A filosofia e a astronomia se encontram na busca por respostas sobre o que está escrito nas estrelas

por Marlene Polito
Publicado em 29/09/2026, às 09h00
“Somos feitos de matéria estelar.”
A afirmação parece ter saído de um poema, mas possui fundamento científico. Carbono, oxigênio, cálcio e ferro de nosso corpo foram produzidos em estrelas muito antes que a Terra existisse.
Carl Sagan deu a essa realidade da astrofísica uma imagem célebre, popularizada por Cosmos, série televisiva de 1980, que aproximou poeticamente o ser humano da imensidão do universo.
Esse parentesco cósmico, porém, só seria compreendido muito mais tarde. Antes disso, já buscávamos nas estrelas outro vínculo.
Olhávamos para o céu e tentávamos lê-lo.
Pontos luminosos separados por distâncias inimagináveis tornaram-se Órion, a Ursa Maior, o Escorpião, Andrômeda. O céu deixou de ser apenas céu. Tornou-se narrativa, orientação, presságio.
Em diferentes culturas antigas, o céu serviu também como fonte de sinais e significados. Na Mesopotâmia, essa leitura ganhou forma especialmente sistemática. Um eclipse podia anunciar perigo a um rei; os movimentos de Vênus, acontecimentos favoráveis ou adversos. Se o céu podia revelar acontecimentos ainda invisíveis, talvez também pudesse antecipar algo do destino humano.
Séculos depois, a imagem reaparece em outro contexto. Segundo o Evangelho de Mateus, magos viram numa estrela o sinal do nascimento de Jesus. A narrativa preserva a ideia de um céu capaz de anunciar o que ainda estava por vir.
Do presságio à pergunta sobre o destino, a distância era pequena: quanto de nossa vida depende de nós e quanto já estaria decidido antes de nascermos?
A partir daí, a questão já não precisava das estrelas para continuar viva. Os estoicos concebiam um universo regido por uma ordem racional de causas encadeadas. Os epicuristas admitiam uma brecha na necessidade absoluta: o clinamen, pequeno desvio imprevisível no movimento dos átomos. Se nem tudo na natureza estava determinado de antemão, abria-se espaço para pensar a liberdade humana.
As causas de Spinoza
Séculos depois, Spinoza radicalizaria a questão ao defender que nada acontece sem causa e que até nossas escolhas decorrem de causas que, em grande parte, ignoramos.
São apenas três entre tantos caminhos da filosofia diante da mesma inquietação. As respostas mudaram; a pergunta insistiu em permanecer.
Mesmo que nada esteja determinado pelas estrelas, continuamos entre o acaso e a determinação. E talvez seja nesse espaço incerto que projetemos nelas nosso desejo de encontrar uma resposta.
Enquanto a filosofia continuava a interrogar o destino, a astronomia transformava nossa compreensão do céu. As estrelas revelaram uma história própria: nascem, transformam matéria, envelhecem e morrem. Algumas espalham elementos que, muito depois, poderão integrar novas estrelas, planetas e a matéria dos seres vivos.
A astronomia retirou das estrelas o papel de oráculo. Não lhes retirou o poder de nos devolver ao assombro.
O que poderá acontecer?
O conhecimento não eliminou o antigo impulso de procurar sentido no céu. A astrologia não é ciência, mas permanece como sistema simbólico. Ainda consultamos horóscopos, traçamos mapas astrais e buscamos nos signos e movimentos planetários algo de nós ou do que poderá acontecer. Talvez isso diga menos sobre as estrelas do que sobre nós.
A arte estabeleceu com esse mesmo céu outra relação.
Em A Fuga para o Egito, de 1609, Adam Elsheimer colocou a cena bíblica sob um firmamento cuidadosamente observado. A Lua, as estrelas e a Via Láctea não são apenas cenário. É como se naquele céu ainda coubessem, lado a lado, o mistério que procuramos interpretar e o universo que começávamos a observar de outra maneira.

Séculos depois, em Several Circles, de 1926, Wassily Kandinsky seguiria por outro caminho. Círculos de diferentes dimensões parecem flutuar sobre um fundo escuro, sugerindo astros, órbitas e constelações imaginárias. O céu já não precisa ser observado nem decifrado. Pode ser recriado como espaço interior, onde a imaginação constrói seu próprio cosmos.

A ciência procura compreender as estrelas. A arte revela o que somos capazes de colocar nelas.
E continuamos colocando muito.
Amores que “tinham de acontecer”, encontros que “estavam marcados”, coincidências significativas demais para serem apenas coincidências. Ainda recorremos a destino, sorte, acaso e providência para organizar aquilo que não compreendemos inteiramente.
Os algoritmos
E não buscamos apenas sentido para o que aconteceu. Também tentamos antecipar o que virá. Durante milênios, procuramos sinais nas estrelas. Hoje, algoritmos procuram padrões em nossos hábitos, escolhas e comportamentos para estimar o que provavelmente desejaremos ou faremos.
Não leem estrelas. Leem dados.
A antiga inquietação diante do futuro permanece. Talvez porque nem sempre seja fácil conviver com o acaso. Se nada estava previsto, sentimos com mais força o peso de nossas escolhas. Se tudo poderia ter sido diferente, precisamos aceitar que boa parte da vida não vem acompanhada de uma explicação.
Não sabemos se algo está realmente escrito nas estrelas. Ainda assim, continuamos a olhá-las como se fossem capazes de responder às nossas perguntas.
Talvez o maior mistério não seja saber se nosso destino está escrito nas estrelas, mas por que desejamos tanto que esteja.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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