Entenda como o aumento da inflação e a guerra no Irã impactaram objetivamente a decisão dos eleitores nas últimas eleições de meio de mandato
Reinaldo Polito Publicado em 06/11/2026, às 08h39
Os democratas estão soltando fogos. E com razão. Afinal, fazer maioria na Câmara e no Senado nos Estados Unidos foi uma virada impressionante, tendo em vista que há apenas dois anos Trump havia dado uma vitória consistente aos republicanos, acachapante sob qualquer ângulo que se analise.
O que poderia ter acontecido para que os americanos mudassem de opinião de forma tão drástica nessas eleições de meio de mandato? A maior surpresa foi o desempenho dos democratas na disputa pelo Congresso e por governos estaduais em redutos onde Trump e seu partido eram considerados favoritos. Algumas causas apontadas ajudam a explicar essa reviravolta política:
Aumento expressivo no custo de vida. Os americanos sentiram no bolso os preços dos alimentos, combustíveis e energia. Quase 8 em cada 10 eleitores disseram que a inflação está trazendo dificuldades para suas famílias.
A guerra contra o Irã. O próprio Trump admitiu que esse confronto contribuiu para a derrota. Os embates iniciados em fevereiro foram rechaçados pela opinião pública e tiveram consequências severas.
Os iranianos fecharam o Estreito de Ormuz, interrompendo o transporte do petróleo e do gás liquefeito. Sem contar que a guerra foi uma quebra da promessa do presidente de não envolver o país em novos conflitos. Nas pesquisas de boca de urna, 74% dos eleitores disseram que o conflito pesou de forma decisiva no voto, e a maioria deles escolheu os democratas.
Discursos eficazes. Os democratas puseram o dedo na ferida. De forma autêntica e com respaldo em dados, mostraram os equívocos da administração Trump. Exploraram principalmente o aumento no custo de vida e os problemas do sistema de saúde. Essa mensagem sincera sensibilizou até aqueles que tradicionalmente votam nos republicanos. Mesmo contrariado, Trump teve de reconhecer que os democratas “fizeram um bom trabalho”.
Queda na popularidade de Trump. Por todos esses fatores, a popularidade do presidente despencou. Seus pronunciamentos já não encantam como no início do governo. Os americanos queriam que o chefe do Executivo concentrasse sua atenção no combate à inflação e deixasse de lado tantas questões além-fronteiras.
O papel preponderante dos negros e latinos. Trump havia avançado entre esses eleitores em 2024, sobretudo entre os latinos, mas agora, principalmente em função das ações do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), vistas de forma negativa, houve mudança de opinião. Outra pesquisa devastadora apontou que 57% dos eleitores consideram que a política de imigração do governo foi longe demais.
Essas foram algumas das causas que ajudam a entender a derrota dos republicanos. Outras não tão evidentes devem ter também mexido com o sentimento dos eleitores. Muitas vezes as pessoas procuram identificar motivos concretos para justificar seu comportamento, mas, no fundo, nem elas mesmas sabem por que estão indo para um ou outro caminho.
A tese de Baudrillard
O filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard tem uma tese curiosa sobre a reação das massas, ao analisar fenômenos de comunicação, opinião pública e voto. Na obra “À sombra das maiorias silenciosas”, de 1978, o pensador sustenta que não se pode confiar nas iniciativas das pessoas.
Para ele, é impossível prever com exatidão o comportamento popular ou a lealdade do eleitorado, pois a população não tem um compromisso fixo com discursos ou promessas. As pessoas reagem e aderem a uma causa ou candidato movidas pelo seu revestimento estético e pelo espetáculo, o que torna as opiniões fluidas e passíveis de mudança rápida.
O que mudou também pode mudar
Portanto, independentemente das causas objetivas que se possam apontar para a derrota dos republicanos, nada impede, segundo a visão de Baudrillard, que, na próxima vez em que os eleitores voltarem às urnas, a opinião pública já tenha mudado de novo.
Sempre foi assim. Os especialistas pesquisam, inferem, explicam, mas vez ou outra se surpreendem com os resultados. Ou será que esperavam que Trump se elegesse há dois anos? Ou será que não irão se surpreender também com quem vai sucedê-lo? Saberemos, surpresos ou não, lá na frente. Siga pelo Instagram: @polito