Explorando como o tempo redefine o que é considerado arte e valor, revelando a importância do novo

por Marlene Polito
Publicado em 24/06/2025, às 10h23
O escândalo de hoje é o clássico de amanhã
- Jean Cocteau
Há algo de traiçoeiro no presente. Ele nos cega com sua proximidade, confunde costume com valor. O novo, quando chega, não traz manual. Apenas o desconforto daquilo que ainda não sabemos nomear. Como toda novidade, provoca: desmonta padrões, desafia gostos, abala critérios de beleza e decoro.
Por isso, tantas vezes, o agora se fecha em julgamento severo. Só o tempo, com sua distância curadora, reavalia. Ele decanta o que parecia ruído e revela o que, no fundo, era vanguarda.
Não faltaram dedos em riste e textos inflamados. Quando Anita Malfatti apresentou ao Brasil sua pintura moderna, a crítica, sobretudo a de Monteiro Lobato, não hesitou: aquilo era “caso de polícia”. O tempo respondeu com elegância: pendurou Anita nos museus e deixou o artigo de Lobato como curiosidade amarga nos livros de história. Quantas vezes a crítica tropeça? E por que tantos desses tropeços viram elogio?
Quando o escândalo se transforma em marco

Anita Malfatti – O homem amarelo (1915)
Distorções e cores dissonantes que escandalizaram Monteiro Lobato: hoje, símbolo da modernidade brasileira.
Anita foi apenas a primeira, no Brasil, a sofrer esse julgamento apressado. Sua exposição de 1917 foi retirada antes da hora. As figuras distorcidas, as cores agressivas, os olhares descentrados: tudo era moderno demais. Mas Anita, mesmo silenciada por um tempo, abriu caminho para a Semana de Arte Moderna, para Tarsila, para o Brasil que ousou ver com outras cores.
O que a crítica rejeita como erro, muitas vezes é só acerto prematuro. Lobato, que condenou suas telas com veemência, virou personagem de um tropeço. Seu texto, "Paranoia ou mistificação?", tornou-se exemplo de como o conservadorismo pode se disfarçar de zelo estético.
Monet, Renoir e a pintura "inacabada"

Claude Monet – Impressão, nascer do sol (1872)
Chamaram de esboço. Era revolução. Com Monet, a luz virou protagonista.
Quando os impressionistas apresentaram suas obras, ouviram risos e desprezo. O termo "impressionismo" nasceu como insulto, cunhado por um crítico ao ver Impressão, nascer do sol, de Monet. Dizia-se que eram borrões. Hoje, cada pincelada leve de Monet, cada brilho de Renoir ou cor de Degas virou sinônimo de beleza.
Esses artistas buscavam a vibração do instante. Por isso, foram acusados de preguiça. Mas estavam abrindo janelas para o século XX.
As feras coloridas do salão

Henri Matisse – A Dança, 1910 / Escultura renascentista atribuída a Donatello
Décadas depois, Matisse e seus companheiros apresentaram obras com cores violentas, contornos desfeitos e composições livres. Um crítico, ao ver aquelas telas ao lado de uma escultura atribuída a Donatello, disparou: “É como ver uma Donatello entre feras”. A comparação, feita com desprezo, batizou o movimento: fauvismo, de fauves, “feras”.
Os fauvistas queriam expressar emoções, não copiar a realidade. Foram chamados de primitivos. E viraram referência.
Da pintura à palavra e à tela
Quando Mário de Andrade publicou Macunaíma, parte da crítica torceu o nariz: chamaram o livro de caótico e “anticultural”. Hoje, é celebrado como gênese da brasilidade literária.
O mesmo ocorreu com Cidadão Kane (1941), de Orson Welles. Boicotado por William Randolph Hearst, ignorado pelo Oscar, o filme hoje está entre os maiores da história.
Cultura popular em contramão
E se nas artes o escândalo virou escola, nas ruas o roteiro não foi diferente.
O samba, por exemplo, foi por muito tempo marginalizado e chamado de música de malandro. Nas primeiras décadas do século XX, era perseguido e associado à vadiagem. Seus praticantes — negros, pobres, suburbanos — foram alvos de repressão. Hoje, é patrimônio cultural e expressão nobre da identidade brasileira. O que antes soava como desvio hoje é fundamento.
O gosto erra. Ainda bem.

Grafite de Banksy em Londres, alvo de remoções e polêmicas.
Um exemplo recente de como o tempo transforma o que antes era visto como transgressão.
O julgamento estético, cultural ou simbólico é filho do seu tempo. Muitos dos que ousam não cabem nas molduras do presente. Precisam da distância histórica para serem compreendidos.
Anita, Monet, Matisse, Macunaíma, Kane, o samba: todos enfrentaram o olhar torto da crítica, por romper formas ou por representar identidades que se queria calar. E todos viraram acertos brilhantes. Talvez porque a crítica, com sua pressa de sentenças, se esqueça de que o novo não vem com manual. Ele chega gritando, gaguejando, improvisando... e, por vezes, é rejeitado.
E quem sabe, amanhã, um grafite apagado com indignação hoje, não será disputado a preço de ouro?
Ainda bem que seus criadores não recuaram. Ainda bem que insistiram. E ainda bem que o tempo reconheceu - ou que nós, enfim, aprendemos a transformar escárnio em força.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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