O gesto que não chega a existir

por Marlene Polito
Publicado em 14/04/2026, às 10h33
Antes do gesto
A mão se ergue diante da porta. Para, antes de bater. Por um instante, tudo se organiza para o gesto. O corpo se inclina, o impulso se forma, o movimento se anuncia.
Mas não se cumpre. E, ainda assim, não desaparece.
No cotidiano, esses momentos passam quase invisíveis. O telefone que se pega… e se devolve. A mensagem escrita… e apagada. O nome que chega à boca… e não é dito.
Nada aconteceu. Mas algo esteve prestes a ser.
E isso basta..
Entre intenção e ato
Desde Aristóteles, sabemos que nem tudo precisa se atualizar em ato para existir plenamente. Há o que permanece em potência. Não como falta, mas como possibilidade.
Entre a intenção e o gesto existe um intervalo. Não é um vazio. É um espaço de deliberação e escolha.
É ali que a ação se forma. Ou se interrompe.
O gesto que não se cumpre nasce exatamente nesse ponto. Não é ausência de ação, mas ação que não se concluiu. E, por não se concluir, não se encerra. Permanece em aberto.
Esse intervalo não é neutro.
Na reflexão ética, não agir também tem peso. A responsabilidade não se limita ao que fazemos. Alcança o que deixamos de fazer.
Entre avançar e recuar, entre dizer e silenciar, há sempre uma escolha.
E é nesse instante, aparentemente mínimo, que a vida se decide.

O valor do ‘não fazer’
O “quase” não deve ser confundido apenas com hesitação. Ele pode ser também liberdade. Porque nem todo recuo é fraqueza, assim como nem todo avanço é decisão.
Há momentos em que não realizar é a única forma de não se deixar determinar completamente pelo impulso, pela pressão ou pela circunstância.
O gesto interrompido, nesses casos, não indica ausência de força, mas consciência.
Ele suspende o automatismo. Cria um intervalo.
E, nesse intervalo, o possível permanece em aberto.
Essa ideia, presente na tradição ocidental como problema ético – porque envolve escolha, responsabilidade e as consequências de agir ou não agir – ganha outro contorno quando olhamos para o pensamento oriental.
Em Lao Tsé, filósofo associado ao taoismo, o não agir não é passividade. É um modo de agir que não se impõe.
Nem toda ação precisa se afirmar como intervenção direta. Há momentos em que não agir é permitir que algo se realize por si.
Um pai que, diante da dificuldade do filho, contém o impulso de intervir imediatamente.
Um professor que sustenta o silêncio por alguns segundos, em vez de responder.
Nesses casos, o gesto interrompido não é omissão. É escolha. Não agir, aqui, não significa abandonar. Significa confiar no tempo, no processo, no outro.
O que não se completa permanece
Essa abertura, porém, não é tranquila. E é nesse ponto que o “quase” se transforma. Deixa de ser apenas recuo e passa a ser forma de presença. Uma escolha que se mantém, mesmo sem se realizar.
O que não se completa não repousa. A mente retorna, reorganiza, tenta concluir. Busca um fechamento que não veio. O que fica em aberto não se encerra.
E, por isso, permanece. E é justamente por isso que certos instantes mínimos persistem. Não pela intensidade, mas pela incompletude.
Não é apenas o que vivemos que nos acompanha ao longo do tempo. Há também o que ficou por fazer.
A conversa que não começou. O gesto que não avançou. A decisão que ficou à beira.
Nada dramático. Mas, em algum ponto, uma versão possível de nós mesmos ficou ali. Em suspenso.
E, quando esse estado se prolonga, deixa de ser apenas experiência. Não se dissolve. Acumula-se em nós.
E o que se acumula, inquieta.
O inacabado como linguagem
Essa mesma tensão atravessa as artes.
Na escultura de Auguste Rodin, o corpo avança mesmo incompleto.
O gesto persiste, apesar da ausência.

Em certos estudos de bailarinas de Edgar Degas, como em Danseuse ajustant son Chausson, o movimento parece prestes a começar, mas permanece suspenso.

E, nas imagens de Banksy, como em Love Is in the Air, o gesto se desvia.
A ação esperada não se cumpre, e é nesse desvio que surge o sentido.

O Lançador de Flores | Banksy | Britannica
Também nós avançamos assim, em meio a tensões, interrupções, contradições. O que não se realiza de imediato não está perdido. Está em processo.
A arte parece compreender o que a vida apenas pressente: o inacabado não é falha. É linguagem. O que não se resolve permanece. E, ao permanecer, convoca.
Talvez por isso o gesto interrompido nos toque tanto. Ele não pertence ao passado. Porque não terminou. Nem ao presente. Porque não acontece.
Fica nesse intervalo instável em que ainda é possível.
Há gestos que realizamos e se encerram.
E há outros que não fizemos e continuam.
Silenciosamente.
Em algum lugar dentro de nós.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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