Descubra como a escultura O Eterno Ídolo de Rodin reflete a complexidade do amor e suas diversas facetas; Platão e Aristóteles exploram o amor, enquanto Rodin captura sua essência em O Eterno Ídolo
Marlene Polito Publicado em 25/08/2026, às 09h59
Um homem está ajoelhado diante de uma mulher. Inclina-se sobre ela, encosta o rosto em seu corpo e parece esquecer tudo o que existe ao redor. A mulher permanece quase imóvel. Auguste Rodin chamou a escultura de O eterno ídolo.
É uma cena de amor? De desejo? De adoração? Talvez seja tudo isso ao mesmo tempo. A posição dos corpos sugere entrega e intensidade. Mas o que, afinal, une aquelas duas figuras? Rodin não oferece resposta. Apenas deixa diante de nós uma imagem que parece resistir a uma definição única.
Talvez o amor simplesmente não caiba inteiro em uma definição. Há o amor que deseja, sente falta, cuida, espera, admira e se entrega. Há também aquele que se mistura ao ciúme, à exclusividade e ao desejo de posse. E há o amor que reconhece no outro o direito de continuar sendo quem é.
Filósofos, poetas e artistas tentam há séculos compreender essas diferentes faces do amor. As respostas mudaram, assim como mudaram as relações entre as pessoas. A palavra permaneceu. O que colocamos dentro dela, nem sempre.
Platão foi um dos que procuraram desvendar esse mistério. Em O Banquete, o amor aparece ligado ao desejo e à falta. Desejamos o que não temos, o que nos atrai e nos põe em movimento. Mas o amor não se encerra aí. Pela voz de Diotima, Platão o apresenta também como um caminho de elevação: parte da atração por um corpo belo, passa pela beleza das almas e do conhecimento, até alcançar a contemplação do Belo em si. Amar seria, assim, também uma forma de busca.
Aristóteles segue por outro caminho. Ao refletir sobre a philia, um vínculo afetivo mais amplo que a amizade no sentido atual, valoriza a reciprocidade e o desejo de bem ao outro por aquilo que ele é. Distingue os laços que nascem do benefício encontrado no outro, do prazer da convivência ou da admiração por seu caráter, estes os mais elevados e duradouros. Surge aí uma forma de amar menos arrebatada, talvez, mas construída na convivência, no cuidado e no desejo de que o outro também encontre a sua própria felicidade.
Nietzsche, muitos séculos depois, introduz uma provocação. Em A Gaia Ciência, chama a atenção para aquilo que pode se esconder no amor: desejo de exclusividade e até a pretensão de exercer poder sobre o outro. A reflexão incomoda porque toca numa fronteira que nem sempre percebemos: em que momento querer alguém por perto começa a se transformar em querer que esse alguém seja nosso?
Se os filósofos tentaram nomear o amor, a arte preferiu colocá-lo em cena. Na literatura, o amor pode ser espera, como em Penélope; paixão que desafia o mundo, como em Romeu e Julieta; ou desejo levado às últimas consequências, como em tantas histórias de perda.
No cinema, ganhou outras nuances. Em Casablanca, amar pode significar abrir mão. Rick e Ilsa não permanecem juntos, e nessa renúncia o sentimento encontra uma de suas expressões mais conhecidas. A história contraria uma ideia muito arraigada: a de que todo grande amor precisa terminar em união.
Nem sempre, porém, a arte ofereceu ao amor contornos tão nítidos. A relação entre Frida Kahlo e Diego Rivera foi atravessada por paixão, separações, reencontros e sofrimento. Em Diego y yo, Frida pintou o rosto de Diego no centro da própria testa, como se ele ocupasse também seus pensamentos. As lágrimas que descem pelo seu rosto tornam ainda mais difícil separar amor, dor e permanência.
A música levou ainda mais longe essa multiplicidade. Cantamos o amor que promete durar para sempre, o que implora para que alguém fique, o que sobrevive na saudade e até aquele que já terminou, mas continua ecoando. Em Eu sei que vou te amar, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, o amor se apresenta quase como destino, projetado para além do instante e das incertezas de quem ama.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais continuamos voltando às canções, aos poemas e às imagens quando tentamos falar de amor. A arte não precisa resolver suas contradições. Pode simplesmente deixá-las coexistir.
Talvez Cummings soubesse que algumas coisas perdem parte do encanto quando são explicadas demais. Ele próprio chamou o amor de “mistério dos mistérios” e associou a felicidade à capacidade humana de transcender a si mesmo. Em i carry your heart with me, essa transcendência parece ganhar forma poética: o outro permanece outro, mas passa também a habitar intimamente aquele que ama.
À medida que o poema avança, essa união se amplia. Surgem imagens de raiz, árvore, céu, estrelas. O sentimento deixa de pertencer apenas a duas pessoas e parece alcançar a própria maneira de perceber o mundo. Cummings não procura encerrar o amor em uma explicação. Ao contrário, deixa que ele permaneça como mistério.
Voltamos, assim, aos dois corpos de O eterno ídolo. Amor, desejo, adoração? Depois de filósofos, artistas, poemas e canções, talvez continuemos diante da mesma pergunta. E talvez esteja justamente aí parte do encanto: o amor muda de forma, atravessa o tempo e insiste em não caber inteiro em uma definição.