Cultura

O olhar de Van Gogh diante da grandeza da arte japonesa

Relação entre a arte japonesa e ocidental revela um diálogo profundo que transformou a maneira como vemos e sentimos a arte

Amendoeira em Flor (1890)
Amendoeira em Flor (1890)
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 13/01/2026, às 10h40


À primeira vista, é Van Gogh.

As cores vibram, o traço pulsa, o céu deixa de ser fundo e passa a ser superfície. Há algo de inquieto, quase elétrico, nessa imagem que o olhar reconhece antes mesmo de compreender.

Mas essa pintura não nasceu inteira aqui.

Há nela um modo de organizar o espaço, de cortar a cena, de permitir que o olhar flutue sem ponto fixo, que não pertence à tradição europeia. Nada se impõe. Tudo parece simplesmente acontecer.

É fácil supor que estamos diante de mais uma variação do gênio ocidental. Mais difícil é perceber que essa imagem já se apoia sobre um mundo que não é o seu.

Esse mundo não se define por estilos, escolas ou técnicas. Ele se organiza a partir de outra relação com o tempo, com a natureza e com a presença humana. Um mundo em que o instante não precisa ser salvo, nem a paisagem dominada pelo olhar.

Quando esse mundo se deixa ver com clareza, não o faz por meio de uma cena grandiosa, mas por um gesto simples. Tão simples quanto uma onda que passa.

Katsushika Hokusai – A Grande Onda de Kanagawa

A onda não domina o homem; passa por ele. Na arte japonesa, a força não grita.  Atravessa
A onda não domina o homem; passa por ele. Na arte japonesa, a força não grita. Atravessa

Durante muito tempo, o olhar ocidental acreditou saber exatamente o que procurar na arte: equilíbrio, centralidade, proporção, acabamento. A boa obra era aquela que se impunha pelo tema, pela técnica, pela grandiosidade. Tudo o que escapava a esse repertório parecia menor ou estranho.

Quando a arte japonesa começou a circular com mais intensidade no Ocidente, esse olhar treinado titubeou. As imagens não obedeciam à perspectiva clássica, dispensavam hierarquias claras, cortavam figuras, deixavam espaços vazios. Nada parecia buscar o efeito máximo. E, ainda assim, algo ali insistia em permanecer.

Esse encontro não foi casual. Durante séculos, o Japão manteve-se relativamente fechado ao exterior. No século XIX, com a reabertura de seus portos, objetos, imagens e ideias começaram a atravessar fronteiras. O Ocidente descobria o Japão, enquanto o Japão, por sua vez, passava a observar o Ocidente com atenção seletiva. A troca existiu, mas não foi simétrica.

Foi nesse contexto que as ukiyo-e começaram a circular quase como objetos marginais: embrulhando mercadorias, decorando interiores, aparecendo fora dos circuitos tradicionais da arte.

Produzidas a partir de matrizes de madeira e destinadas à ampla circulação, essas gravuras retratavam cenas da vida cotidiana, paisagens, chuvas repentinas, gestos banais. Não nasceram como “arte elevada”, mas como imagens de um mundo assumidamente transitório.

Essas imagens só podiam nascer em uma cultura que não via o instante como perda, mas como plenitude.

A arte japonesa não interpreta o mundo. Ela acontece como o mundo acontece. Como na onda de Hokusai, nada ali pretende dominar: tudo passa, tudo continua.

Utagawa Hiroshige – Chuva repentina sobre a ponte Ōhashi

Uma chuva que não é cenário, mas acontecimento. O instante vale mais que a cena inteira
Uma chuva que não é cenário, mas acontecimento. O instante vale mais que a cena inteira

As ukiyo-e apresentavam um mundo sem centro fixo, sem profundidade ilusionista, sem a obrigação de conduzir o olhar a um ponto privilegiado. A cena podia ser cortada, interrompida, sugerida. O vazio não era ausência, mas respiração. Para um olhar ocidental habituado à composição fechada, esse deslocamento era desconcertante.

Antes que essa estética fosse plenamente compreendida, ela foi, por um momento, apenas encanto, visível na moda, na decoração, nos interiores.

Alguns artistas, porém, como Degas, Toulouse Lautrec, Gauguin, perceberam que ali havia mais do que ornamento. Oferecia-se uma nova gramática do olhar. Vincent Van Gogh ocupa lugar central nesse cenário.

Hiroshige / Vincent Van Gogh – Ameixeira em flor (segundo Hiroshige), 1887

Não é citação, é tradução. Van Gogh aprende com o Japão a cortar, simplificar e respirar a imagem
Não é citação, é tradução. Van Gogh aprende com o Japão a cortar, simplificar e respirar a imagem

Ao reinterpretar Hiroshige, Van Gogh não copia um motivo oriental. Ele se apropria da estrutura: áreas planas, contornos marcados, cor que não imita a natureza, mas a recria.

Vincent van Gogh – La Berceuse (Madame Roulin), 1889

O Japão já não aparece. Mas seu modo de ver permanece.
O Japão já não aparece. Mas seu modo de ver permanece

Aqui, a pintura ocidental começa a aceitar o fragmento como valor. Não se trata de exotismo, mas de reorganização do visível.

Claude Monet, Nenúfares,1899

O Japão já não aparece. Mas o olhar aprendeu a flutuar
O Japão já não aparece. Mas o olhar aprendeu a flutuar

O japonismo não foi uma moda decorativa. Foi um deslocamento profundo do olhar. Em um mundo que exige impacto imediato e acúmulo de imagens, a arte japonesa continua a oferecer resistência. Ela lembra que o olhar não precisa ser capturado à força. Pode ser respeitado.

Muito antes de influenciar o Ocidente, a arte japonesa já era um modo completo de ver, sentir e habitar o mundo.