Cultura

Cristo ensaiou o Sermão da Montanha e ficou nervoso antes de se apresentar?

Analisamos a preparação de Jesus para o Sermão da Montanha e como a série The Chosen retrata esse momento histórico

A série The Chosen oferece uma nova perspectiva sobre a vida de Jesus - Imagem: Divulgação
A série The Chosen oferece uma nova perspectiva sobre a vida de Jesus - Imagem: Divulgação

Redação Publicado em 29/05/2026, às 13h31


Cristo foi o maior orador de todos os tempos. Se não por outros motivos, pelo fato de até hoje, mais de dois mil anos depois, as suas palavras serem discutidas como se tivessem sido proferidas recentemente. O Sermão da Montanha é a sua obra oratória mais conhecida e repetida ao longo dos séculos.

Não há provas que esclareçam como esse discurso foi idealizado. Também não são conhecidos os detalhes desse evento tão importante. Mas, com base nas experiências atuais, talvez seja possível deduzir como os fatos se sucederam para que tudo ocorresse de forma correta, sem deslizes.

Próximo da nossa realidade

A série The Chosen pode nos ajudar a refletir a respeito dessas questões. Embora seja uma narrativa dramática sobre a vida de Jesus, procura fugir dos relatos bíblicos para analisar como foi o cotidiano daqueles que estiveram ao seu lado. Descreve os desejos, receios e dificuldades dos cobradores de impostos, pescadores e pessoas que estavam à margem da sociedade.

No episódio 8 da 2ª temporada, os roteiristas procuram retratar os detalhes de como teriam sido os momentos que antecederam o Sermão da Montanha. Apoiaram-se em pesquisas históricas e desenvolveram uma interessante reconstrução dramática. Para isso, usaram também a imaginação e a criatividade, como se o evento ocorresse a partir da nossa realidade.

A insegurança de Cristo

A série mostra Jesus preocupado com os pormenores do sermão, pensando com Mateus qual deveria ser a melhor introdução e quais as bem-aventuranças que provocariam maior impacto na população, de tal forma que seu objetivo de provocar uma revolução pudesse ser atingido. Houve um instante, pouco antes de se apresentar, em que Cristo parece inseguro sobre como se sairia diante da multidão.

Para um evento daquela magnitude houve preocupação com a escolha do local. Não apenas para que coubessem milhares de pessoas, mas também com a logística adequada para que todos pudessem ser bem atendidos e se locomovessem com tranquilidade para chegar e sair da apresentação.

Humilde para receber sugestões

Na visão dos idealizadores da série, a exemplo do que ocorreria hoje com um palestrante importante, Jesus revisa criteriosamente cada passagem do sermão e ensaia de ponta a ponta para que nada seja esquecido. Houve cuidado também com a mensagem de abertura, para conquistar os ouvintes já nas primeiras palavras, e com a conclusão, para que atingisse a mente e o coração de todos.

Esse lado humano de Jesus não poderia deixar de considerar a ajuda de Mateus para a organização das ideias, de maneira lógica e concatenada. O Messias se mostra humilde ao receber as sugestões do discípulo.

Plenamente humano e plenamente divino

A ideia central dos roteiristas parece ter sido esta: se Jesus era plenamente humano e plenamente divino, como ensina a tradição cristã, como teria sido o processo humano de preparação para um dos discursos mais famosos da história? Mesmo existindo essa preocupação da série em preencher os espaços não contemplados pela Bíblia, há verossimilhança.

Por exemplo, próximo à área em que Jesus proferiu o sermão, nas imediações do mar da Galileia, há encostas naturais com excelente acústica. É uma região que permite que a voz seja ouvida com facilidade por centenas de pessoas. Quem visita o local percebe imediatamente como essas formações naturais favorecem a propagação da voz. Não é difícil imaginar por que aquele ambiente seria adequado para uma apresentação dirigida a milhares de pessoas.

A roupa

A escolha da túnica azul, decidida por um grupo de mulheres que fizeram votação entre diversas cores, deve ter obedecido a motivos estéticos para as filmagens e à forma como Jesus seria visto na tela, mas mostra ao mesmo tempo como a roupa é importante para o sucesso do orador.

Se alguém deseja aprimorar a comunicação, essas cenas podem servir como boas aulas para o desenvolvimento da oratória. Os cuidados mostrados na série, preparação, revisão e ensaio, continuam fazendo parte da rotina dos bons comunicadores.

Conceitos perenes

Portanto, a oratória e todas as circunstâncias que a envolvem, como resistência da plateia, preocupação com a presença dos ouvintes, os cuidados com o som e a atenção com a sequência das ideias para que o interesse do público seja mantido durante todo o tempo, não se alteraram ao longo desses dois mil anos.

Na verdade, antes até. Se observarmos o que Aristóteles ensina na Arte retórica, escrita há 2.400 anos, veremos conceitos que, com pequenas adaptações, podem ser aplicados em praticamente todas as situações.

Dessa forma, estudar como Cristo se tornou o mais importante orador de todos os tempos pode ser um bom caminho para quem deseja aprender e aprimorar sua comunicação.