Descubra estratégias eficazes para reduzir a prolixidade e se comunicar de forma mais clara e objetiva em ambientes profissionais
Reinaldo Polito Publicado em 30/10/2026, às 09h03
Há pouco tempo, uma empresa me contratou para uma tarefa curiosa: preparar um de seus executivos para assumir posições mais importantes na organização. Ele possuía uma falha que parecia insuperável. Era prolixo. Excessivamente prolixo.
Seu gestor explicou que, em suas novas atribuições, ele deveria manter contato com pessoas influentes, profissionais ocupados, que não tinham tempo a perder com conversas longas. Por isso, a empresa estava investindo nesse treinamento específico.
Ele ajudou no diagnóstico
Na conversa inicial que tivemos, perguntei a ele qual era o seu maior problema na comunicação. Sua resposta me surpreendeu. Disse que era falar demais. Revelou que tinha consciência dessa falta de objetividade. Com voz resignada, comentou que, de vez em quando, como se fosse um exercício, reduzia o tempo, mas logo a seguir, sem perceber, voltava a tagarelar.
A primeira etapa estava cumprida. Para corrigir a prolixidade, é preciso que a pessoa reconheça que fala muito. A segunda, a disposição para mudar, também parecia bem encaminhada, já que ele desejava ser mais objetivo em suas exposições.
Uma conversa desestimulante
O aluno percebeu que precisaria mesmo mudar seu comportamento porque, nos últimos tempos, notava que alguns de seus interlocutores bocejavam, pediam licença para se retirar e, em casos mais preocupantes, o interrompiam com assuntos que nada tinham a ver com a conversa. Sentia que estava sendo chato com seu jeito de falar.
A sua vaidade intelectual foi outro ponto simples de identificar. Gostava de fazer citações e mencionar o que havia aprendido nos livros e cursos. Por aí começou a primeira correção. Ele deveria reduzir essas citações e falar menos de suas proezas. Precisaria saber que quase ninguém estava interessado em suas conquistas pessoais. Deveria reservar esses assuntos para as situações em que o contexto exigisse.
Informações excessivas
Esses comentários supérfluos, aliados à falta de concisão, faziam com que suas conversas ou apresentações ficassem parecidas com uma árvore cheia de galhos. Ele seguia em determinada direção e, no meio do percurso, mudava a trajetória para incluir nova informação, em seguida outra, depois mais uma, de tal forma que os ouvintes não conseguiam mais acompanhar o raciocínio. Às vezes, nem ele mesmo.
Certa vez, numa reunião, alguém lhe perguntou se um projeto iria atrasar. Ele começou assim: “Para entender isso, precisamos voltar um pouco no tempo, porque, como dizia um autor que estudei num curso de gestão, todo projeto nasce de uma necessidade, e no nosso caso essa necessidade surgiu lá atrás, quando...”. Quinze minutos depois, ninguém sabia se o projeto atrasaria. A resposta cabia em uma palavra: sim.
Se não for útil, elimine
Já no primeiro exercício, passou a cortar o que era supérfluo e mudou muito sua maneira de se expressar. Aprendeu a se perguntar: até que ponto essa nova informação será útil para o resultado da apresentação? Se concluísse que serviria apenas para demonstrar conhecimento e erudição, eliminava-a da mensagem e seguia em frente, sem se desviar da rota traçada.
Chamei sua atenção ainda para o excesso de exemplos. Mostrei que um só seria suficiente e, em alguns casos, nem isso. Até ele ficou surpreso com o resultado. Estava cada vez mais animado. Tudo indicava que seria outro em pouco tempo. Faltavam-lhe essas orientações, algumas bem elementares.
Para onde estou indo?
Em alguns exercícios, parava no meio da fala e confessava, com uma sinceridade desconcertante: “Não sei para onde estou indo”. Essa confissão revelou a origem de muitos desvios: ele falava sem saber bem aonde pretendia chegar. Dava voltas porque não havia definido a finalidade da exposição. Repetiu várias vezes até memorizar os objetivos possíveis de uma apresentação: convencer, esclarecer, entreter ou informar.
Boa parte do treinamento foi consumida no aprendizado de como iniciar, preparar, desenvolver e concluir suas apresentações. Assim, evitava voltar às etapas já vencidas. Foi disciplinado nesse aspecto: reservava o início para conquistar; a preparação para instruir e facilitar o entendimento; o assunto central para cumprir o que havia prometido e apresentar os argumentos, com um exemplo, se necessário; e a conclusão, breve, para levantar uma reflexão ou pedir a ação.
No final do dia
Foram seis horas de aula em um único dia. O resultado foi excelente. Ele e seu superior ficaram satisfeitos com o aprendizado e, mais uma vez, pude pôr em prática o método que venho aprimorando ao longo das últimas cinco décadas.
E você, também acha que fala além da conta, ou tem conhecidos que poderiam aproveitar essas mesmas sugestões para ir direto ao ponto? Sem dúvida, ser objetivo é hoje uma das habilidades mais valorizadas da comunicação.
Saiba, todavia, que falar com objetividade não significa necessariamente falar pouco, mas sim dizer tudo o que for preciso, atingindo o que se pretende, no menor tempo possível. Siga pelo Instagram: @polito