Entenda como a acústica da Orelha de Dionísio se relaciona com as investigações contemporâneas

por Reinaldo Polito
Publicado em 04/09/2026, às 11h48
Estamos vivendo um período especialmente turbulento na política e no Judiciário. Conversas que pareciam protegidas por engenhosos artifícios tecnológicos vieram à tona a partir do trabalho da Polícia Federal. Esse tipo de investigação não é novo. O que mudou foram apenas os meios.
Visitei Siracusa, uma das cidades mais instigantes da Sicília, na Itália. Há muito o que ver por ali. Só para citar dois pontos turísticos, a Ilha de Ortigia e o Parque Arqueológico de Neápolis. Temos a impressão de voltar séculos no tempo. Mas um dos locais que mais me impressionou foi a Orelha de Dionísio (Orecchio di Dionigi). Essa denominação foi dada pelo pintor Caravaggio devido ao seu formato semelhante ao de uma orelha humana.
Reza a lenda
É uma grande caverna, com 23 metros de altura. Sua acústica permite que o som seja ampliado até 16 vezes. O que vem agora parece fruto de uma lenda, mas tem tudo a ver com os momentos vividos hoje no Brasil: gente escutando ou gravando conversa. Como dizem os italianos, se non è vero, è ben trovato — se não é verdade, é bem contado.
Dionísio, o tirano que governou Siracusa por volta de 400 a.C., era muito xereta. Teria aproveitado a caverna como prisão para ouvir os planos de guerra e de fuga dos prisioneiros. Não escapava um comentário. Tudo o que diziam era ampliado pela acústica e ouvido pelo tirano. Para uma solução de cerca de 2.400 anos, era tecnologia para ninguém botar defeito.
As paredes têm ouvidos
Pela acústica da caverna, com o ouvido atrás da porta ou debaixo da janela, ouvir conversas tem sido um hábito praticado ao longo do tempo. Há uma frase que interpreta bem esse costume: “as paredes têm ouvidos”. Existem diversas explicações para a expressão. Uma delas diz que “as paredes têm ratos, e os ratos têm ouvidos”. Outra versão atribui a Catarina de Médici o uso de dutos nas paredes do Louvre para que conversas mantidas em salas distantes pudessem ser ouvidas.
As histórias mais recentes têm a ver com o desenvolvimento da tecnologia. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu com o então ministro Rubens Ricupero. Ele imaginou que não havia ninguém ouvindo sua conversa com o jornalista Carlos Monforte, falecido recentemente, mas tudo o que disseram foi captado pelo microfone e transmitido por antena parabólica. Era um bom ministro, mas mesmo assim perdeu o cargo.
O estopim do mensalão
Essa foi por acaso. Em outras situações, entretanto, as gravações foram propositais. Um exemplo marcante foi a filmagem do recebimento de propina nos Correios. Aquelas cenas movimentaram a política brasileira de forma avassaladora. A partir daí surgiram as denúncias feitas pelo então deputado Roberto Jefferson sobre o esquema do mensalão.
E assim os episódios se sucederam. Waldomiro Diniz, que era assessor de José Dirceu, então um dos homens mais poderosos do governo, foi filmado pedindo propina e contribuições eleitorais ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. Na época, presidia a Loterj. A turma não aprendeu e continuou caindo nas armadilhas.
Planejando a fuga
Delcídio do Amaral, por exemplo, entrou numa enrascada. Bernardo Cerveró, filho do então diretor da área internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, deixou o gravador ligado enquanto combinavam uma maneira de ajudar o pai a fugir. Delcídio teve sua carreira comprometida e foi preso.
Talvez a história do Brasil tomasse outro rumo se o então presidente Michel Temer não tivesse sua conversa com Joesley Batista gravada no subsolo do Palácio do Jaburu, no dia 7 de março de 2017. Para se manter no cargo, precisou se dedicar de corpo e alma junto ao Congresso, interrompendo projetos importantes que poderiam ser votados na sua gestão.
A proteção da piscina
O receio de ser gravado foi tão grande que circularam histórias relatando que, em alguns encontros, os participantes ficavam dentro de uma piscina para evitar que alguém pudesse gravar o que estavam discutindo. Nada foi confirmado, mas a Polícia Federal encontrou fotos de eventos políticos e encontros particulares realizados dentro de piscina.
À medida que os fatos vão ocorrendo, cada vez mais as pessoas que desejam manter sigilo de seus contatos encontram formas de se prevenir. Quando pensam, entretanto, que tudo está sob controle, até com mensagens de WhatsApp de visualização única, deixam aqui e ali rastros identificáveis pela polícia.
Podemos dizer, dessa forma, que a história do nosso país teve voltas e reviravoltas por causa de gravações ocasionais ou provocadas. Assim como Dionísio esticava a orelha para ouvir conversas na sua caverna, hoje também se descobre o que muitos desejam esconder. Se isso é bom ou não, depende do ângulo em que os fatos são observados. Para uns, verdadeira tragédia. Para outros, uma oportunidade de saber o que acontece no escurinho dos gabinetes de suas excelências. Siga pelo Instagram: @polito
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