Cultura

O legado do psiquiatra Içami Tiba

Conheça as características que tornaram Içami Tiba um palestrante admirado e como ele conquistou plateias em todo o Brasil

Içami Tiba, autor de 'Quem ama, educa!', impactou gerações com suas palestras e livros - Foto: Folhapress

Reinaldo Polito Publicado em 24/07/2026, às 09h18

No próximo dia 2 de agosto, completam-se 11 anos da morte de Içami Tiba, um dos psiquiatras e educadores mais admirados do país. Escreveu cerca de 40 livros, entre os quais Quem ama, educa!, sua obra mais conhecida, que ultrapassou 170 edições e dois milhões de exemplares vendidos.

Tive o prazer de conviver com ele em diversas circunstâncias. Durante os 23 anos em que presidi a ONG Via de Acesso, pude acompanhar de perto sua generosidade. Como um dos fundadores e conselheiro da instituição, participou ativamente da capacitação e da inclusão de jovens no mercado de trabalho. Estava sempre disposto a ministrar palestras à garotada.

Içami Tiba - Foto: Reinaldo Polito

 

Ensinar a aprender

Era muito querido. Certa vez, participei de um evento na cidade de Sorocaba com outros 14 palestrantes, entre eles Içami Tiba. Foi um dia inteiro de palestras promovido pelo professor Luiz Marins, em comemoração ao aniversário da fundação que levava seu nome. Cerca de mil educadores, entre diretores e professores da rede pública de ensino, estavam na plateia.

Os participantes compareceram para ouvir renomados profissionais discutirem o tema ensinar a aprender. As 15 palestras proferidas naquele dia se transformaram no livro Superdicas para ensinar a aprender, publicado pela Editora Saraiva.

Uma recepção inesquecível

À medida que chegavam ao auditório, os palestrantes eram recebidos com aplausos calorosos. Em determinado momento, entretanto, o local quase veio abaixo. Todos se levantaram e saudaram, aos gritos e com toda a força, o palestrante que acabara de entrar: Içami Tiba. Ele sorriu com seu jeito simpático e agradeceu humildemente ao público pela manifestação.

Tive também a honra de comandar um programa de entrevistas na JBN TV, emissora fechada cuja programação era voltada principalmente para a comunidade japonesa. Escolhi Içami Tiba como primeiro entrevistado. Gravamos o programa nos jardins de sua casa, em Cotia. Enquanto conversávamos, as carpas nadavam no lago à nossa frente.

Assistiu ao programa no hospital

Quando o programa foi ao ar, infelizmente Tiba estava hospitalizado. Fiz uma cópia da entrevista em DVD e a entreguei a ele no hospital. Disse que assistisse assim que voltasse para casa. Que nada. Pediu que providenciassem um aparelho para ver o programa ali mesmo. Gostou tanto que passou a mostrar a gravação a todas as pessoas que o visitavam.

Voltei a entrevistá-lo diversas vezes no UOL. Aproveitamos essas oportunidades para gravar vários episódios, todos com grande audiência. Sua fala pausada, sempre tranquila e segura, confirmava diante das câmeras as qualidades que demonstrava nos palcos.

O segredo do palestrante

Além do reconhecimento como psiquiatra, educador e escritor, Içami Tiba era muito admirado como palestrante. Por que fazia tanto sucesso diante das plateias? Como conseguia envolver e conquistar os mais diferentes públicos em todos os cantos do país?

Em geral, era convidado para desenvolver temas tratados em seus livros. Generoso, transformava em obras e palestras tudo o que havia estudado e aprendido ao longo de sua extensa experiência profissional. E era justamente esse conhecimento, traduzido para as situações do cotidiano, que as pessoas mais gostavam de ouvir.

Linguagem que todos entendiam

Um dos pontos fortes de suas apresentações era a linguagem simples e descomplicada. Os ouvintes tinham a impressão de que o orador estivera acompanhando as conversas deles dentro de casa, pois abordava assuntos que costumavam debater no dia a dia.

Para manter a atenção da plateia, contava piadas e histórias interessantes. Usava com rara habilidade a comunicação fisionômica. Em determinados momentos, conseguia ser engraçado e arrancar gargalhadas sem dizer uma única palavra, apenas com o semblante.

Não se valia de recursos visuais

Não jogava conversa fora, pois tudo o que dizia tinha relação direta com o conteúdo da palestra. Movimentava-se bastante no palco e promovia um trabalho interativo, incentivando a participação de todos.

Embora os recursos visuais já fossem frequentes nas apresentações profissionais, Tiba dispensava projeções e filmes. Sustentava a atenção dos ouvintes apenas com a palavra, a movimentação no palco, as histórias e a expressividade.

Dizia que procurava sempre aperfeiçoar o encerramento de suas palestras. Um dos recursos que mais utilizava era contar uma história relacionada ao conteúdo da apresentação, também como forma de recapitular os aspectos mais importantes que havia desenvolvido.

Tiba aplicou o que sempre pregou. Falava em amor e foi amoroso com a esposa, Natércia, com os filhos e com os amigos. Onze anos depois de sua morte, suas lições permanecem vivas. Para aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele, permanece também uma imensa saudade.

Hospital Palestrante Psiquiatra Içami tiba

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