Cultura

No meio do caminho, uma pedra

Acompanhe a jornada de personagens que enfrentam pedras no caminho e revelam significados ocultos

Foto: Ilustração gerada por inteligência artificial.
Foto: Ilustração gerada por inteligência artificial.
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 15/09/2026, às 09h46


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
(...)
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra

                            Carlos Drummond de Andrade

O que pode haver de tão inquietante numa simples pedra?

Aparentemente, muita coisa. Em 1928, Carlos Drummond de Andrade publicou esse poema estranho, repetitivo, com o trivial “tinha uma pedra” – e não “havia uma pedra”, como talvez preferissem os puristas. Os versos, que estariam entre os mais conhecidos e discutidos do modernismo brasileiro, provocaram críticas, ironias e paródias. Drummond guardou as reações e, em 1967, reuniu-as numa espécie de “biografia” do poema.

Não parece ter pretendido fazer dele um manifesto contra a tradição. A provocação estava mais na maneira de escrever: repetição insistente, linguagem coloquial, nenhuma solenidade e uma simples pedra ocupando o centro da poesia. O que chamou de “jogo monótono, deliberadamente monótono” acabou tocando num dos nervos do modernismo: levar o cotidiano para dentro do poema.

A pedra que ele colocou no caminho do homem acabou também no caminho da própria poesia.

Pedras para não esquecer

Décadas depois, outro artista transformaria pedras no caminho em memória. No início dos anos 1990, o alemão Gunter Demnig criou os Stolpersteine, expressão que significa “pedras de tropeço”. São pequenos blocos de concreto, de cerca de dez centímetros, instalados no nível das calçadas e cobertos, na face superior, por uma placa de latão, geralmente diante da última casa onde vítimas do nazismo viveram por escolha própria antes da perseguição. Em cada placa aparecem o nome e alguns dados daquela pessoa: nascimento, deportação, prisão ou morte.

Stolperstein em memória de Hilda Monte, Berlim. Fotografia: Wolfgang Knoll. Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.5.


Não são pedras feitas para provocar um tropeço físico. Interrompem o passo de outra maneira. Quem caminha pela rua vê de repente um nome sob os pés e é levado a lembrar que ali viveu alguém cuja existência a história tentou apagar. A pedra interrompe a distração para impedir o esquecimento.

Há pedras que alguém deixa diante de nós para que não passemos sem perceber.

Quando o sentido chega depois

Há, porém, pedras que estão no caminho e só compreendemos depois de já termos passado por elas.

Em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Riobaldo atravessa boa parte da narrativa atormentado pelo sentimento que nutre por Diadorim. Ama, hesita, estranha o próprio desejo, tenta compreender o que se passa dentro dele. Só depois da morte de Diadorim descobre que aquela pessoa que conhecera como homem era mulher.

A revelação não muda o que aconteceu. Riobaldo não pode voltar ao início e refazer o caminho à luz do que agora sabe. O que muda é o significado de tudo aquilo que viveu.

Talvez esteja aí uma das dimensões mais intrigantes da imagem de Drummond. A pedra não está apenas no espaço, no meio do caminho. Ela também está no tempo. Algumas interrompem o percurso no instante em que surgem. Outras só revelam seu peso muito depois.

Quando surge outro caminho

Henri Matisse, Nu bleu III, 1952. Fotografia: Francesco Bini. Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Henri Matisse encontrou uma situação diferente. Em 1941, aos 71 anos, foi submetido a uma grave cirurgia que salvou sua vida, mas deixou sua mobilidade bastante limitada. Continuou trabalhando e, nos anos seguintes, passou a dedicar cada vez mais atenção aos papiers découpés, recortes feitos em folhas pintadas com guache. Com uma tesoura, criava formas e orientava seus assistentes na disposição das peças, muitas vezes trabalhando sentado ou na cama.

Não era simplesmente uma maneira improvisada de continuar fazendo o que já fazia. Aos poucos, os recortes adquiriram autonomia e se transformaram em uma das fases mais importantes de sua obra.

O caminho anterior se estreitara. Matisse encontrou outro.

Pode ser que seja por isso que a pedra de Drummond ainda nos inquieta. Ela não fala apenas do tropeço, mas da marca. Não apenas do instante em que interrompe o caminho, mas do que permanece quando o caminho segue.

As pedras de Demnig devolvem ao presente aquilo que parecia encerrado. Riobaldo só compreende o vivido quando já não pode retornar. Matisse encontra outro caminho quando o anterior se estreita. Em todos esses casos, a pedra marca uma passagem entre o que havia antes e o que veio depois.

Drummond escreveu que jamais esqueceria aquele acontecimento. Talvez porque algumas pedras não se movam, mas movam quem as encontra.

Há pedras que não ficam no meio do caminho. Ficam silenciosamente no meio da vida.