Ensino superior

Unimes reconheceu 480 diplomas de instituição paraguaia investigada por fraude

Universidade de Santos validou 64% dos títulos da FICS reconhecidos no Brasil; faculdade não possui registro legal no Paraguai e é alvo de investigação por suspeitas de estelionato e falsificação de documentos

Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) reconheceu 480 diplomas emitidos pela FICS, instituição paraguaia investigada por suspeitas de fraude e falsificação de documentos - Imagem: Arquivo
Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) reconheceu 480 diplomas emitidos pela FICS, instituição paraguaia investigada por suspeitas de fraude e falsificação de documentos - Imagem: Arquivo

Redação Publicado em 13/08/2026, às 17h07


A Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) reconheceu 480 diplomas de mestrado e doutorado da Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS), que não possui registro legal no Paraguai, levantando preocupações sobre a validade desses títulos no Brasil.

As investigações revelaram que a FICS está sendo acusada de estelionato e uso de documentos falsos, com o proprietário Ismael Fenner sob prisão domiciliar e a universidade identificando irregularidades em processos de reconhecimento de diplomas.

A Unimes suspendeu novos reconhecimentos de diplomas da FICS e poderá anular títulos já validados, enquanto a Universidade Federal de Alagoas cancelou 218 diplomas, com a Polícia Federal orientando instituições a reavaliar reconhecimentos e o MEC monitorando a situação.

A Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) reconheceu 480 diplomas de mestrado e doutorado emitidos pela Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS), instituição sediada no Paraguai que, segundo autoridades do país, não possui registro legal para funcionamento. O número corresponde a aproximadamente 64% dos títulos da faculdade paraguaia reconhecidos no Brasil por meio da plataforma Carolina Bori, vinculada ao Ministério da Educação (MEC).

A instituição estrangeira é investigada por autoridades brasileiras e paraguaias em um caso envolvendo suspeitas de estelionato e produção de documentos falsos. O proprietário apontado da FICS, Ismael Fenner, está em prisão domiciliar no Paraguai desde julho, por determinação da Justiça daquele país.

A situação ganhou repercussão após a investigação apontar que a FICS não aparece registrada no Conselho Nacional de Ensino Superior do Paraguai. Segundo o Ministério Público paraguaio, documentos apresentados pela instituição para comprovar sua regularidade continham carimbos, datas e selos considerados falsos.

Reconhecimentos feitos pela Unimes

De acordo com os dados disponíveis na plataforma Carolina Bori, a Unimes começou a reconhecer diplomas da FICS em 2024. Naquele ano, foram deferidos 264 pedidos. Em 2025, outros 216 títulos foram reconhecidos.

Entre os 480 diplomas validados pela universidade santista, a maior parte corresponde a doutorados, enquanto dois são títulos de mestrado. Os documentos estão concentrados principalmente nas áreas de educação e saúde.

A análise dos registros também identificou cerca de 150 processos em que o reconhecimento pela Unimes ocorreu no mesmo dia em que o pedido foi inserido na plataforma, segundo levantamento realizado pela TV Globo. Ao todo, mais de 700 títulos da FICS aparecem como reconhecidos no Brasil por diferentes instituições de ensino, entre universidades públicas e privadas.

Universidade suspendeu novos processos

Em posicionamento encaminhado sobre o caso, a Unimes afirmou que os procedimentos de reconhecimento de diplomas estrangeiros seguem as regras estabelecidas pelo Ministério da Educação e pela Resolução CNE/CES nº 2/2024. A universidade informou ainda que suspendeu, desde abril de 2025, a tramitação de pedidos de egressos da FICS, após orientações de cautela relacionadas às investigações conduzidas pelas autoridades.

Segundo a instituição, os processos são analisados a partir da documentação apresentada pelos interessados na plataforma Carolina Bori. A Unimes também declarou que poderá instaurar procedimentos internos para verificar eventuais irregularidades e, caso sejam identificadas, anular reconhecimentos de diplomas que tenham sido obtidos com documentação irregular, respeitando o direito de defesa e o contraditório.

UFAL cancelou 218 títulos

O caso também levou a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) a cancelar 218 títulos da FICS. A instituição informou que foi induzida ao erro pela documentação apresentada durante os processos de reconhecimento. Um dos casos envolve uma pessoa que concluiu um falso mestrado em 2022 e posteriormente teve o diploma reconhecido pela UFAL. Segundo o relato divulgado na investigação, o aluno desembolsou mais de R$ 40 mil e acabou tendo o título cancelado.

O delegado da Polícia Federal Bráulio Galloni afirmou que universidades brasileiras que reconheceram diplomas da FICS foram comunicadas sobre a irregularidade da instituição paraguaia. A orientação é que sejam avaliadas medidas para eventual cassação dos reconhecimentos.

O MEC informou que administra a plataforma Carolina Bori e realiza notificações às instituições de ensino envolvidas. A pasta, porém, ressaltou que medidas definitivas dependem da conclusão dos procedimentos de apuração.

Como funcionava o esquema investigado

Segundo as autoridades, a FICS oferecia cursos de pós-graduação a brasileiros, principalmente nas modalidades de mestrado e doutorado. A divulgação era realizada pela internet e apresentava valores e condições de pagamento para os cursos. Os investigadores apontam que estudantes eram orientados sobre procedimentos necessários para tentar obter o reconhecimento dos títulos no Brasil, incluindo a comprovação de passagem pelo Paraguai.

A investigação paraguaia identificou inconsistências nos documentos utilizados para demonstrar que a instituição estaria regularmente autorizada a funcionar. Conforme o Ministério Público do país, havia assinaturas, carimbos e selos falsificados.

Outro ponto investigado é o uso do nome do ISICS, uma instituição de ensino que existe legalmente no Paraguai. O proprietário do ISICS, Christian Acevedo Alvarenga, denunciou Fenner por suposto uso indevido da marca.

Dono da FICS está em prisão domiciliar

Ismael Fenner, apontado como proprietário da FICS, teve a prisão determinada pelas autoridades paraguaias e atualmente cumpre prisão domiciliar em Assunção. Para deixar a prisão, ele teria pago uma fiança próxima de R$ 900 mil. No Brasil, Fenner também foi indiciado pela Polícia Federal por suspeita relacionada à apresentação de documentos falsos.

A defesa do empresário nega as acusações e afirma que ele seria vítima de uma disputa envolvendo empresários do setor educacional no Paraguai. Fenner também sustenta ter direitos sobre o ISICS, embora a defesa reconheça que esses direitos estão atualmente suspensos.

A advogada que representa a FICS no Brasil também questiona o cancelamento dos diplomas pela UFAL e afirma que a instituição deveria ter direito de defesa nos procedimentos. Sobre a possibilidade de ressarcimento aos alunos, a defesa informou que o tema depende das investigações e das decisões judiciais.


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