Ficha suja

Com histórico de fraudes e citada na Lava Jato, empresa tenta liderar obra do túnel de R$ 6 bilhões

A Marquise é velha conhecida do Ministério Público e do Tribunal de Contas

A Marquise é velha conhecida do Ministério Público e do Tribunal de Contas - Imagem: Divulgação / Governo de SP

Jair Viana Publicado em 31/05/2025, às 15h11

Citada na Operação Lava Jato, a Marquise Infraestrutura — articuladora do consórcio com a italiana WeBuild no leilão do túnel submerso Santos-Guarujá — possui uma extensa ficha de escândalos, processos judiciais e suspeitas de irregularidades em contratos públicos pelo país. Esse histórico levanta questionamentos sobre sua capacidade técnica e, principalmente, sua idoneidade para liderar uma das obras mais estratégicas e complexas da história da Baixada Santista.

O projeto, que prevê cerca de R$ 6 bilhões em recursos públicos e privados, exige responsabilidade operacional e total transparência. No “currículo” da Marquise há punições por fraudes, investigações por danos ambientais, sanções do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e contratos anulados por Tribunais de Contas em vários estados — um padrão que gera apreensão, considerando a importância da obra.

Entre os episódios mais conhecidos estão a suspensão de uma Parceria Público-Privada (PPP) em Caucaia (CE) por superfaturamento comprovado; investigações por prorrogações ilegais de contratos em Manaus — onde também responde por danos ambientais em área de preservação —; envolvimento na Operação Xeque-Mate, na Paraíba, por corrupção e pagamentos irregulares; além da anulação de uma licitação em Porto Velho (RO) por fraude e direcionamento.

No âmbito federal, a empresa foi suspensa por dois anos de licitações do DNIT em 2021, após descumprir contratos rodoviários no Ceará. Agora, tenta liderar uma obra vital para a mobilidade regional, com riscos técnicos e financeiros que exigem não apenas capacidade, mas também reputação ilibada.

Parlamentares e autoridades da Baixada Santista pressionam por fiscalização rigorosa do Ministério Público e do Tribunal de Contas no leilão. Em uma região marcada por décadas de promessas não cumpridas e desconfiança em grandes projetos, a escolha do consórcio está sob forte escrutínio de entidades que defendem transparência no processo licitatório.

Tribunal de Contas de Rondônia anulou licitação que favorecia a Marquise Infraestrutura, anulando o contrato com a Prefeitura de Porto Alegre

 

Histórico

A Marquise Infraestrutura é citada em diversos escândalos de licitações fraudulentas, incluindo no contexto do cartel de licitações de metrôs e monotrilhos investigado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Veja os principais pontos:

A empresa foi citada na investigação de formação de cartel no âmbito da Operação Lava Jato. Um processo administrativo do Cade, instaurado em 2017, apurou um esquema de conluio em licitações de infraestrutura metroferroviária em sete estados e no Distrito Federal — incluindo obras como o Metrô de Fortaleza, de Salvador, a Linha 4-Amarela de São Paulo e outros.

O cartel operou entre 1998 e 2014 e envolveu ao menos nove grandes construtoras, como Camargo Corrêa, Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão.

A Marquise foi listada como uma das participantes potenciais. As investigações se basearam em acordo de leniência firmado pela Camargo Corrêa, que revelou manipulação de 21 licitações públicas. O grupo usava codinomes como “G-5” e “Tatu Tênis Clube” para ocultar as práticas ilícitas.

A Marquise sempre negou participação no cartel e afirma que, das obras mencionadas, participou apenas da construção da Linha Leste do Metrô de Fortaleza, “em processo regular e com acirrada competição”, do qual saiu derrotada.

Contratos Recentes

A Marquise atualmente atua em grandes projetos, como a Transnordestina (com previsão de conclusão até 2028), o Túnel Santos-Guarujá (em consórcio com a italiana WeBuild) e usinas de dessalinização no Ceará. Até o momento, não há registro de investigações sobre irregularidades nessas obras.

Substituição em contrato de resíduos (Porto Velho)

Em 2025, a Marquise Ambiental foi substituída pela Ecofort — empresa do mesmo grupo — em um contrato emergencial de coleta de lixo em Porto Velho. A troca gerou críticas, sendo tratada como “seis por meia dúzia”, mas não houve comprovação formal de fraude nesse episódio.

Embora tenha sido investigada pelo Cade no âmbito do cartel de metrôs vinculado à Lava Jato, não há registros de sanções ou condenações diretas contra a Marquise nesse processo. Em projetos atuais, como o túnel Santos-Guarujá e a Transnordestina, a empresa atua sem acusações formais de fraude.

Outro lado

"O Grupo Marquise refuta as frágeis informações publicadas no dia 31 de maio sobre a empresa e reforça que, apesar de a matéria informar o contrário, não recebeu qualquer tipo de contato para os devidos esclarecimentos.

A empresa possui um histórico sólido e repudia a tentativa de vincular o seu nome a práticas ilegais ou condutas antiéticas sem a devida apuração dos fatos.
Ao abordar episódios totalmente fora de contexto, a reportagem compromete a isenção jornalística e induz o leitor a conclusões equivocadas.

Sobre as fantasiosas alegações, a empresa esclarece que:
1. Sempre atuou de forma ética e transparente em todas as obras em que realizou. Sua capacidade técnica aliada à expertise em projetos de diferentes segmentos capacitam a empresa a participar de grandes projetos estruturantes do país, como as mais de 250 obras entregues ao longo de sua história.
2. A empresa não foi alvo da investigação na Operação Lava-Jato, tampouco denunciada ou condenada em qualquer instância.
3. A empresa jamais foi parte do processo ou denunciada no âmbito da operação Xeque-Mate, inexistindo ação judicial contra a companhia.
4. Todas as informações e documentos técnicos sobre a PPP de Caucaia foram entregues ao Tribunal de Contas com total transparência na execução do contrato, sem qualquer comprovação de superfaturamento ou qualquer outra irregularidade.
5. É falsa a afirmativa de fraude e direcionamento em licitação em Porto Velho. Todas as licitações das quais qualquer empresa do grupo participou — sendo vencedora ou não — passaram por todos os ritos legais.
6. De igual maneira, é absolutamente falsa a informação de que a Ecofort faz parte do Grupo Marquise. A Ecofort é um consórcio formado pelas empresas Amazon Fort e SOMA, que não possuem qualquer ligação com as empresas do Grupo Marquise.
7. A empresa jamais foi responsabilizada por danos ambientais em Manaus. Por sua vez, a renovação do contrato de concessão dos serviços de manejo de resíduos e limpeza urbana foi precedida de regular processo administrativo, devidamente motivado e fundamentado por estudos técnicos e jurídicos. Reforça-se o fato de que, não só em Manaus, como nas demais localidades em que atua, conta com todas as licenças ambientais em dia e é fiscalizada regularmente pelos órgãos competentes.
8. Não há qualquer impedimento legal para sua atuação em contratos públicos no Brasil. A empresa mantém-se habilitada em todos os órgãos de controle, com certidões negativas e atuação regular em diversos estados, em obras que cumprem rigorosos padrões técnicos, ambientais e legais.

Todo texto, repleto de adjetivos, fere as mais básicas regras jornalísticas de imparcialidade, não passando de uma tentativa clara de prejudicar a imagem da empresa e demais negócios do grupo.

O Grupo Marquise tem mais de 50 anos de atuação, com experiência em obras de grande porte, como portos, aeroportos, ferrovias, mobilidade urbana, transposição hídrica, hospitais etc., e reafirma seu compromisso com a transparência, a legalidade e a excelência técnica, além das melhores práticas ESG, especialmente no que se refere à governança ambiental.

Lamentamos que a reportagem tenha adotado viés parcial e descontextualizado, sem oferecer à sociedade uma visão justa e baseada em fatos concretos."

Nota da redação

A empresa foi procurada pela reportagem, e a redação deixou mensagem na caixa postal do contato institucional, mas não obteve retorno. Reiteramos que mantemos nosso posicionamento editorial e o compromisso com a apuração responsável e o interesse público.

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