Decisões tomadas na raiva podem gerar arrependimentos duradouros; aprenda a contar até dez e evite mal-entendidos em conflitos
Reinaldo Polito Publicado em 14/08/2026, às 10h11
Você já aprendeu a contar até dez? Ou, assim como eu, de vez em quando, ainda reage de maneira precipitada diante das situações que exigem bom senso e reflexão? Feliz de quem conseguiu chegar a esse estágio de aperfeiçoamento. A habilidade de ficar em silêncio durante pelo menos dez segundos antes de se manifestar nos momentos de conflito pode evitar muitos mal-entendidos.
Cansei de ver gente estufando o peito, com os olhos arregalados, o rosto arroxeado e o dedo em riste, tentando provar que tem razão. Ainda que a tenha, ela se perde depois de contaminada por esse comportamento explosivo. E esses não são monstros que vivem perambulando por aí. Somos nós mesmos naqueles momentos de fúria, quando nos sentimos atacados, desrespeitados, humilhados.
Quando a razão perde a razão
Quando as pessoas envolvidas são estranhas, ou quando não há amor na relação, o desentendimento pode deixar marcas ainda maiores. Uma vira a cara para a outra e, nos casos mais graves, tornam-se inimigas. Depois de algum tempo, o motivo desaparece e só fica a mágoa, com a lembrança de que algo ruim aconteceu no passado. Se alguém perguntar por que brigaram, talvez nem saibam responder.
São indivíduos que perdem totalmente o controle e não conseguem se acalmar sem antes despejar sua raiva naqueles que ousaram contrariá-los. Na primeira oportunidade, sem nenhuma reflexão, gritam, esbravejam, abrem a mala e soltam as cobras e lagartos que levam de prontidão.
Não, não é fácil viver como se tivéssemos sangue de barata e precisássemos engolir sapo, levando desaforo para casa. Esse é privilégio de quem fez pós-graduação na escola de santo, e olhe lá, porque há muito santinho por aí que na segunda esperneada já está guardando a auréola na gaveta.
O preço do impulso
Esse comportamento destemperado pode produzir consequências graves na vida pessoal e nas relações do ambiente de trabalho. Uma decisão tomada no auge da raiva, apenas por vingança ou desejo de dar o troco, pode custar caro.
Se agirmos num acesso de cólera, no dia seguinte, muito provavelmente, estaremos arrependidos e nos penitenciando pelo erro. As pessoas se perguntam: Por que fui tão imbecil? Por que não fiquei calado mesmo sabendo que não teria nenhuma vantagem com esse comportamento?
Meu querido e saudoso amigo Gunter Murrins certa vez me confidenciou uma reflexão da qual jamais me esqueci. Disse ter aprendido com um antigo chefe, seu Vilela, que decisões importantes que pudessem envolver muito dinheiro ou mexer com a vida das pessoas precisariam no mínimo de uma boa noite de sono.
A noite como conselheira
Só como exemplo, contou-me que um guarda de sua empresa aprontara poucas e boas e precisava ser dispensado. Pondo em prática sua filosofia da reflexão noturna, deixou para o dia seguinte a demissão do funcionário.
Ao chegar à empresa pela manhã, confirmou que acertara na decisão, pois, por um ou outro motivo, todos os outros guardas haviam faltado. Se, no impulso, tivesse demitido o funcionário, teria ficado em maus lençóis. Ressalvava que não era o mesmo que procrastinar, mas sim pensar bem antes de agir. E até hoje não soube se o guarda foi ou não demitido.
Eu me esforço para adquirir o hábito de ter a noite como parceira das minhas decisões. Por diversas vezes escrevi mensagens na base da adrenalina, mas, antes de enviá-las, tive a prudência de botar a cabeça no travesseiro e adiar o envio dos impropérios para o dia seguinte. Nem preciso dizer como teria me arrependido se tivesse seguido meus impulsos e as enviado de maneira irrefletida.
A adrenalina escreve, a noite revisa
Infelizmente, ainda tenho muito para aprender. De vez em quando, esqueço os próprios conselhos que costumo dar e me deixo levar pelas emoções. Passado o momento, lá estou eu às voltas com meus arrependimentos, procurando me desculpar. Por isso até me sinto com autoridade para discutir esse tema.
O que estou dizendo aqui, portanto, não é apenas para você, mas para nós. Pensemos bem antes de comunicarmos uma decisão importante. Se, mesmo depois de refletirmos, acharmos que seria melhor aguardar mais um dia, esperemos. Isso vale principalmente se estivermos com muita raiva, revoltados ou indignados com o comportamento de alguém.
Talvez uma noite de sono nos surpreenda com uma disposição mais equilibrada e conciliadora. Como fui me censurando ao longo do texto, deve ter dado para perceber que é muito mais fácil dizer do que fazer. Mas, ao conversar sobre esse assunto, aproveito para aprender um pouco mais.
Quem sabe, assim, eu consiga cada vez mais deixar para amanhã o que não deveria dizer hoje.