Estudos indicam que pesquisas podem influenciar a escolha do eleitor, mesmo que não prevejam resultados futuros com precisão
Reinaldo Polito Publicado em 17/07/2026, às 10h12
Dizer que as pesquisas eleitorais erram com frequência já virou conversa do nosso dia a dia. Pesquisa é assunto sério. Se for bem-feita, com critérios científicos rigorosos, poderá mostrar um quadro bastante próximo da realidade. Infelizmente, nem sempre é assim.
Muitos comentaristas políticos se mostraram atônitos com o resultado da eleição presidencial nos Estados Unidos. Acreditaram nas pesquisas e se surpreenderam com as urnas. Todos sabem que os eleitores podem mudar de opinião de um momento para outro e que esses levantamentos mostram apenas a fotografia daquele instante. Mas há fotos e fotos.
Kamala venceu nas pesquisas, mas perdeu nas urnas
Estou exagerando? Em levantamento do The New York Times com o Siena College, divulgado dois dias antes da eleição, Kamala Harris aparecia à frente em quatro estados-pêndulos. Comentaristas políticos, especialmente no Brasil, deitaram e rolaram sobre esses números para apresentá-la como provável vencedora. Nas urnas, porém, ocorreu o contrário: Trump venceu nos quatro estados.
A média nacional compilada pelo FiveThirtyEight na véspera também mostrava Kamala cerca de 1,2 ponto à frente no voto popular. No resultado final, Trump teve vantagem próxima de 1,5 ponto: 49,81% a 48,34%.
Os institutos erraram no Brasil
Estou falando das pesquisas americanas para não mexer muito no vespeiro brasileiro. Mas basta voltar ao primeiro turno de 2022 para encontrar diferenças ainda mais expressivas.
Na véspera da eleição, Lula aparecia com 50% dos votos válidos no Datafolha, 51% no Ipec e 49% no Ipespe. Nas urnas, obteve 48,43%. No caso de Bolsonaro, a distância foi muito maior. Ele tinha 36% no Datafolha, 37% no Ipec e 35% no Ipespe. Terminou com 43,2%.
E é uma coincidência impressionante: nas últimas disputas aqui analisadas, os erros ocorreram sempre na mesma direção, favorecendo os candidatos de esquerda.
Divergências recentes
Esta semana, o assunto pegou fogo novamente. Enquanto a Nexus/BTG apontava uma margem apertada a favor de Lula contra Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, 47% a 44%, a Genial/Quaest apresentava números bastante distintos: 45% a 37%.
No primeiro levantamento, a diferença de três pontos configurava empate técnico dentro da margem de erro. No segundo, a vantagem de Lula chegava a oito pontos. As taxas de rejeição também não conversavam. Na Nexus, Flávio tinha 50%, contra 46% de Lula. Na Quaest, a rejeição de Flávio chegou a 57%, e a de Lula, a 50%.
Lula é favorecido pelas pesquisas
Em uma pesquisa, portanto, temos uma disputa aberta. Na outra, Lula aparece com vantagem bem mais confortável. Dependendo do instituto escolhido, muda não apenas o número, mas também a interpretação do cenário. Em quem acreditar?
Os institutos dizem, corretamente, que pesquisa não é estudo de futurologia. Ela não existe para adivinhar o resultado da eleição. Isso não significa, porém, que os números divulgados não possam influenciar o eleitor.
Estudo comprova que pesquisa influencia
O cientista político Geraldo Tadeu Monteiro afirmou ao Portal da Câmara dos Deputados: “A pesquisa não determina, ela influencia como qualquer outra fonte de informação”. Segundo seus estudos, 5% dos eleitores poderiam mudar o voto ao descobrir que seu candidato não tinha possibilidade de vitória. Os outros 95% permaneceriam com a escolha inicial.
Esses desencontros numéricos chegaram a tal ponto que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, propôs a criação de um “Selo de Acurácia Eleitoral” para os institutos que mais se aproximarem dos resultados das urnas.
Opiniões favoráveis e contrárias
A reação foi imediata. Os críticos disseram que a proposta parte da premissa equivocada de que as pesquisas são feitas para prever o futuro. Argumentaram também que os juízes não possuem competência técnica para definir a qualidade dos levantamentos nem poder constitucional para tutelar a liberdade de atuação dos institutos.
Os defensores sustentam que o selo serviria como atestado de qualidade para as empresas de desempenho mais consistente. Poderia também incentivar o aperfeiçoamento dos métodos e ajudar o público a distinguir institutos sérios de empresas que divulgam resultados sem o necessário rigor técnico.
Algo deve ser feito
Talvez a solução não seja esse selo de desempenho. A proposta precisa ser discutida com cuidado para que não se transforme em instrumento de controle ou constrangimento. Mas que algo precisa ser feito não há dúvida.
Principalmente porque os candidatos beneficiados divulgam os resultados à exaustão. Sabem que a imagem de favoritismo pode influenciar parte dos eleitores, atrair apoios, fortalecer alianças e desanimar os adversários.
Pesquisas eleitorais são necessárias. Mas, quando levantamentos realizados praticamente no mesmo período apresentam retratos tão diferentes e essas divergências não são explicadas de maneira compreensível, os institutos prestam um péssimo serviço à democracia. Em vez de informar, podem acabar desinformando o eleitor.