Cultura

Um convite para você conhecer parte do meu acervo de livros raros

Explorando a coleção de livros antigos de oratória em português e suas histórias fascinantes

Como a paixão por livros antigos moldou uma coleção única focada em oratória e retórica - Parte do acervo. Arquivo pessoal

Reinaldo Polito Publicado em 27/03/2026, às 11h10

Os livros raros constituem uma das minhas maiores paixões. Nem todos são propriamente raros, mas sim antigos. Decidi colecionar “livros antigos de oratória em português”. Por que tantas especificidades? Porque coleções abrangentes demais, sem delimitações, podem ser frustrantes.

Por exemplo, se eu decidisse colecionar “livros de oratória”, as possibilidades seriam tão amplas que, provavelmente, se tornariam desencorajadoras. Ainda que a linha de corte fosse a de buscar “livros antigos de oratória”. Dá para imaginar em quantas línguas essas obras foram editadas. Seria uma procura sem fim.

Convidados especiais

Por isso, embora tenha alguns livros em outras línguas, a minha concentração para efeito da coleção se restringe a livros de oratória, publicados em português antes de 1950. Abro uma ou outra exceção, pois, de vez em quando, surgem livros datados de 1951, 1952, que são verdadeiras relíquias. São casos em que abro as portas para que possam participar.

Assim como trouxe para o acervo dois livros publicados em espanhol: “Sermones para las festividades de Christo nuestro”, devido à idade, de 1638; e “Compendio de las lecciones sobre la retórica y bellas letras”, de Hugo Blair, de 1815. Este, por sua importância na oratória, já que praticamente todos os autores relevantes fazem referência a ele. Foi um dos grandes nomes da retórica no século XVIII, leitura obrigatória para gerações de estudiosos.

Rápido tour

Essa obra de Blair deu trabalho. Procurei por ela por mais de 40 anos. Encontrei em um livreiro espanhol. Para que chegasse às minhas mãos, pedi ajuda a uma amiga, Margot Cardoso, que mora em Portugal. O livro fez esse trajeto de Madri até Lisboa e depois para São Paulo. Por sinal, Lisboa e Porto foram duas cidades onde sempre consegui exemplares preciosos.

Vou começar o nosso tour literário por uma publicação valorosa, “Arte Rhetorica, que ensina a falar, escrever e orar”, de autoria do Doutor Manoel Pacheco de Sampayo Valladares, publicado em Lisboa no ano de 1750. Todas as pessoas que me dão o prazer de visitar o acervo param nessa obra, folheiam vagarosamente suas páginas e suspiram de admiração.

Foto: Arquivo Pessoal

 

Outra que ocupa espaço especial na estante é “Mechanica das palavras em ordem A’Harmonia do discurso eloquente, tanto em prosa como em verso”, de autoria de Antonio Neves Pereira, publicado em Lisboa no ano de 1788. Está tão bem preservada que parece recém-saída da gráfica.

Foto: Arquivo Pessoal

 

Uma coleção dentro da coleção

Há dois volumes dos sermões do Padre Manuel Bernardes, publicados respectivamente em 1711 e 1762. A encadernação é uma verdadeira obra de arte. Ao mostrar os livros, nem preciso chamar a atenção para esses dois. Os visitantes, como se atraídos por ímãs, voltam os olhos naturalmente para eles e perguntam, quase em tom de reverência, se podem tocá-los.

Há um livro que tem uma história bastante curiosa: “Lições elementares de eloquência nacional”, de Francisco Freire de Carvalho. Essa obra serviu de estudo durante décadas nas escolas brasileiras, especialmente no tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Descobri que a primeira edição era de 1834 e a última, 8ª, de 1880. Resolvi arregaçar as mangas e sair no encalço de todas elas.

Faltavam duas edições

Foram mais de 40 anos de buscas insistentes. Depois de muito garimpar nos sebos do Brasil e de Portugal, consegui quase todas. Só me faltavam a 7ª, cuja data eu não conhecia, e a 4ª, de 1850. Os meus amigos alfarrabistas portugueses me diziam que a 4ª existia, pois representava um marco no estudo da literatura, mas a 7ª não, já que não havia referência sobre ela em nenhuma bibliografia. Chegaram a pensar que houvera algum equívoco, com a editora pulando da 6ª para a 8ª.

Certo dia, vi anunciada em uma página de um tradicional sebo de São Paulo a 7ª edição, de 1878. Pensei que poderia ser um engano, já que Freire de Carvalho havia publicado outro livro, “Lições elementares de poética nacional”, mais ou menos na mesma época. Imaginei que talvez tivessem posto “eloquência” no lugar de “poética”. Resolvi não arriscar e, mesmo com a dúvida, comprei.

Pertenceu ao meu amigo Silveira Bueno

Dois dias depois, vi em cima da minha escrivaninha o pacote do sebo. Abri com cuidado e muita ansiedade. Era mesmo a edição que procurava. O mais surpreendente foi que no frontispício estava a assinatura do professor Silveira Bueno, amigo com quem convivi por muitos anos até a sua morte. Como frequentei muito a sua casa, devo ter esbarrado no exemplar sem me dar conta. Alguns meses depois, encontrei em uma casa de antiguidades em Santa Catarina outra 7ª edição, só que de 1870. Fiquei sabendo, então, que a de 1878 era uma segunda tiragem.

Faltava ainda a 4ª edição. Encontrei exemplares em diversas bibliotecas, mas nenhuma que se dispusesse a vender. Nunca desisti. Sabia que um dia o livro cairia em minhas mãos. Anos mais tarde, para minha enorme surpresa, a edição apareceu em um pequeno sebo. Essa parte da minha coleção estava completa. Dois filhos meus manifestaram desejo de ficar com os livros.

Velhos e sábios companheiros

Enquanto eu procurava as edições faltantes, fui encontrando outras repetidas. Hoje tenho os dois conjuntos, só faltando no segundo a 4ª edição. Uma hora qualquer ela vai surgir. Se não comigo, eles poderão continuar as buscas. Espero que tenham o mesmo prazer que eu. Em certos momentos, a alegria de procurar é tão grande quanto a de encontrar.

Hoje são centenas de títulos, todos muito bem encadernados. Em certos casos, ficou mais cara a encadernação do que o próprio livro. Passo madrugadas afora lendo, estudando e pesquisando nessas obras. Já me serviram como fonte de consulta para muitos dos 39 livros que publiquei sobre esse tema. São meus companheiros. Velhos companheiros. Velhos e sábios companheiros.

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