Há uma antiga polêmica na entidade
Reinaldo Polito Publicado em 13/03/2026, às 15h45
Você concorda que pessoas que não se dedicam exclusivamente ao mundo literário, como políticos, artistas de teatro e apresentadores de televisão, entrem para a Academia Brasileira de Letras? Sabia que esse debate, de certa forma, nasceu com a própria Academia?
Há uma antiga polêmica na Academia Brasileira de Letras. Alguns julgam que só deveria vestir o fardão quem se dedicasse à vida literária. Outros, ao contrário, defendem que basta ter um ou outro vínculo literário para ingressar na Casa das Letras. Se não fosse assim, como, então, justificar a presença de nomes como Miriam Leitão, Gilberto Gil, Merval Pereira e Fernanda Montenegro?
Se nos lembrarmos de que Getúlio Vargas e José Sarney também foram recepcionados como membros da Academia, nenhum outro nome deveria provocar estranheza. Já nos primórdios, esse critério era motivo de debates. Para azeitar ainda mais a conversa, vale a pena citar um episódio bastante pitoresco.
Os primeiros conflitos
Já na fundação da entidade surgiram as primeiras faíscas de conflito. Dois expoentes da nossa história literária, Machado de Assis e Joaquim Nabuco, membros fundadores, discordavam a respeito das condições que deveriam ser consideradas para a admissão de um acadêmico.
Machado, o primeiro presidente da instituição, argumentava que o critério para ocupar uma cadeira deveria ser a carreira literária. Nabuco, provavelmente por ter nas veias um instinto mais político, defendia posição diferente. De acordo com o grande diplomata, bastaria que houvesse vínculo literário, independentemente da atividade exercida, para que pudesse se credenciar a tomar o chá das cinco.
Casos curiosíssimos da Academia
Em meio a essas discussões, a ABL foi construindo sua história. Um dos casos mais curiosos ocorreu com Graça Aranha. O escritor maranhense ocupou a cadeira nº 38 em 1897, época em que ainda não havia publicado nenhum livro. Sua primeira obra, Canaã, só seria editada em 1902, isto é, cinco anos após sua posse. E, para completar sua biografia de acadêmico, ele se desligou da Academia por não concordar com o estatuto de fundação.
Há também uma história interessante e triste ao mesmo tempo: um acadêmico que não chegou a pertencer à Academia, Francisco de Castro. O relato emocionado foi feito por seu próprio filho, Aloysio de Castro.
A amizade de Machado de Assis e Francisco de Castro
No dia 14 de novembro de 1917, o filho de Francisco chegou à Academia, ocupando a cadeira nº 5, que pertencera a Oswaldo Cruz. Em seu discurso de posse, Aloysio revela que seu pai, Francisco de Castro, médico como ele, mantivera estreita amizade com Machado de Assis.
Eleito em 10 de agosto de 1899, seu pai faleceu em 11 de outubro do mesmo ano.
Segundo ele, o pai foi um homem brilhante. Além de excelente orador, poeta sensível e dedicado ao ensino, era também conversador admirável.
O tempo passou e o novo acadêmico não tomava a iniciativa de entregar seu discurso de posse. Machado de Assis resolveu, então, visitá-lo para conversar e pedir que apressasse o término de sua mensagem. Francisco de Castro atendeu ao pedido do velho amigo, concluiu seu discurso, fez todas as revisões e o encaminhou ao autor de Quincas Borba.
Surpresas do destino
Quis o destino, todavia, que o pai não pudesse ler sua peça oratória. Faleceu pouco antes da data marcada para a posse. Entrou para a história como o acadêmico que não chegou a pertencer à Academia.
Aloysio de Castro reservou boa parte do discurso de posse para descrever a amizade de seu pai com Machado de Assis. Deu detalhes de como o fundador da Academia se dirigiu à sua casa para animar Francisco de Castro a concluir e entregar o discurso. Revelou que o fato mais interessante na conversa entre os dois amigos foi o momento em que falaram sobre livros e as providências que tomavam para protegê-los dos insetos. Ficou ainda mais emocionado ao dizer que aquela fora a última vez que os dois se viram.
A emoção de encontrar o discurso de posse
Tenho todos os livros com os discursos de posse e de recepção da Academia Brasileira de Letras. Não fazia muito tempo que eu havia lido o discurso de Aloysio de Castro. Por uma coincidência que me surpreendeu muito, em uma de minhas atividades preferidas, garimpar livros nos sebos do centro velho de São Paulo, encontrei em excelente estado um exemplar contendo o discurso de Francisco de Castro.
Dessa vez, emocionei-me ao ler aquele discurso que jamais seria usado em sua posse. Dá para imaginar também o que sentiu Aloysio ao relatar esses acontecimentos no momento em que entrava para a Academia. Um sonho realizado por ele, mas que não havia sido possível para seu pai.
Será que no futuro, longe de holofotes e de interesses políticos, alguém se sensibilizará com a história das recentes posses na Academia? Não seria a primeira vez que a Casa de Machado de Assis se vê às voltas com esse dilema.
Afonso Arinos de Mello Franco foi severo ao se referir aos critérios da ABL: “Meu desejo sincero seria que nossa Academia Brasileira não se esquecesse tanto de que é também de... letras”.
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