Reflexões sobre a importância da eloquência e como a comunicação política pode ser revitalizada nos dias de hoje
Reinaldo Polito Publicado em 17/04/2026, às 11h50
Por força de ofício, acompanho com atenção a política brasileira e, sobretudo, a forma como nossos representantes se expressam no Congresso. E, vez ou outra, me questiono: o que aconteceu com a eloquência parlamentar? Teriam desaparecido os grandes oradores? Será que falar bem caiu em desuso? Claro que não.
Onde estão os tribunos com a qualidade oratória de Coelho Neto, Joaquim Nabuco, João Neves da Fontoura, Emílio Carlos? Será que a arte de falar em público não encanta mais as plateias? Ainda surgem bons nomes aqui e ali. Ciro Gomes é um exemplo recorrente. Mesmo assim, a impressão é de que os grandes oradores se tornaram raros. Talvez por isso eu recorra, com certa frequência, à memória de um orador extraordinário, Carlos Lacerda.
Quando o aprendizado vinha em fita cassete
Hoje, ninguém fala mais em fita cassete. Alguns jovens talvez nem saibam o que isso significa. Cheguei a manter um carro só porque ele possuía toca-fitas. Esse veículo era uma raridade. Eram outros tempos. Nos anos 1980, a internet ainda não participava da nossa vida.
Contada agora, a história parece meio maluca. Havia uma empresa do Rio de Janeiro que vendia gravações antigas de áudio. Só para dar uma ideia de como era, eles possuíam um catálogo rudimentar, copiado de folhas datilografadas. Ali estavam relacionados discursos históricos, programas de rádio já extintos, músicas raras. Bastava escolher e fazer o pedido por telefone. Dias depois, as fitas chegavam.
Comprei todas as gravações que encontrei de Carlos Lacerda, como discursos, debates e pronunciamentos. Ouvia atentamente cada uma delas no carro.
Da minha casa até a escola, gastava mais de uma hora. Outro tanto para voltar. Eram duas horas para eu mergulhar naquele material. Às vezes permanecia estacionado apenas para ouvir o desfecho de uma fala. Lacerda tinha uma presença vocal impressionante. Voz firme, timbre marcante, cadência envolvente.
Admirado até pelos adversários
Ao assomar à tribuna, transformava-se. Postura, energia, domínio do tema. Tudo contribuía para uma atuação que chamava a atenção até dos adversários. E não eram poucos.
Era um improvisador incomparável. Falava sem anotações, com segurança, sobre praticamente qualquer assunto. Aquele estilo livre me intrigava e me seduzia.
Voltei inúmeras vezes as gravações. Em alguns trechos, parecia haver falhas. Mas, ao ouvir com atenção redobrada, ficava claro que havia estratégia. O que parecia deslize era, quase sempre, preparação para um efeito posterior.
Assim fui ouvindo e aprendendo. Um aluno a distância, tentando decifrar a lógica por trás de cada escolha.
Lógica, vocabulário e precisão
Cada discurso era uma aula. Organização mental rigorosa, encadeamento lógico e um vocabulário impressionante. Lacerda conseguia falar longamente sem recorrer a repetições desnecessárias, mesmo improvisando.
Havia nele algo curioso. A correção de quem escreve e a naturalidade de quem conversa. Nada era dito ao acaso. Cada frase servia como base para o que viria adiante. Em certos momentos, a conexão só aparecia muitos minutos depois, quando o público já nem se lembrava da ideia inicial. Ainda assim, tudo fazia sentido.
Talento e controvérsia
Sua trajetória política foi intensa. Vereador, deputado federal, governador da Guanabara. No jornalismo, fundou a Tribuna da Imprensa. No campo editorial, participou da criação da Nova Fronteira.
Mas não era uma figura simples. Tinha qualidades notáveis e defeitos igualmente marcantes. Era combativo, por vezes implacável. Podia ser sarcástico, duro, até injusto em certos embates. Nos confrontos, tornava-se um adversário temido. Quem o enfrentava, em geral, saía derrotado. E, naturalmente, acumulava inimigos.
Digladiou com nomes que ficaram para a história na política brasileira, como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. Mais tarde, já no exílio, reaproximou-se de Juscelino, em um gesto que indicava disposição para a redemocratização.
O que ficou
Independentemente das controvérsias, seu lugar na história está assegurado. Para mim, em especial, ficou o aprendizado.
Muito do que ensinei ao longo de décadas, em cursos, palestras, aulas, nasceu dessas escutas solitárias dentro de um carro com toca-fitas. Foram lições absorvidas, testadas e repassadas a milhares de alunos. Hoje, quando observo a comunicação política, faço comparações. Talvez ainda seja possível resgatar a força daquela boa oratória. Siga pelo Instagram: @polito