Cultura

O mundo que muda

Entender o conflito entre gerações é perceber que a mudança não é sinônimo de perda, mas uma nova forma de olhar

- Georges Seurat, A Sunday on La Grande Jatte - 1884–1886

Marlene Polito Publicado em 01/09/2026, às 10h00

Em sua coluna na Folha de S. Paulo, publicada em 17 de agosto, Luiz Felipe Pondé traz uma citação no mínimo instigante:

“Os dias de hoje são a época da mediocridade e da insensibilidade, da paixão pela ignorância, pela preguiça, pela incapacidade de agir e pela necessidade de ter tudo pronto. Ninguém faz uma reflexão; seria raro alguém suportar uma ideia.”

À primeira vista, nada nela parece surpreender. Ao contrário: suas palavras soam perfeitamente ajustadas ao nosso tempo, como se tivessem sido escritas para descrever os dias que vivemos.

Há, porém, um detalhe que muda a perspectiva: a passagem foi escrita em 1875. Ela aparece em O Adolescente, de Fiódor Dostoiévski, na fala de Kraft.

A provocação de Pondé deixa uma pergunta no ar. Quando essa ideia atravessa quase um século e meio e chega aos nossos dias com tamanha atualidade, talvez valha a pena deter-se menos naquilo que ela afirma sobre o presente e mais naquilo que revela sobre a maneira como cada geração enxerga a que vem depois.

Talvez o mais curioso seja perceber que essa queixa não é nova. Em diferentes épocas, uma geração parece olhar para a seguinte e enxergar nela sinais de decadência, como se o mundo estivesse perdendo alguma coisa que antes lhe parecia essencial. Mas por que, em épocas tão diferentes, a geração que chega parece despertar a mesma desconfiança em quem a observa?

Vale, então, deslocar o olhar. A literatura e o cinema nos permitem fazer isso de maneiras distintas: atravessar o tempo, reconhecer permanências sob a aparência da novidade e observar o instante em que um mundo cede lugar a outro. É por essas distintas lentes que podemos perguntar não apenas o que efetivamente mudou, mas também o que muda em nós quando deixamos de ser a geração que chega e passamos a ser aquela que observa a próxima chegar.

E a literatura parece um bom lugar para começar.

Não porque os escritores tenham respostas definitivas sobre as gerações, mas porque a literatura nos permite ouvir, em suas próprias palavras, pessoas de outros tempos falando sobre o mundo que lhes coube viver. Às vezes, essa distância histórica produz um efeito curioso: aquilo que imaginávamos ser uma característica de nosso tempo reaparece diante de nós em uma época que julgávamos muito distante.

É o que acontece com Kraft, personagem de Dostoiévski. Em 1875, ele observa seu próprio tempo e enxerga mediocridade, preguiça, ignorância e uma dificuldade de reflexão que lhe parece generalizada. A semelhança com algumas de nossas queixas atuais é desconcertante. Mas talvez o mais interessante não seja simplesmente constatar que “já era assim”. É perguntar por que essa percepção retorna.

As gerações, afinal, não são iguais. Tampouco são iguais os mundos em que vivem. Mudam os costumes, as tecnologias, os valores, as formas de trabalho e de convivência. O que pode se repetir é algo mais sutil: o lugar de onde uma geração olha para a que vem depois.

É justamente essa tensão entre mudança e permanência que atravessa O Leopardo, romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa levado ao cinema por Luchino Visconti.

Na Sicília do século XIX, uma ordem social chega ao fim enquanto outra começa a ocupar seu lugar. Don Fabrizio, príncipe de Salina, percebe a transformação ao seu redor com uma lucidez que não o impede de sofrer com ela. Seu jovem sobrinho Tancredi procura encontrar seu lugar no mundo que está nascendo. É nesse contexto que pronuncia a célebre frase: “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.”

A frase pode nos interessar aqui por uma razão simples: mudança e permanência não são necessariamente opostos. O mundo muda, as gerações se sucedem, mas nem sempre muda a maneira como experimentamos essa passagem.

É justamente aí que o conflito entre gerações se torna mais complexo do que parece: não se trata de provar que nada mudou, mas de perguntar o que há, em nosso próprio olhar, na maneira como interpretamos aquilo que se altera.

Em algum momento, quase sem perceber, mudamos de posição: deixamos de ser aqueles que chegam e passamos a ser aqueles que observam a chegada. O mundo continua, mas já não somos nós que ocupamos o centro de sua transformação.

O novo não precisa ser pior para que sua chegada seja percebida como uma perda. Talvez seja essa uma das razões pelas quais o conflito entre gerações seja tão persistente: não se trata apenas de diferenças de valores ou costumes, mas também da experiência de ver referências conhecidas se transformarem diante de nós.

E talvez seja essa a pequena armadilha escondida na frase de Dostoiévski. Ao lê-la hoje, reconhecemos imediatamente o nosso tempo. Mas, ao descobrir que ela foi escrita em 1875, somos obrigados a perguntar se estamos diante de uma descrição do presente ou diante de algo mais antigo: a tendência de cada geração a olhar para a seguinte e enxergar, naquilo que não reconhece, os sinais de uma perda.

O que muda, afinal, talvez não seja apenas o mundo diante de nós. Muda também o lugar de onde o contemplamos. Um dia somos os jovens que chegam; mais tarde, somos aqueles que observam a chegada dos outros.

Ver o mundo continuar sem nós no centro dele pode ser doloroso. Mas talvez também seja uma das formas mais profundas de compreender que o mundo nunca pertenceu inteiramente a uma geração.

cinema Reflexão conflito Literatura Mudança Ignorância Preguiça

Leia também