Reflexões sobre a busca por sonhos e a coragem de enfrentar desafios, mesmo quando o sucesso parece distante

por Reinaldo Polito
Publicado em 20/03/2026, às 11h42
Quase todo mundo já alimentou um sonho que parecia alto demais para a própria estatura. Ser jogador de futebol, cantor, escritor, piloto, bailarina. Alguns realizam essas fantasias. Outros chegam perto. E muitos desistem antes mesmo de tentar. Mas o que pesa mais: fracassar ou viver com a dúvida? Como disse o Talmude: “Todo sonho tem algo de profético”.
Ao longo da vida, persegui várias vontades. Nem todas se realizaram, mas quase todas deixaram alguma marca. No futebol, por exemplo, não fui brilhante, mas consegui ser campeão amador em Araraquara, minha cidade natal. No atletismo, compensei limitações com treino e disciplina. O sol nunca me encontrava dormindo. Ao alvorecer, já estava correndo na pista. Anos depois, ao visitar o Tiro de Guerra, pedi para ver a sala de troféus. Lá estava, meio século depois, o prêmio que havia conquistado no salto triplo. Foi como reencontrar um pedaço da juventude.
Livros nas listas dos mais vendidos
Também no trabalho aprendi cedo o valor da insistência. Como vendedor, quando os outros já tinham parado, eu fazia mais algumas visitas. Muitas vezes, à noite. Essas tentativas extras acabavam rendendo medalhas e resultados. Mais tarde, tive outro sonho realizado: ver seis dos meus livros nas listas dos mais vendidos. Nesse caso, além do esforço, contei com a ajuda das circunstâncias e de uma boa dose de sorte.
Mas há metas que esbarram em limites evidentes. Gostava de basquete, por exemplo, mas minha estatura não ajudava. O mesmo acontecia com outros esportes para os quais eu simplesmente não tinha o perfil. Nem sempre a obstinação vence a realidade.
A banda do Colégio São Bento
Houve, entretanto, uma tentativa frustrada de que me lembro
com especial carinho. Na adolescência, eu sonhava entrar para a banda do Colégio São Bento, em Araraquara. Era um grupo admirado por todos. Os rapazes que tocavam ali eram vistos como celebridades locais. O problema é que eu não tocava absolutamente nada.
Mesmo assim, fui falar com o maestro Ariosto e pedi uma chance. Ele perguntou o que eu sabia tocar. Meu silêncio disse tudo. Talvez divertido com minha cara de pau, resolveu me ajudar: eu tocaria pratos. Parecia simples. Bastaria observar Aristides, o melhor tocador da banda, e imitá-lo nos ensaios. Aceitei na hora, radiante.
Seguia atento a todos os gestos
Nos primeiros dias, descobri que a função não era tão fácil assim. Eu ficava ao lado do colega, olhando cada gesto, tentando repetir seus movimentos no tempo certo. Errava aqui e ali, mas achava que estava evoluindo. Até que, menos de dez dias depois, surgiu a estreia: a inauguração de um importante viaduto da cidade, diante de autoridades e uma multidão.
Redobrei a minha atenção. Meu plano era não errar. Segui exatamente os movimentos de Aristides, que caminhava ao meu lado. Durante a apresentação, ele levantou o braço. Eu, disciplinado, levantei o meu e bati os pratos com toda a força. Só então percebi a tragédia: ele não havia levantado o braço para tocar. Apenas queria coçar a cabeça.
Só o maestro não achou graça
O estrondo que produzi atrapalhou a execução da música e foi seguido por gargalhadas generalizadas. Riram os colegas, as autoridades, os convidados. Se alguém não achou graça, foi o maestro. E ali terminava, de maneira melancólica e ruidosa, literalmente, a minha curtíssima carreira musical. A cena foi um fracasso. Ainda assim, foi uma tentativa. Até hoje sinto orgulho de ter enfrentado aquele desafio.
Nem todos os sonhos se realizam. Alguns dependem de fatores que fogem ao nosso controle. Outros esbarram em limitações reais. Mesmo assim, há algo valioso no ato de tentar. É no caminho que descobrimos do que somos capazes, até onde vai nossa disposição e quanta força pode surgir quando nos dedicamos de verdade a uma meta.
Mário Quintana resumiu essa ideia ao falar das utopias e das estrelas distantes. Talvez o sonho não se cumpra exatamente como imaginamos. Pode ser até que termine em tropeço. Ainda assim, ele pode nos empurrar para diante, nos ensinar, nos amadurecer e até render uma boa história. Se der certo, melhor ainda. Se não der, pelo menos não ficará a dúvida. E, às vezes, isso já vale o esforço. Siga pelo Instagram: @polito

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