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Mortes no trânsito crescem 50% na Baixada Santista e Mongaguá registra alta de 500%

Dados revelam salto de 22 para 33 óbitos em um ano; atropelamentos fatais de idosos e fuga de motoristas revelam a insegurança para os pedestres

Dados do Infosiga revelam um aumento preocupante de mortes no trânsito na Baixada Santista, com 33 óbitos em janeiro de 2026 - Foto: Reprodução
Dados do Infosiga revelam um aumento preocupante de mortes no trânsito na Baixada Santista, com 33 óbitos em janeiro de 2026 - Foto: Reprodução

Redação Publicado em 03/03/2026, às 08h53


A Baixada Santista iniciou o ano de 2026 com uma estatística alarmante que acende o sinal vermelho para as autoridades de segurança viária. De acordo com os dados mais recentes do Infosiga, sistema do Governo do Estado de São Paulo, a região contabilizou 33 mortes em acidentes de trânsito apenas no mês de janeiro. O número representa um acréscimo de 50% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registradas 22 mortes. O cenário é especialmente crítico em cidades como Mongaguá, onde o crescimento foi de impressionantes 500% (passando de uma para seis mortes), e Guarujá, onde os óbitos dobraram, saltando de três para seis ocorrências fatais.

O recorte dos dados revela uma faceta cruel da imprudência: a vulnerabilidade extrema dos pedestres, em especial os idosos. Em um curto intervalo de 15 dias, três atropelamentos fatais envolvendo pessoas acima de 60 anos chocaram os moradores de Santos, São Vicente e Praia Grande. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na Avenida Conselheiro Nébias, em Santos, onde um idoso de 89 anos perdeu a vida após ser atingido por um motociclista que fugiu sem prestar socorro. Essa conduta de omissão também foi registrada em Praia Grande, evidenciando um padrão de desrespeito à vida que vai além da falha mecânica ou sinalização deficiente.

"Crise da mobilidade rodoviarista"

O aumento das mortes ocorre após um ano de 2025 que já havia terminado em patamares elevados, com 285 óbitos totais na região. Para Diogo Damasio, pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles, o problema não é conjuntural, mas sim uma crise estrutural da mobilidade rodoviarista. Segundo o especialista, as cidades da Baixada Santista são geograficamente vocacionadas para o deslocamento a pé ou por bicicleta, mas a infraestrutura urbana continua priorizando o transporte motorizado individual. Esse privilégio dado aos carros e motos expõe o cidadão comum a riscos constantes derivados de atitudes individuais imprudentes dos condutores.

Damasio argumenta que o modelo atual de planejamento urbano é insustentável. Ao focar no fluxo de veículos em detrimento da segurança de quem caminha, as cidades criam ambientes hostis. "A alta frequência de acidentes fatais expressa a crise de uma mobilidade que privilegia o veículo individual e expõe a população aos inúmeros riscos", afirma. Para o pesquisador, o recorde negativo de janeiro é um sintoma de um sistema que está "derretendo" e que exige uma mudança profunda de paradigma no desenho das ruas e no compartilhamento dos espaços públicos.

Soluções estruturais vs. medidas paliativas

Diante do aumento das mortes, o debate sobre as soluções ganha urgência. O pesquisador do Observatório das Metrópoles alerta que medidas isoladas de sinalização ou campanhas educativas sazonais são insuficientes, comparando-as ao ato de "enxugar gelo". Para reverter o quadro, ele propõe uma reforma estrutural que inverta a pirâmide de prioridades no trânsito: as ruas precisam ser reconquistadas pelo pedestre e pelo ciclista. Isso envolve obras físicas de grande e pequena escala, como o estreitamento de vias, a elevação de travessias e a redução drástica da velocidade em perímetros urbanos residenciais e comerciais.

A Baixada Santista, por suas características de relevo plano e densidade populacional, teria potencial para ser um exemplo nacional de mobilidade ativa e segura. No entanto, enquanto o domínio do automóvel não for questionado, a tendência é que os números continuem em ascensão. A sociedade civil e o poder público enfrentam agora o desafio de decidir se continuarão investindo em um modelo que gera recordes de óbitos ou se abraçarão uma transformação urbana que coloque a preservação da vida acima da fluidez do tráfego motorizado.