Cultura

A geometria dos encontros e desencontros

O desenho invisível das relações

Composição contemporânea de inspiração geométrica.
Composição contemporânea de inspiração geométrica.
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 28/04/2026, às 10h16


Meu primeiro encontro com Pitágoras não foi propriamente um encontro.
Foi uma fórmula.

Ainda na adolescência, nas aulas de matemática, ele surgia como um nome associado a um teorema que precisava ser compreendido e resolvido. Havia triângulos, demonstrações. Pitágoras, para mim, era isso: um raciocínio que levava a um resultado incontestável.

Pouco depois, voltei a encontrá-lo. Nas aulas de filosofia. E algo começou a se deslocar. O mesmo nome já não se restringia a linhas e ângulos. Falava-se de compreender o mundo, de uma ordem invisível que organizaria as coisas – o número. Uma busca por sentido que ultrapassava a geometria.

Mas não parou ai. Mais à frente, descobri que Pitágoras também habitava a música. O que soa harmonioso obedece a proporções, a relações numéricas, a uma arquitetura invisível do som. A música deixava de ser apenas experiência sensível. Tornava-se forma: uma ordem que se revela no próprio modo de produzir o som.

Foi um pequeno susto. Como poderia ser?

Talvez o espanto não estivesse em Pitágoras, mas no modo como eu o havia encontrado antes. Restrito a um triângulo, cabia em uma fórmula. Fora dali, começava a se expandir.

E, nesse movimento, algo se revela.  Aquilo que eu tomava como domínios separados – cálculo, pensamento, música – talvez obedecesse a um mesmo princípio.

Não se trata apenas de números, mas de relações. De como tudo se organiza, segundo uma ordem que atravessa as coisas e que, de algum modo, também as torna belas.

E é difícil não levar essa percepção adiante. Se há formas que estruturam o mundo, talvez haja também formas que organizam os nossos encontros.  

Blaise Pascal já distinguia dois modos de ver: o espírito da geometria e o da fineza. Um busca a exatidão. O outro, o que escapa.

Talvez não se trate de escolher, mas de perceber o que cada relação exige de nós. Há encontros que pedem definição. Outros, escuta. Alguns se sustentam na clareza. Outros, no que ainda não está completamente formado.

As formas já não estão apenas nos desenhos. Atravessam a maneira como nos aproximamos, nos afastamos, nos mantemos. E é aí que a forma começa a ceder, porque nem tudo se deixa fixar.

Padrão geométrico contemporâneo inspirado na estética Bauhaus.
Padrão geométrico contemporâneo inspirado na estética Bauhaus.

Há relações que se mantêm lado a lado por muito tempo. Compartilham o mesmo espaço, o mesmo ritmo. De fora, parecem próximas. Por dentro, não se tocam. Caminham juntas, mas não se encontram.

São linhas paralelas

Não há conflito aberto, nem ruptura, nem excesso. Apenas um acordo silencioso que sustenta a convivência. Falta, porém, o ponto de interseção, o instante em que algo se altera, se desvia, se deixa afetar.

Outras relações tomam forma distinta.  Fecham-se sobre si mesmas. Criam um espaço de continuidade em que tudo retorna.  Há acolhimento, reconhecimento, pertencimento. Nelas, é possível sair e voltar. E ainda assim permanecer.

São círculos    

Como toda forma que se fecha, porém, também podem limitar. O que está dentro se preserva. O que está fora dificilmente entra.

Há ainda as que se constroem na tensão. Não se distribuem de maneira uniforme. Há sempre um ponto que desloca, um vértice que sustenta o equilíbrio, uma terceira presença, concreta ou simbólica, que reorganiza o conjunto.

São triângulos     

Instáveis, exigem ajuste constante. Podem transformar. Ou desestabilizar.

E há as relações que buscam firmeza.  Definem limites, estabelecem contornos, organizam-se a partir de regras explícitas ou implícitas. São previsíveis, confiáveis, sustentadas por uma estrutura que evita o improviso.

São quadrados     

Oferecem segurança. Mas, quando excessivas, podem endurecer. Nem tudo que é estável permanece vivo.

Entre elas, surgem formas intermediárias. Relações que não são perfeitamente simétricas, mas se ajustam. Em que um lado cede mais, o outro compensa. Em que o equilíbrio não é exato, mas possível.

Menos ideais, mas mais reais. Menos perfeitas, mas mais habitáveis.

Talvez essas formas não sejam apenas imagens que usamos para compreender o que nos cerca. Revelem também modos distintos de perceber e

habitar o mundo. E talvez por isso a arte nunca as tenha abandonado.

Wassily Kandinsky levou essa intuição ao limite. Linhas, círculos e ângulos já não descrevem. Expressam.

E reconhecemos essas vibrações.

Circles in a Circle, Kandinsky, 1923
Circles in a Circle, Kandinsky, 1923

Sabemos quando uma relação nos envolve. Quando nos projeta. Quando nos mantém à distância.

Há uma correspondência silenciosa entre as formas que vemos e as que vivemos. Talvez não escolhamos conscientemente essas formas. Elas se desenham aos poucos. Na repetição dos gestos. Nas palavras ditas – e evitadas.

Quando o olhar se detém, algo muda. Começamos a reconhecer o círculo que se fecha, a linha que não se cruza, o ângulo que insiste em deslocar o equilíbrio.

E, com isso, talvez surja a possibilidade de um gesto. Um desvio. Uma aproximação inesperada. Um ponto de contato onde antes havia apenas paralelismo.

Porque, se é verdade que as formas nos organizam, talvez também possamos, em algum momento, reorganizá-las.

Ainda que discretamente.
Ainda que tarde.