Cultura

O país ficou atônito e frustrado com o cancelamento do debate da Globo

Entenda os motivos que levaram ao cancelamento do debate e as implicações para os candidatos em um momento decisivo da eleição

Foto: Reprodução
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Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 02/10/2026, às 09h00


Neste 1º de outubro, boa parte da população se preparou para assistir ao debate da Globo. Era a última oportunidade para entender as propostas dos candidatos. Embora Lula tivesse resolvido se ausentar, os outros concorrentes poderiam fazer perguntas sobre os temas que ainda precisam ser esclarecidos.

A ausência de Lula pode ser encarada como estratégia política. Tudo bem. Como ele é o único candidato de esquerda, provavelmente, os outros o encurralariam. O que também não teria problema, pois bastaria dizer a verdade no seu tempo. Julgou, entretanto, que o risco de participar seria maior do que o de se ausentar.

O que havia sido combinado

Aí começou o imbróglio. O acordo assinado pelos partidos com a Rede Globo foi rasgado. Estava combinado que seguiriam a lei eleitoral e resoluções do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e participariam apenas os candidatos de partidos ou federações que possuíssem no mínimo 5 parlamentares no Congresso Nacional.

Outro ponto importante das regras: em caso de falta de um candidato, o púlpito dele ficaria vazio no cenário, com a placa indicativa do seu nome. Na rodada de tema livre, os candidatos presentes teriam o direito de fazer as perguntas que desejassem, de até 30 segundos, à cadeira do ausente.

Grande audiência era esperada

Tudo acertado. O tradicional debate, o último do primeiro turno, seria realizado, como sempre foi. Mesmo com a ausência de Lula, a previsão era de uma grande audiência para esse encontro em horário nobre. Pessoas que não se importaram muito com a campanha eleitoral agora teriam condições de fazer uma avaliação dos candidatos.

O debate foi cancelado. César Tralli leu uma nota da emissora explicando os motivos. Por interferência do Poder Judiciário, para que o evento fosse levado a cabo algumas regras combinadas precisariam ser desconsideradas. A ministra Estela Aranha, do TSE, concedeu liminar proibindo a Globo de exibir o púlpito vazio e de permitir perguntas ao candidato ausente.

Interferência do Judiciário

Poucas horas antes do início, o ministro Gilmar Mendes (STF) determinou que a emissora deveria incluir o candidato Renan Santos (Missão), ainda que o seu partido não tivesse o número mínimo de 5 parlamentares. Nunes Marques, do TSE, foi no mesmo sentido ao garantir a presença de Romeu Zema (Novo). Diante dessas mudanças de última hora, a emissora ressaltou que as decisões provocavam insegurança jurídica e interferência indevida na liberdade da imprensa.

Com as regras alteradas e a interferência do Judiciário, Flávio, pouco antes do horário, se sentiu logrado e disse que não participaria.

O cancelamento surpreendeu

Não é a primeira vez nem será a última que um candidato se ausenta de um debate. Há casos em que alguns se beneficiaram não comparecendo e outros em que saíram no prejuízo. São cálculos feitos pela assessoria, medindo as vantagens e os ônus. Nesse caso, o cancelamento do debate talvez não fosse uma atitude esperada por quem promoveu a confusão toda. Se contavam com benefícios, devem ter percebido um resultado diverso.

Resta saber agora se esse desfecho tão ruim para o processo democrático terá consequências nas candidaturas, especialmente de Lula e Flávio, que são os dois mais pontuados nas pesquisas de opinião. Dizem alguns analistas que a eleição poderia até ser decidida já no primeiro turno.

Quem ganhou ou perdeu nessa contenda?

Ao que tudo indica, a oposição tem mais força de argumento para tudo o que aconteceu e penetração mais robusta nas mídias digitais. O longo pronunciamento do jornalista da Globo, durante o mais importante horário da televisão, de alguma maneira, pode ter influenciado o eleitorado.

A poucas horas da votação, mexer com o humor dos eleitores, em vez de ajudar esse ou aquele candidato, pode se transformar em verdadeiro tiro no pé. Será fácil medir essas consequências. Domingo já saberemos como a população entendeu essas manobras de último momento. E como reagirão com seu voto.

E mesmo o debate tendo sido programado apenas para os candidatos à presidência, nada impede que os votos para governador, senadores e deputados também sejam afetados. Siga pelo Instagram: @polito