Descubra como a oratória evoluiu ao longo dos séculos e suas implicações na comunicação atual

por Reinaldo Polito
Publicado em 12/06/2026, às 14h02
Desde a publicação do primeiro livro de oratória que se tem notícia lá se vão 2.500 anos. No século V aC, Córax e Tísias escreveram Téchne, obra destinada a ensinar os proprietários de terra a argumentar para recuperar as propriedades que haviam perdido. O livro se perdeu, mas sua existência é mencionada por Platão e Cícero.
No século IV aC, Aristóteles escreveu Arte retórica, o mais antigo tratado de oratória que chegou fisicamente aos nossos dias. No final do primeiro século da nossa era, Quintiliano reuniu tudo o que havia sido produzido até então e publicou as Instituições oratórias, em 12 livros, consideradas a Bíblia da comunicação.
Só 5% de mulheres
Durante séculos, esses ensinamentos sofreram apenas adaptações sutis, acompanhando lentamente as transformações sociais. Os princípios estabelecidos por Aristóteles, com alguns ajustes, continuam válidos. Mas há um detalhe importante: eles não podem mais ser aplicados ao pé da letra, como insistem alguns especialistas.
Nos últimos cinquenta anos assisti a mudanças que nenhuma geração anterior conheceu. Quando comecei a ensinar oratória, apenas 5% dos meus alunos eram mulheres. Eu chegava a conceder bolsas integrais para aumentar a participação feminina. Hoje elas são maioria. Quase preciso fazer o contrário e oferecer bolsas para os homens.
Mais de 17 anos
No início da carreira, só aceitava alunos com mais de 17 anos. Entendia que os mais jovens ainda não possuíam repertório suficiente para aproveitar as aulas. Hoje, adolescentes de 13 e 14 anos sobem à tribuna e dão verdadeiros espetáculos. Eles chegam mais informados, mais preparados e mais familiarizados com as novas formas de comunicação.
Há 24 anos dou aulas na pós-graduação da ECA-USP. Continuo nesse trabalho porque ele funciona como um oxigênio. Ensino bastante, mas aprendo todos os dias. Descubro se a piada ainda provoca riso, se as histórias continuam interessantes e se consigo manter a atenção dos jovens durante três horas. Precisei correr para não ficar para trás.
Pouca paciência para ouvir
As últimas gerações cresceram em um mundo completamente diferente daquele em que viveram seus pais e avós. Recebem mais informações, processam mensagens com rapidez e têm pouca paciência para percursos previsíveis. Quando o orador começa a falar, muitas vezes já sabem onde ele pretende chegar. Se nada os surpreender, desligam.
Até para ouvir mensagens no Whatsapp, aceleram a velocidade para 1,5 ou 2. Alguns sequer se dão ao trabalho de ouvir. Avisam logo: não ouço áudios.
Sair da mesmice
Diante dessa nova realidade, quem iniciar uma apresentação recorrendo às velhas fórmulas, presentes em dez de cada dez livros sobre a arte de falar, corre sério risco de perder os ouvintes nas primeiras frases. Basta começar com o batido “Quero agradecer o honroso convite para falar diante de tão distinta plateia” para que a atenção desapareça.
Os extensos vocativos, citando um a um os integrantes da mesa de honra, perderam o encanto. O lugar-comum deixou de ser virtude. A mesmice transformou-se em veneno.
Ir diretamente ao assunto
Há uma regra de ouro para a comunicação dos dias atuais: quanto mais rapidamente o orador se encaminhar para o assunto central da apresentação, maiores serão as chances de conquistar a boa vontade, a atenção e a receptividade dos ouvintes. Isso não significa abrir mão da introdução. Significa apenas torná-la mais viva e atraente.
Em vez de dizer: “O objetivo desta reunião é determinar as metas de vendas para o próximo semestre”, um gerente poderia começar assim: “Daqui a seis meses os nossos concorrentes só vão nos enxergar com luneta. Os nossos números vão fazer o mercado estremecer”.
Quem manda é o ouvinte
Outra mudança importante é abandonar o excesso de seriedade e didatismo. Dependendo das circunstâncias, a fala deve ser leve, bem-humorada e próxima do público. Quase uma conversa animada com alguns amigos. Sem cair na vulgaridade ou se transformar em bobo da corte, esse comportamento tende a envolver mais os ouvintes.
Vale recorrer a todos os recursos que façam sentido dentro do contexto: movimentar-se, fazer perguntas, estimular a participação, contar histórias curtas, criar expectativas e provocar a curiosidade. Cada orador precisa descobrir aquilo que funciona melhor para si.
Os princípios continuam os mesmos. Aristóteles continua atual. Cícero ainda tem muito a ensinar. Quintiliano permanece vivo. O que morreu foram certas fórmulas. E quem insistir em falar como se estivesse diante de uma plateia do século passado corre o risco de continuar fazendo discursos e descobrir, tarde demais, que está falando sozinho. Siga pelo Instagram: @polito
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