A comunicação política de Lula e Bolsonaro mostra que a imperfeição pode ser uma estratégia eficaz para conquistar votos
Reinaldo Polito Publicado em 25/09/2026, às 09h00
Lula e Jair Bolsonaro falam mal. Cometem erros gramaticais primários. Pronunciam de maneira defeituosa as palavras. Não possuem linha de raciocínio concatenada. Escorregam em gafes. Atropelam o politicamente correto. E são aclamados pela população. Conseguiram dividir eleitorado em percentuais muito semelhantes, quase 60 milhões de votos cada um.
Como isso é possível? Afinal, para que servem, então, as regras da retórica, da eloquência, da persuasão? Servem e muito. Talvez, em certos momentos, não tenham tanta consciência de que estão contrariando as boas técnicas da comunicação. Possuem um comportamento quase instintivo. E, por isso, encantam muitas pessoas pela espontaneidade.
Análise sem ideologia
Todos nós temos as nossas preferências ideológicas. Se formos guiados por elas para tentar entender esse fenômeno da comunicação, não chegaremos a lugar nenhum. Na verdade, nem sairemos do lugar, pois essa visão enviesada e distorcida que temos dos políticos nos impede de ver com clareza as explicações que estão à nossa frente.
Antes de falar sobre eles, vamos a um pouco de história pessoal. Eu ficava intrigado com o meu pai lá no final dos anos 1950. Ele vestia um terno de linho branco, passado impecavelmente pela minha mãe, e depois rolava na cama para conseguir o charme do amassado. E saía todo pomposo, sentindo-se o maioral.
Nada de sapato novo
Você sabia que em certas campanhas políticas, os marqueteiros pegam os sapatos novos dos candidatos e fazem com eles um trabalho de envelhecimento? Usam diferentes tipos de lixas para desgastar o couro, raspam o solado até os sapatos ficarem com aparência de usados. Em alguns casos, não tão incomuns, escolhem um assessor que calça o mesmo número e pedem para que use os sapatos até ficarem com ar meio envelhecido.
Todo esse trabalho tem uma finalidade. Dar ao candidato a imagem de uma autenticidade que os eleitores gostariam de ver. Jânio Quadros, por exemplo, que venceu quase todas as eleições das quais participou, jogava talco no paletó, próximo do pescoço, para fingir que tinha caspa.
Os ternos de Brizola
Em 1989, José Nunes, alfaiate do ex-governador Leonel Brizola, contou que ele mandava fazer quatro ternos iguais. Queria que pensassem ser ele uma pessoa simples, que não se importava muito com a roupa. Quando o alfaiate comentou com o político que o povo poderia pensar que ele não trocava de roupa, sua resposta bem-humorada foi: "Deixe que elas pensem que eu só tenho um, porque o importante é que eu sei que tenho quatro".
Esse marketing da vestimenta pode ser transportado para a comunicação. Pessoas muito certinhas na maneira de se expressar podem ser vistas como artificiais. Na edição desta quarta-feira, a Folha de São Paulo trouxe uma nota curiosa no "Acervo da Folha", aquelas notícias veiculadas há 100 anos.
"São Paulo. Sem encontrar atualmente uma posição à sua altura para atuar em teatros, o ator Manoel Durães – dono de rara consciência artística e precioso talento – está se apresentando em um cinema, no Rio de Janeiro, fazendo prólogos de filmes, conforme é moda no estrangeiro. [...] Sua dicção é tida como perfeita, e o fato de não cometer exageros nas frases pode, curiosamente, não ter agradado o bastante à maioria dos públicos".
Falhas e deslizes que aproximam
Parece que o fenômeno não foi alterado ao longo deste século. Perfeição em excesso pode não seduzir as pessoas. Alguns deslizes gramaticais. Certas incorreções na postura e na gesticulação. Tropeços linguísticos e falta de coerência na elaboração das ideias podem promover uma aproximação com o público, mais ainda que a própria mensagem.
Experimente perguntar a algumas pessoas depois de um discurso proferido por Lula ou Bolsonaro o que foi que eles disseram. Se conseguirem se lembrar de uma ou outra frase, já será um bom resultado. João Mellão Neto, que foi ministro do Trabalho e atuou como Secretário de Jânio Quadros na prefeitura de São Paulo, foi meu aluno de oratória e, em aula, me contou:
"Assistindo a um discurso de Jânio Quadros em uma cidade do interior, vi como magnetizou a plateia por quarenta minutos. Quando encerrou, foi delirantemente aplaudido pelo povo humilde que o ouvia. Na saída, ouço um cidadão comentar com outro: 'Olha, não entendi nada, mas como esse homem fala bem! Vou votar nele.'"
Erros não podem comprometer
O desafio é encontrar o limite do erro ou da imperfeição. É preciso ter a habilidade de parecer simples e próximo dos ouvintes, mas jamais dar a impressão de ser despreparado ou incompetente. Nesses dois exemplos citados, tanto Lula quanto Bolsonaro parecem ter encontrado essa fronteira. Demonstram humildade e autenticidade, mas passam a impressão de que sabem sobre o que estão falando.
Já lancei esse desafio uma vez e volto com ele: se você não concorda com essa tese de que os dois são ótimos oradores, suba num palanque e conquiste 60 milhões de votos. Siga pelo Instagram: @polito