Essas reuniões podem ocorrer em mesas de bares, de restaurantes, ou de qualquer outro ambiente

Reinaldo Polito Publicado em 22/12/2023, às 15h34
Conversa de botequim é uma força de expressão que identifica a troca informal de ideias. Essas reuniões podem ocorrer em mesas de bares, de restaurantes, ou de qualquer outro ambiente onde as pessoas resolvam jogar conversa fora. São discussões sem temas definidos, que vão surgindo à medida que os assuntos se desenvolvem. Talvez não existam situações mais prazerosas que essas.
Até pouco tempo atrás, as conversas de botequim eram sobre futebol e algum acontecimento que estivesse nas primeiras páginas dos jornais. Hoje, embora essas matérias continuem presentes, a maioria quer discutir política.
Seleção X STF
É impressionante como um país, onde quase todos os seus habitantes torciam o nariz quando esse tema era levantado, hoje, tenha se transformado em palco para o debate político.
Uma comparação curiosa, mesmo sendo recorrente e até exageradamente repetitiva, ajuda a explicar a dimensão das nossas transformações culturais. Cada brasileiro sabia na ponta da língua o nome de todos os jogadores da seleção brasileira. Hoje, dificilmente conseguem mencionar meia dúzia deles.
Por outro lado, em passado recente, nem se lembravam da existência do STF (Supremo Tribunal Federal). Hoje quase todo mundo sabe quem são os 11 ministros da Corte. Não só conseguem dizer o nome de cada um deles como, em muitos casos, identificam seu perfil ideológico.
Mais acaloradas
Por isso, as discussões em qualquer tipo de ambiente, com a polarização que passou a existir no país, ficaram mais apimentadas. Há grupos que, mesmo tendo opiniões divergentes, trocam ideias de forma serena e civilizada. Em outras situações, e podemos afirmar que constituem a maioria, o bate-boca esquenta e chega próximo das brigas de arquibancadas.
Independentemente de você gostar dele ou não, por certo irá concordar que quem despertou o gosto por esse debate político foi Bolsonaro. Antes dele não havia oposição de fato. Os candidatos que se enfrentavam nas eleições possuíam cores ideológicas semelhantes. Discutiam, debatiam, brigavam, mas ficou evidente depois um alinhamento de ideias e posicionamentos.
Dança das tesouras
A população imaginava, por exemplo, que Fernando Henrique Cardoso e Lula fossem dois adversários com pensamento totalmente distinto. Ficou claro depois que ambos eram de esquerda. Não foi diferente com Alckmin e Lula, que depois de se enfrentarem com acusações pesadas, hoje estão juntos, um como presidente e outro como vice.
A única oposição autêntica que surgiu nas últimas décadas foi Bolsonaro. Mostrou de maneira transparente que o quadro pintado até então era só uma estratégia para que os progressistas continuassem no poder.
Pacificação e rendição
Os brasileiros tomaram gosto pela política. Aqueles que se sentiam envergonhados de dizer que eram de direita passaram a sentir orgulho de defender essa ideologia. Diferenças marcadas e posições estabelecidas e defendidas dão lugar a uma polarização que se consolida.
Quem prega o fim dessa disputa, no fundo, deseja que os conservadores se rendam e aceitem a sua posição política. Se depender dessa atitude dos oposicionistas, o país continuará dividido.
A influência
A passagem de Bolsonaro pela presidência foi significativa. Mesmo estando fora das disputas eleitorais, já que o tornaram inelegível, fez com que ficassem impregnadas na cabeça de boa parte da população as diferenças existentes entre um lado e outro.
Se Bolsonaro desaparecesse hoje, ainda assim o seu legado iria permanecer. Na verdade, a direita no Brasil não precisa mais dele para continuar existindo. E fato é fato. Se foi difícil para Lula fazer com que a esquerda recuperasse o poder, não há dúvida de que será ainda mais desafiante permanecer nele.
Ele mesmo já disse para os seus seguidores que, depois de parte da população ter melhorado um pouco o nível de instrução, a esquerda já não consegue envolvê-la com o velho discurso. Ou seja, a mensagem de sempre ficou embolorada com a chegada da direita na discussão ideológica.
Prefeitos e vereadores
No próximo ano teremos os pleitos municipais para eleger prefeitos e vereadores. Será um bom tira-teima. Esses cargos traduzem a capilaridade da força política do país. São esses representantes do povo que estão próximos dos habitantes da cidade que administram. Por isso, possuem poder de influência excepcional.
Se a direita vencer em boa parte dos municípios, formará uma linha de resistência indestrutível. Esse começou a ser o assunto preferido nas conversas de botequim. E serão essas conversas informais que poderão levar ou não o postulante ao cargo a ser o vencedor.
E por mais importantes que sejam os recursos disponíveis para as campanhas, por mais avassaladora que seja a máquina daqueles que hoje estão no poder, nada terá mais influência no resultado das eleições que as tias do zap e os tios do churrasco – uma nova e atualizada forma da conversa de botequim.
Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de Oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão de Marketing e Comunicação, Gestão Corporativa e MBA em Gestão de Marketing e Comunicação na ECA-USP. Escreveu 34 livros, com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram: @polito pelo facebook.com/reinaldopolito pergunte no https://reinaldopolito.com.br/home/
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