Descubra como encontros inesperados podem mudar sua vida para sempre; casal brasileiro se reencontra em um show de tango na Argentina

por Reinaldo Polito
Publicado em 31/07/2026, às 09h58
Há coincidências tão improváveis que, se fossem contadas por outra pessoa, talvez despertassem alguma desconfiança. Vou relatar duas das mais marcantes que já vivenciei. A primeira começou em Nova Iorque, uma cidade fascinante.
Entre suas atrações está a Broadway, com seus teatros imponentes e grandes espetáculos. Algumas produções fazem tanto sucesso que permanecem em cartaz durante anos ou até décadas. O Fantasma da Ópera, recordista do circuito, chegou a 13.981 apresentações. A montagem original de Os Miseráveis permaneceu em cartaz durante 16 anos e alcançou 6.680 exibições.
Peças mais intimistas
Mas foi fora da Broadway que esta história teve início. Os teatros off-Broadway são menores, com capacidade para 100 a 499 espectadores. Costumam receber peças mais intimistas, abertas à experimentação artística e, em geral, com ingressos mais baratos.
Um dos maiores fenômenos desse circuito foi The Fantasticks. A montagem original estreou em 3 de maio de 1960 e permaneceu ininterruptamente em cartaz até 2002. Foram quase 42 anos e 17.162 apresentações. Retomado em 2006, o musical só se despediu definitivamente em 2017, depois de alcançar o total impressionante de 21.552 exibições.
O casal ao nosso lado
Foi em um desses teatros que ocorreu uma das maiores coincidências que já presenciei. Em uma de nossas passagens por Nova Iorque, minha mulher e eu fomos assistir a uma peça off-Broadway. Chegamos mais cedo para aproveitar o ambiente com tranquilidade.
Pouco antes do início da apresentação, um casal se sentou ao nosso lado. Eram brasileiros. Assim que perceberam que vínhamos do mesmo país, começamos uma conversa bastante agradável. No final, despedimo-nos com aquela sensação de que estávamos nos vendo pela última vez.
Agora na Argentina
Muitos anos depois, já acomodados em uma casa de shows na Argentina para assistir a uma apresentação de tango, vimos um casal ocupar os lugares ao nosso lado. Para nossa enorme surpresa, eram as mesmas pessoas que havíamos conhecido em Nova Iorque.
O reencontro foi emocionante. O mais espantoso não era apenas revê-los depois de tanto tempo, em outro país, mas estarmos novamente sentados lado a lado. Dessa vez, conversamos mais demoradamente e nos tornamos mais próximos. Na despedida, brincamos: “Até a próxima, em alguma parte do mundo.”
Até hoje nos lembramos desse reencontro como uma das coincidências mais impressionantes que já vivemos.
Um amigo de mais de 90 anos
A outra coincidência me tocou ainda mais. Ganhei de um saudoso amigo, Fernando Mauro Pires Rocha, uma primeira edição do livro A arte de falar em público, de Silveira Bueno, publicada em 1933.
Conversando com Fernandes Soares, amigo e também professor de oratória, descobri que Silveira Bueno estava vivo e já tinha mais de 90 anos. Marquei uma visita para conhecê-lo. A partir daí, tornamo-nos bons amigos.
Flores por fora e livros por dentro
Sua casa era exatamente como diziam: tinha flores por fora e livros por dentro. Seu acervo era admirável, e ele me deu permissão para consultá-lo à vontade. Foram muitas visitas à casa daquele filólogo, autor de mais de 60 livros. Uma de suas obras chegou a servir de base para o ensino de português ao Papa Pio XII. Esse foi apenas o começo da história.
Sou colecionador de livros antigos de oratória em língua portuguesa. Durante cerca de 40 anos, procurei reunir todas as edições de Lições elementares de eloquência nacional, de Francisco Freire de Carvalho. A primeira foi publicada em 1834; a oitava e última, em 1880.
Faltava a sétima
Garimpando sebos no Brasil e em Portugal, com muita persistência, fui encontrando uma a uma. Faltava, porém, a sétima edição, sobre a qual eu não conseguia obter nenhuma informação. Alguns alfarrabistas portugueses chegaram a dizer que talvez tivesse ocorrido um erro de numeração, passando-se diretamente da sexta para a oitava. Não me convenci. Continuei procurando.
Certa vez, durante uma pesquisa na internet, vi anunciada a edição que tanto desejava. Fiz o pedido e aguardei ansiosamente. Dois ou três dias depois, ao chegar em casa, encontrei sobre a escrivaninha o embrulho com a encomenda.
Passei por ele e não vi
Quase caí das pernas ao abrir o livro e notar, no frontispício, a assinatura de seu antigo proprietário: Silveira Bueno. Devo ter trombado com aquele exemplar durante as muitas visitas que fiz à casa dele, sem perceber que era justamente a edição que me faltava.
Encontrar o livro já teria sido uma enorme alegria. Descobrir que ele pertencera ao meu querido amigo tornou o momento ainda mais emocionante. Eu não havia encontrado apenas o volume que faltava. De certo modo, reencontrava também Silveira Bueno.
Coincidência? Talvez. Só sei que há histórias tão improváveis que só acreditamos nelas porque aconteceram conosco.
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