Cultura

Da pedra à luz

A arte não reproduz o visível. Ela torna visível, Paul Klee

- The Veiled Virgin , Giovanni Strazza, c. 1850. Mármore de Carrara

Marlene Polito Publicado em 16/06/2026, às 10h09

Diante de certas esculturas, o mármore parece esquecer que é pedra.

Em The Veiled Virgin, de Giovanni Strazza, o véu translúcido parece desafiar a rigidez do mármore. A matéria adquire delicadeza quase imaterial, como se estivesse prestes a dissolver-se diante do olhar.

Muito antes disso, Michelangelo Buonarroti acreditava que a figura já existia escondida no interior do mármore e que cabia ao artista libertá‑la. Talvez por isso seus Prisioneiros provoquem fascínio tão intenso: ali, os corpos parecem lutar para desprender‑se da pedra, suspensos entre a matéria bruta e a forma que tenta emergir.

O "Escravo Despertando" e "Jovem Escravo" de Michelangelo, c. 1525–1530

 

Ao longo da história da arte, essa ideia de uma forma adormecida na matéria reapareceu em diferentes momentos. Em muitas esculturas antigas, a excelência estava associada à capacidade de transformar pedra, bronze ou madeira em presença viva, movimento e emoção.

Em Gian Lorenzo Bernini, véus, cabelos e tecidos parecem ultrapassar os limites físicos da pedra, aproximando‑se do impossível: fazer o mármore parecer carne e ar.

Apollo and Daphne, Bernini, 1622–1625. Galleria Borghese

 

Durante séculos, essa busca por vencer as limitações da matéria permaneceu no centro da tradição artística. No entanto, a partir do século XIX, a própria ideia de representação começou a se transformar.

O século XIX alterou profundamente a percepção do mundo visível. As revoluções industriais transformaram cidades, materiais e ritmos de vida. Ferro, vidro, fumaça, velocidade e máquinas passaram a compor a experiência urbana.

Ao mesmo tempo, a expansão da fotografia contribuiu para enfraquecer a antiga centralidade da representação fiel na pintura. Sem abandonar completamente a figuração, muitos artistas voltam-se para outros aspectos da percepção visual: luz, atmosfera, impressão, movimento e subjetividade.

Com os impressionistas, a matéria pictórica reaparece. Em Claude Monet, a tinta vibra com a luz e dissolve contornos.

Em Vincent van Gogh, a espessura da tinta ganha intensidade expressiva: a superfície deixa de ser apenas suporte e passa a participar emocionalmente da obra, tornando visível o gesto do artista.

Vincent van Gogh, detalhe de A Noite Estrelada, 1889. MoMa

 

Vincent van Gogh, detalhe de A Noite Estrelada, 1889. MoMa

 

Se a tradição buscava disfarçar a presença dos materiais, a pintura moderna passou gradualmente a tornar visível aquilo que antes permanecia oculto: a própria matéria da obra.

Ao longo do século XX, diferentes correntes artísticas aprofundam essa valorização da materialidade.

Em vez de ocultar a matéria, muitos artistas passam a enfatizá-la: a pincelada permanece aparente. A tinta escorre. O ferro oxida. A superfície racha. O acaso deixa marcas.

Em parte da arte moderna, a matéria deixa de ser apenas corpo da imagem e assume presença expressiva própria.

Nas telas de Jackson Pollock, a tinta já não se organiza em figuras estáveis: pinga, escorre, atravessa a superfície e registra fisicamente o movimento do artista. A pintura deixa de representar apenas o mundo visível – e se torna acontecimento.

Jackson Pollock, Number 14: Gray, 1948

 

Em artistas como Alberto Burri e Antoni Tàpies, superfícies queimadas, sacos de estopa rasgados, metais oxidados e fissuras integram a própria linguagem visual. O acaso, o tempo e a deterioração tornam-se parte ativa da experiência estética. A antiga busca pela perfeição cede espaço ao inacabado, ao fragmentário e ao irregular.

Se durante séculos grande parte da tradição artística procurou organizar a matéria e dar-lhe permanência, muitos artistas modernos passaram a interessar-se justamente por aquilo que escapa ao controle: o gesto imprevisível, a superfície ferida, a transformação contínua e a instabilidade do olhar.

Em certas experiências contemporâneas, a própria matéria parece perder protagonismo. Artistas como James Turrell e Olafur Eliasson transformam luz, cor e percepção em ambientes sensoriais.

Ambiente contemporâneo de luz e percepção. - Imagem gerada digitalmente para este artigo

 

Salas de luz colorida, campos de névoa e ambientes imersivos alteram a percepção do espaço e fazem vacilar a nitidez dos contornos. A obra já não ocupa apenas um pedestal: o espectador passa a atravessar ambientes, imersões e atmosferas sensoriais.

E talvez exista algo simbólico nessa longa transformação.

Se em Michelangelo a figura tentava libertar‑se do mármore, parte da arte contemporânea desloca a questão: a matéria já não aprisiona a forma porque a própria forma começa a dissolver‑se.

A luz, que durante séculos serviu para revelar a obra, em muitos casos converte-se ela mesma em obra.

Da pedra ao feixe luminoso, a busca por formas visíveis transformou-se em experiência, percepção e presença.

Talvez ainda exista uma antiga pergunta atravessando silenciosamente a arte: o que permanece escondido dentro da matéria – e dentro de nós mesmos?

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