Após 40 anos, a experiência reforça que o público busca informações úteis, não apenas celebridades
Reinaldo Polito Publicado em 16/01/2026, às 09h15
A fama nem sempre sustenta a falta de conhecimento
Em meados dos anos 1980, tive uma das mais preciosas lições de toda a minha vida. Eu dava mais um de meus cursos em Santa Catarina. Os participantes eram executivos de diversas empresas, especialmente do setor supermercadista. Um dos alunos me convidou para assistir a uma palestra que seria ministrada naquela noite no hotel onde nos hospedávamos.
A palestrante era uma conhecida jornalista da televisão. Como sempre se aprende em uma palestra, aceitei. Ela se apresentaria durante uma hora e meia para dirigentes de redes de supermercados. Todos muito experientes. Alguns atuando há décadas no ramo. Bonito isso. Por mais que conhecessem profundamente suas atividades, estavam ali humildemente procurando se aperfeiçoar. Havia grande expectativa no grupo. Talvez nem tanto pelo conteúdo em si, mas pelo fato de verem de perto a profissional tão famosa.
Já compraram o ingresso sorrindo
Ela foi recebida com aplausos entusiasmados pelo público. Era como se dissessem com aquela ovação: estamos aqui prontos para gostar de você. Não poderia haver ambiente mais favorável para um palestrante. A forma simpática como cumprimentou os ouvintes demonstrava a experiência de longa data em situações semelhantes.
A fala pausada, os gestos moderados, os olhos atentos a todos os cantos do auditório, o leve sorriso por trás de uma voz audível, mas quase sussurrante.
Eram os ingredientes de uma comunicação segura e eficiente. Fiquei impressionado.
A decepção e a contrariedade
Essa fase de conquista durou quase 20 minutos. Sabendo que havia curiosidade sobre sua jornada profissional, contou detalhes interessantes dos desafios que precisou superar. O semblante de todos era de profunda admiração. Que mulher guerreira!
Cumprida essa etapa da introdução, como era de se esperar, ela passou a falar do tema para o qual havia sido contratada: as ligações do mercado financeiro com o setor supermercadista. Nesse momento, o semblante do público foi perdendo aquele brilho inicial e deu lugar à contrariedade e à decepção.
Conteúdo desatualizado
Eu fui um espectador privilegiado. Havia me sentado no fundo da sala, o que permitiu observar a reação da plateia. Como eu não estava tão familiarizado com a matéria, perguntei ao meu aluno, sentado ao lado, por que eles haviam se colocado na defensiva de forma tão repentina.
Ele cochichou:
— Professor, esses números, pesquisas e estatísticas que ela está projetando estão desatualizados. Não têm nada a ver com a realidade. Qualquer um aqui conhece esses dados de cor e salteado. É o pão nosso de cada dia. Ela não tem ideia do que está dizendo.
Não valeu o custo/benefício
Ficou claro para aquela turma que contratá-la fora um péssimo investimento. A decepção era evidente. O pior é que, como tinha bastante tempo para falar e nenhum conteúdo consistente a apresentar, repetiu diversas vezes as mesmas informações equivocadas.
Ao concluir a exposição, recebeu aplausos protocolares, de alívio e até de solidariedade. Como era experiente, provavelmente tinha consciência de estar despreparada e de que havia aceitado o convite apenas pelo cachê. Percebeu, pela reação dos ouvintes, que seu desempenho havia deixado a desejar.
Enriqueceu a aula
Resolvi assistir àquela palestra para extrair uma ou duas informações úteis e interagir com alguns alunos. Não imaginava, entretanto, que confirmaria ali, na prática, que, mesmo sabendo da importância de estar muito bem preparado para qualquer apresentação, a fama sozinha pode ser desastrosa para um orador.
No dia seguinte, essa foi a primeira pergunta dos alunos. Queriam saber como uma profissional experiente pôde ter um desempenho tão sofrível. Foi a oportunidade de explicar que o conteúdo, em voo solo apenas, pode ser cansativo e desinteressante. Por outro lado, o espetáculo sem respaldo do conteúdo pode, em certas circunstâncias, tornar-se vazio e inconsistente.
Os ingredientes de uma boa palestra
Naquele caso, faltaram os dois ingredientes: conteúdo e espetáculo. A fama foi a isca para motivar a presença de todos, mas o brilho pessoal foi ofuscado pela carência de conhecimento. Ao se sentir vulnerável, não conseguiu entreter a plateia.
E a conclusão foi marcante:
Após mais de 40 anos, não me canso de citar esse exemplo para ressaltar que um orador costuma ser convidado pela fama que angariou. O público comparece para ficar frente a frente com a pessoa famosa, mas espera que ela traga informações úteis e saiba se apresentar com boa dose de espetáculo, para tornar aqueles instantes memoráveis.