arte Moderna, em 1922, Anita Malfatti participa com suas pinturas, ao lado de Di Cavalcanti, John Graz, Zina Aita e Vicente do Rego Monteiro.

Mais do que presença, há ali um símbolo: Anita já havia atravessado o impacto da ruptura em 1917. Se a Semana de 22 marca a consolidação, Anita representa o instante anterior.

E há ainda uma dimensão que atravessa toda essa trajetória de maneira silenciosa: a condição feminina.

No início do século XX, o espaço da mulher na arte era restrito, quando não meramente tolerado. Anita não reivindica esse espaço em palavras. Ela o ocupa em gesto.

Estuda fora, trabalha, expõe, se expõe. Sua presença não se constrói por concessão, mas por afirmação. E talvez isso também tenha contribuído para o desconforto que sua obra provocou.

Seu impacto não se limita ao episódio da exposição. Algo se desloca de forma irreversível.

Nomes como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti encontram, nesse gesto inaugural, a possibilidade de avançar. Não se trata de influência direta no sentido tradicional, mas da abertura de um campo. Depois de Anita, já não era necessário pedir licença à tradição para experimentar.

Anita Malfatti não foi apenas a primeira modernista. Foi a primeira a sustentar o desconforto da modernidade. Carregou a incompreensão, a crítica, o isolamento. Mas também abriu a porta pela qual outros entrariam com mais segurança. Sua obra permanece não apenas como marco histórico, mas como provocação contínua.

Porque, no fim das contas, Anita não nos ensina apenas a ver uma nova pintura. Ela nos obriga a reconhecer algo mais inquietante: que o olhar, quando verdadeiramente desafiado, precisa se transformar.

E talvez seja esse o seu gesto mais radical, não o de pintar diferente, mas o de nos colocar diante daquilo que ainda não sabemos ver.

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