Notícias

São Vicente transforma muros em arte com homenagens a Dragon Ball Z e à Mata Atlântica

Projeto de arte urbana visa fortalecer laços afetivos e a identidade cultural, tornando a cidade um espaço de expressão e pertencimento

A Prefeitura de São Vicente integra arte urbana às políticas de requalificação, transformando muros em ferramentas de comunicação e pertencimento - Foto: Divulgação/ Prefeitura de São Vicente
A Prefeitura de São Vicente integra arte urbana às políticas de requalificação, transformando muros em ferramentas de comunicação e pertencimento - Foto: Divulgação/ Prefeitura de São Vicente

Redação Publicado em 18/02/2026, às 09h33


Quem caminha pelas ruas de São Vicente, no litoral paulista, tem notado que a paisagem urbana está mudando. O cinza do concreto e o aspecto frio das construções civis estão dando lugar a cores vibrantes, traços expressivos e narrativas visuais. A Prefeitura decidiu integrar, de forma permanente, a arte urbana, especialmente o grafite e o muralismo, às suas políticas de requalificação de infraestrutura. A ideia vai além da estética: o objetivo é transformar muros, viadutos e praças em ferramentas de comunicação, memória e, principalmente, pertencimento.

A iniciativa, que começou de forma quase espontânea na pista de skate do Parque da Juventude, ambiente historicamente ligado à contracultura e ao hip-hop, ganhou corpo e virou estratégia de governo. Segundo Alexsandro Ferreira, secretário de Desenvolvimento Urbano, a cidade parou de entregar apenas obras funcionais. "Cada obra passou a ser pensada também como espaço de identidade. Não entregamos apenas concreto; entregamos cultura, memória e conexão com as pessoas", explica.

Um toque oriental e pop

Um dos destaques mais comentados por moradores e turistas é a intervenção na Rua Japão. Ali, a arte dialoga diretamente com o nome do logradouro e a forte presença da comunidade nipônica na região. O mural foge do óbvio ao misturar elementos tradicionais com a cultura pop moderna: os personagens da famosa série de anime Dragon Ball Z estampam o paredão. O local, que antes era apenas uma área de passagem pouco atrativa, virou ponto de selfies e referência cultural, conectando gerações e resignificando o espaço.

Natureza no concreto

Outro ponto que chama a atenção é a Avenida Tupiniquins. O muro de contenção da ciclovia, antes uma barreira visual monótona, transformou-se em uma aula de biologia a céu aberto. O painel foi desenvolvido após uma pesquisa detalhada sobre a fauna e a flora do Parque Estadual Xixová-Japuí. Quem passa por ali agora é acompanhado por pinturas de tiês-sangue, garças e vegetação nativa, criando uma extensão visual da unidade de conservação que define a identidade geográfica de São Vicente.

Fé, esporte e história

A diversidade temática é a marca do projeto. Na Praça da Bíblia, a arte sacra ganhou as ruas com uma representação da Santa Ceia, respeitando a vocação religiosa do espaço. Já na Praça Nossa Senhora Aparecida, na Vila Fátima, e no Parque da Juventude, as tintas celebram o esporte, o movimento e a energia jovem, incentivando a ocupação saudável dos espaços públicos e afastando a degradação. Até mesmo a saída da icônica Ponte Pênsil, cartão-postal da cidade, ganhou murais que recepcionam os visitantes.

O prefeito Kayo Amado reforça que a intenção é criar laços afetivos. "Queremos fortalecer a identidade e a cultura de cada local. É fazer com que cada vicentino que atravesse a Tupiniquins se sinta representado por elementos do Parque Xixová-Japuí. Que a população visite a Rua Japão e mantenha vivo o legado da cultura oriental", afirma.

Vale lembrar que essa expressão artística tem raízes profundas. O movimento surgiu na década de 1970 em Nova York, como forma de protesto e marcação de território. No Brasil, ganhou força durante a ditadura militar, com pioneiros como Alex Vallauri usando o estêncil para driblar a censura. Hoje, em São Vicente, essa arte deixa de ser marginalizada para se tornar o rosto oficial de uma cidade que busca se reinventar.